I- Os recolhedores.
O cruzador pesado de batalha da Federação Intergaláctica singrava o espaço vazio, com a Via Láctea como seu pano de fundo! Armas a postos, sensores de rastreamento remoto ativos, o colosso metálico de 500 metros de envergadura por 20 metros de largura, avançava, brilhante, poderoso e temerário, rumo a um setor do éter bem adiante deles! Um planeta lúgubre, de coloração cinzenta orbitava ali, com luas pequenas ao seu redor; na Ponte de Comando, um homem atarracado observava a cena, impassível; outro homem se juntou a ele, em silencio. O mundo sinistro agigantou-se perante os observadores até que o primeiro murmurou:
-Quanto tempo até a órbita?
- Vinte minutos, coronel!
-Irônico, não?! Jamais pensei que viria até este lugar de novo......- ruminou o outro, pensativo!
-Quanto tempo faz? Três anos?
-Três anos, cinco meses e dezoito dias.... e eis –me aqui de volta....
-Vectra-12....Não pensei que fosse tão feio!
-Era... mas piorou, após os bombardeios maciços! –apontou para uma mancha marrom no hemisfério meridional!-Ali era a maior cidadela deles! Naquela área eu vi meus amigos serem trucidados...mas também vi os toritas serem aniquilados! Eu arriscaria dizer que ela é marrom de tanto sangue vermelho e amarelo que foi vertido lá!- fez uma careta de nojo! – A batalha de Vectra terminou naquele lugar...milhares e milhares de baixas de ambos os lados!
-Dizem que só de nossa parte, uns 500 mil! Imagino da parte deles.......- retrucou o outro, fitando o planeta! O coronel murmurou:
-Bem, já que temos de estar aqui, que sejamos breves! Comunique-se com o posto em terra quanto à nossa chegada! Sensores em vigilância máxima!
O homem que falara suspirou pesadamente; aquela área estelar era teoricamente da Federação, após o Armistício; no entanto, devido à enorme distancia de suas bases mais próximas dali, bem como às vicissitudes de pós-guerra, tanto de pessoal como de material e verbas, os seres humanos jamais puderam de fato, se assenhorear completamente daquele sistema. Mantinham ali, há pouco mais de um ano, um pequeno posto de observação, blindado e armado, com a finalidade de simbolicamente dominar o local, enquanto mantinham vigilância remota aos toritas, cujo mundo natal ficava no mesmo quadrante. Na verdade, da parte dos homens, nem houve uma intenção real de se estabelecer de vez lá, posto que os toritas estavam esfacelados, sem poder combatente desde então ( ou pelo menos, assim se supunha!), e....bem, Vectra-12 era menos uma vitória e mais um trauma para a Federação! Muitos milhares de humanos pereceram ali; a batalha final que pôs fim a uma guerra sangrenta, sem vencedores, um verdadeiro empate técnico, antes da iminente aniquilação mútua das duas facções, se deu naquele planeta! Na Terra nem se mencionava muito a batalha; causava calafrios em quem ouvia falar nela sem ter participado e convulsões psicóticas nos veteranos que dela lograram escapar com vida!
Lawrence Tarkah era venusiano de nascimento; desde cedo, ingressara na carreira militar e já singrara meia galáxia a serviço da Federação! Quando a guerra de apoio aos Hecrons contra Torus eclodiu, ele achou um erro a entrada dos humanos no combate. O povo de Agëlla sempre lhe foi mal-visto, até porque seus bisavôs combateram os hecrons em duas guerras seguidas, inclusive com mortes de parentes nestas ocasiões ! A família Tarkah não tinha boas lembranças dos agëllianos, portanto, e de repente, por injunções políticas, os humanos viram-se aliados deles e forçados a apóia-los em sua pelejas particulares! Ironicamente, o coronel Tarkah até possuía membros de sua tripulação com sangue hecron, graças à miscigenação ocorrida entre as duas espécies humanóides durante duzentos anos! No passado, estes mestiços haviam provado seu valor, lealdade e ferocidade em batalha, pela federação e eram amplamente aceitos na Força Interestelar, devido a isso.
Tarkah era um veterano de Vectra-12........a visão do planeta sombrio lhe evocou toda uma tempestade de lembranças sórdidas, sofridas e aterrorizantes! Ele não era de sentir medo mas.....ao recordar pelo que passara na superfície daquele orbe, sentiu um arrepio na nuca, gelado como o frio do espaço lá fora!O Imediato se aproximou, atencioso:
- Tudo ok, senhor! O posto já está nos aguardando!
-Libere dois caças para circunavegar o planeta, em exploração...Não devemos vacilar com um possível alvo oculto de nós do outro lado de Vectra!
O segundo em comando obedeceu e eles assistiram os caças partirem de seu hangar para a missão de segurança; Lawrence ruminou, atento:
- Só começaremos o pouso quando eles retornarem, com a total segurança orbital daqui! Manter o alerta amarelo!
Passaram-se vinte minutos de espera com ansiedade contida; os pilotos deram sinal de vida pelo rádio: tudo estava bem; a órbita de Vectra-12 estava vazia e pacífica, assim como suas luas próximas! O coronel ordenou, então:
-Piloto: iniciar procedimentos de pouso.- determinou o homem atarracado, olhos fitos na vigia principal, que exibia o mundo enorme abaixo deles! Sons diversos ecoaram na nave toda: comportas se lacrando, motores em reversão, alarmes, avisos aos tripulantes! Ele gostava deste burburinho a bordo! Cada setor se reportava a ele agora, pela voz de seu Imediato!
-Comunicações, ok!..Tático, ok!....Sensoriamento remoto, ok!...Engenharia, ok!
Tarkah sorriu!
- Piloto: leve este pássaro para o solo!
A enorme espaçonave estremeceu levemente e adentrou na atmosfera abaixo dela! O comandante fixou o olhar numa lua escura distante deles, atrás da qual o inimigo ocultara uma enorme plataforma de batalha orbital, com a qual surpreendera e destruíra o orgulho da Frota Federal, o encouraçado I.S.S. Prometeu, nos últimos dias da guerra! Ele se lembrou de como durante semanas, viu, como os demais soldados em terra, a queda dos destroços do colosso federal, em pedaços, como estrelas cadentes ao arderem na reentrada da atmosfera vectriana! Fora um duro golpe nos humanos e por pouco a Federação não decretou retirada do planeta invadido! Felizmente, logo a seguir, um grupo de abnegados heróis anônimos logrou penetrar na cidadela torita e mandou-a pelos ares, juntamente com a plataforma orbital de batalha! Nunca se soube ao certo como este bravos lograram atingi-la de terra mas cogitava-se que eles tivessem enviado pelo feixe de tele transporte existente entre a cidadela e a plataforma, uma carga de explosivos potente! O fato foi que, logo a seguir, os toritas cessaram os combates, sem se render, e pediram a reunião que culminou com o Armistício! Os terrestres e hecrons envolvidos na peleja nunca admitiram isso mas suspiraram de alivio pelo acontecimento, pois também eles estavam prestes a capitular, frente à total exaustão de recursos materiais e de tropas que o conflito lhes impusera!
E agora, três anos e tanto depois, ele estava ali, de volta ao “açougue”, com uma missão assaz peculiar: recolher os restos dos que lá ainda jaziam, esquecidos e dar-lhes exéquias de honra, na terra! A grande maioria dos 500mil já fora recambiada ao fim do conflito mas....muitos não foram achados e ainda lá embaixo estavam, para desespero de seus entes queridos em casa; apesar de inúmeros apelos de organizações de veteranos e familiares, a Terra sempre protelou o inevitável, alegando desde razões de falta de segurança no sistema Vectra até falta de recursos para isso; agora, no entanto, o governo central, em vésperas de eleições, resolvera cavar alguns milhões de votos a mais com o problema e optara por tal missão humanitária. O coronel de cabelos negros e olhar arguto coçou o rosto moreno, bem barbeado e matutou por segundos; o Imediato se acercou dele de novo e indagou:
-Quais áreas exploraremos?
-Conforme a determinação do Alto comando, a região em torno da cidadela torita... A radiação local da explosão original já se dissipou, segundo o pessoal do nosso posto de observação em terra. Os papa-defuntos da época nem se atreveram a ir lá, devido aos altos índices de radiação de então.
- E o senhor acha que ainda resta algum despojo pra ser recolhido se a coisa foi tão feia assim!?
- Eu não acho nada. Nem desejaria estar aqui de novo, se quer saber; só cumpro ordens. Como você...
-Entendo.... mas eu estou vindo aqui pela primeira vez, já o senhor....Não podia ter pedido para ser dispensado desta missão? Ninguém o criticaria por isso, sabendo o que o coronel passou neste lugar maldito!-retrucou o major a seu lado. Tarkah suspirou pesadamente:
- Eu me criticaria; isso me basta.- lançou um olhar gélido para o subordinado, que se encolheu ante a frieza do superior e calou-se. A nave de guerra acionara motores convencionais de atmosfera para voar até o posto federal, no equador de Vectra-12; em minutos, estavam lá, pousando. Um coronel negro e alto, corpulento, com um cavanhaque fino e uma tênue cicatriz na bochecha esquerda, os recebeu, com postura marcial! Os dois se saudaram, rígidos e então, Tarkah sorriu pela primeira vez:
-Noah! Bom revê-lo! Quanto tempo faz? Três anos?
O outro retribuiu o sorriso! Com uma voz forte, o anfitrião retrucou:
- Dois anos e meio, acho eu! Como vai, Lawrence?
- Não tão bem quanto você! Continua bom de braço?
-Eu o venci na arena da base estelar, na última vez, lembra-se!? – riu o negro, com um ar maroto!- e era só um treinamento entre amigos!
-Eu aprendi um pouco mais de Box Tailandês desde então, sabia? Estas lutas antigas agora são a minha fixação! Duvido que você me derrubasse hoje!
-Precisamos de uma revanche, né, meu amigo!?-o coronel indicou a entrada do posto fortificado sob seu comando, cortês! – Mas não hoje, receio! A missão em primeiro lugar, depois os esportes! Já jantaram?
-Huummm... Nós almoçamos! Mas eu esqueci que aqui o tempo é sempre assim, esta fumacenta penumbra! Nunca se sabe ao certo se é dia ou noite! E ainda tem os ventos gélidos!
-Aqui no equador ainda é mais tolerável, pouca ventania, mesmo com este eterno lusco-fusco. Os sóis deste sistema estão distantes e sua luz que chega ao planeta é sempre meio invernal; você sabe como é...De qualquer forma, só para você se re-atualizar, estamos no início da noite, hora da janta! Se não forem comer, podemos bater papo na sala de recreação antes de dormir! Amanhã, você começará seu trabalho....
O recém-chegado apresentou seu imediato:
-Major Fargo, meu segundo em comando! Major, este é o coronel Noah Mabuto, meu colega de classe na Academia e de lutas aqui em Vectra-12!
Fargo perfilou-se e saudou o superior, que o retribuiu, com um olhar seco. O major murmurou, meio sem jeito:
- O... o senhor também lutou aqui?
- Sim! – respondeu Mabuto, curioso com o olhar de admiração que o major lhe endereçava! - e o que tem demais?
Tarkah pigarreou, explicando ao colega:
-O major,a exemplo de muitos mais novos que nunca estiveram aqui, têm uma certa veneração por veteranos como nós, Noah! Vectra-12 continua muito famoso nas fileiras da Força Interestelar.
Noah Mabuto replicou, sério:
- Creio que eu entendi...o major deve estar impressionado por ter a honra de conhecer num único dia, dois sobreviventes do “açougue” de Vectra-12! Pois é, moço...a vida é assim mesmo! O seu comandante, pelo menos ainda escapou com o rosto intacto!- apontou para sua bochecha esquerda! Fargo corou e encarou Tarkah, que ruminou, debochado:
-Ora, deixe de drama, Noah! A faca do torita nem arranhou muito sua cara feia! Nem dá pra se notar!
O negro deu uma gargalhada estrondosa, abraçando o colega de armas, enquanto entravam na base militar diante deles!
- Você tem razão, Lawrence! Deviam ver como ficou o dono da faca, quando eu acabei com ele!
* * *
Enquanto seu segundo se acomodava com parte da tripulação que desembarcara, os dois coronéis bebiam na sala de recreação, conversando animadamente sobre trivialidades, como dois amigos há muito sem se ver. Lawrence Tarkah estalou a língua, analisando o drink que lhe fora oferecido pelo comandante do posto militar.
-Noah, meu velho: esta “Tallya” está soberba! Não fazem mais safras como esta lá em Marte, ultimamente!
-Por que acha que reservei esta para ocasiões especiais!? Esta garrafa tem uns trinta anos de envelhecida!- explicou o outro, sorridente. Houve uma pausa, um silêncio, por alguns instantes e o visitante suspirou:
-Como estão as coisas aqui?
-Desde que cheguei há um ano? Normais!
-Soube que você pediu recondução ao comando deste lugar... por que, Noah? Este comando é de um ano apenas! Poderia ter pedido para voltar para casa!- murmurou Tarkah, curioso.
-Eu sei.... mas Soraya preferiu o divórcio, depois que voltei da guerra...Acho que ela não....agüentou a minha...nova personalidade!-falou isso com ironia na voz. O outro sacudiu a cabeça em concordância:
- Você também!? Pensei que só eu passara por isso, ao voltar!
-Creio que 80% dos sobreviventes deste mundo passaram.... sabe como é...a gente nunca mais volta a ser o mesmo, depois de Vectra-12! -disse o negro, pensativo! - eu decidi enfrentar meus demônios e.... vim pra cá de novo!Por isso também renovei meu comando aqui... não tinha para quem voltar, entende?!
-Claro que sim...... e você exorcizou seus fantasmas?
-Por ora, está tudo bem...por incrível que pareça, eu me sinto bem aqui...Os toritas nunca aparecem, nada acontece o tempo todo.... Não que goste deste mundinho maldito mas...é como se estivesse em casa! E o salário é 100% maior, devido às...peculiaridades do local!
- Você é louco, cara! – resmungou Tarkah, sorvendo de uma vez todo o conteúdo de seu copo! O colega o imitou e fez uma careta, quando o poderoso licor desceu-lhe pela garganta abaixo!
- E qual de nós, veteranos, não o é!?
O moreno ergueu-se de sua poltrona e olhou pela janela, vislumbrando o deserto lá fora, batido agora por uma ventania distante, que levantava nuvens de pó sob os refletores de vigilância do perímetro da base:
-Quando foi lá?
- Na cidadela?
-Sim...
- Faz uma semana! Os níveis de radiação teta se dispersaram no último ano... a área tornou-se segura para visitação sem o traje protetor!
_Você...viu algo na região?
O negro encarou-o pensativo; e indagou, como se soubesse a resposta:
-O que?
-Você sabe... corpos...
-Esta sua missão é um sandice! O pessoal lá da Terra devia procurar o que fazer em vez de se preocupar com esse absurdo...gastar tempo, dinheiro e pessoal para resgatar fragmentos de ossos!?- Tarkah deu de ombros:
-Sabe como diz aquele velho ditado: “Nós nunca deixamos nossos mortos para trás” !
- Isso valia antes das guerras espaciais....Hoje temos cadáveres flutuando no espaço vazio por duas galáxias! Tolice! Deixe os mortos para trás e cuide dos vivos, é o meu lema!
- De certa forma, concordo com você! Não pedi esta missão!
- Sim, acredito que foi mandado... Ninguém volta pra Vectra-12 por espontânea vontade!-sorriu! -Exceto eu!
O outro coronel voltou à pergunta inicial!
- Vou pra cidadela amanhã... diga-me o que vou encontrar por lá.
-Poeira... frio...ventania...uma cratera soterrada colossal....vermes gigantes....e alguns restos mumificados! Eu mesmo recolhi alguns quando fui lá..estão no necrotério, esperando sua nave para levá-los para casa!- respondeu Mabuto, sério.
-Obrigado pela ajuda!-disse-lhe ele! - De qualquer forma, não deve haver muitos, mesmo! A explosão volatizou 99% dos vivos no local! Eu irei lá, recolherei alguns coitados para identificação e translado para casa, para satisfação pública e dos políticos de merda do governo central e...cairei fora deste túmulo planetário...desta vez, para sempre, Noah!
–É o que deve ser feito. E a minha tropa de substitutos? Afinal, só eu pedi recondução ao comando! O resto dos rapazes está louco pra dar o fora daqui!
- Eu trouxe os seus substitutos, devem estar desembarcando amanhã! Mande os substituídos embarcarem logo a seguir, pois não pretendo demorar muito na cidadela, ok?
-Lawrence.....Você não precisa ir lá...Mande aquele seu major com cara de chorão em seu lugar!- criticou-o Mabuto, enchendo de novo seu copo e o do amigo. O coronel de cabelos negros exibiu um sorriso triste em seus lábios e resmungou:
-Não dá...Eu também tenho demônios pra exorcizar! –Tomou o copo das mãos do amigo e virou-o de um só gole, cumprimentando-o, já de saída!- Obrigado pela “Tallya”! Boa noite, Noah!
* * *
Uma noite mal dormida, com sonhos estranhos, pouco lembrados depois, o coronel estava a frente do destacamento de recolhedores dos despojos de seus camaradas tombados na guerra. Um comboio de sete veículos decolou do posto em direção ao sul, rumo à cidadela principal dos toritas, aonde se deu o fim da campanha! A viagem pouco durou, enquanto Tarkah sentia angústia indistinta, face ao cenário tristemente familiar e aos sonhos que não lhe saiam da cabeça, embora, fossem apenas fragmentos desconexos e nada mais! Ao longo do caminho, vez por outra, os sensores calibrados para este fim detectavam restos humanos aqui e ali, afastados do eixo da trilha que seguiam e o comboio parava por minutos, para que homens se dirigissem aos locais indicados e voltassem pouco depois, com urnas atrás de si, ocupadas por algum herói esquecido. Lawrence Tarkah sentia o coração apertar nestes momentos, recordando-se dos amigos que vira perecer durante a luta e de quantos deles talvez ainda estivessem por aí, ignotos; olhando para o cenário inóspito, batido pelos ventos frígidos, naquela penumbra eterna, revendo com asco um raro verme grande ali e outro acolá, emergindo por instantes de túneis cavados por eles no solo arenoso, recordou como lutara com estes animais medonhos também, na solidão das trincheiras, pois quando morria alguém, estes carniceiros oportunistas, sentindo o cheiro característico da morte, surgiam subitamente de buracos, dentro das valas ocupadas pelos humanos e estes tinham de se defender de sua ferocidade cega, ávidos por uma refeição a mais naqueles tempos de fartura de alimento! Ao mesmo tempo, fitava as encostas e as raras colinas ao redor, sentindo uma vaga ansiedade, não sabia definir bem pelo que! Voaram de novo rumo ao sul; vislumbraram destroços mil pela paisagem lúgubre; carros de combate, naves de caça, até mesmo uma enorme seção do encouraçado “Prometeu”, logo reconhecido pelo coronel, devido às suas colossais proporções, a uns cinco quilômetros a leste de sua rota; o seu subalterno informou que os sensores de corpos nada indicavam nela, o que causou alívio no comandante. Provavelmente, já fora “limpa” desde o fim da guerra, refletiu ele. Uma cadeia de montanhas aproximava-se deles; o vento redobrava de intensidade, revoluteando nuvens de poeira e detritos ao redor dos veículos voadores; o subalterno informou:
-A cidadela está logo adiante, senhor.
Tarkah não prestou atenção a isto! A angústia inundou-lhe o coração e ele suspirou desesperadamente, levando o major a fitá-lo com espanto!
- Está passando mal, coronel!?
-Hã!? Não, não...em absoluto! –Torceu-se no assento, tentando avistar algo à direita, além dos montes que se aproximavam, velozes! O que ele estava procurando!?
-Chegamos! –avisou o piloto de seu veículo, solícito. O coronel ergueu-se da cadeira e abriu a porta do transporte, recebendo uma lufada gélida no rosto! Apertou bem o fecho de seu dólmã térmico e colocou o gorro com óculos de proteção. Com vagar, ordenou:
- Todas as equipes saltem, chequem seus agasalhos, pois está frio aqui! Iniciem a varredura dos sensores!
À sua frente, uma ampla planície, sob a luz mortiça dos sois de Vectra, cercada de montanhas escuras; no centro desta, uma enorme cratera rasa! Muitos destroços militares calcinados e semi-encobertos de rochas, terra e pó! O único som audível ali era o do vento cortante e uivante, de dar calafrios no homem mais audaz! Uma vontade irresistível de olhar para a direita de novo o tomou e ele assim o fez! As equipes se espalharam, silenciosas e respeitosas, revirando pedras, inspecionando carcaças de veículos, todas com seus aparelhos de sensoriamento ativos! O major Fargo gemeu, temeroso:
- Nunca imaginei que fosse assim......É tão....solitário!
Lawrence Tarkah saiu de seu transe ao ouvir estas palavras e estremeceu! Com decisão, disse:
-Fique aqui supervisionando tudo! Eu vou...fazer uma checagem por ai!
-Senhor! É seguro se afastar do comboio!?
-Com certeza! Esta área hoje é mais morta do que um cemitério, literalmente falando! Eu volto em dez minutos; mantenha o rádio ativo!- sem mais delongas, retornou ao seu veículo, dispensou o piloto e, sozinho, decolou do solo, planando a meia altura, rumo à direção que lhe atraia magneticamente!
! O veículo sobrevoou um vale escuro e seguiu para o leste, por quinze minutos, o piloto solitário guiando como se fosse um autômato! Então, pousou num planalto isolado.... O coronel saltou do seu transporte, como em transe e subitamente, voltou a si! Diante dele, o nada! Olhou para todas as direções, confuso! O que estava fazendo naquela desolação? Viu o relógio: já passara e muito, do prazo dado ao seu Imediato! Fez contacto pelo rádio e.....nada aconteceu! Com espanto, desceu do veículo e pisou no solo duro, sob o vento frio! A angústia cessara! Andou em torno, curioso; nada lhe era familiar...o que buscava, afinal!? Sentiu um arrepio, apesar da roupa aquecida! Uma visão começou a se formar a sua frente! Uma forma humanóide se materializara, entre os rodopios de poeira da ventania! O homem levou a mão ao coldre, num ato reflexo, mas a voz em sua mente foi incisiva!
-Não!
Ele se deteve, estupefato! A figura estava bem visível agora: era uma mulher! Uma mulher muito bonita! Ela se aproximou lentamente, sem tirar os olhos cinzas de seu interlocutor!Com delicadeza, retrucou, desta vez, vocalmente:
-Cumpriu bem meu comando mental, coronel! Ao acessar-lhe a mente esta noite, não imaginei que seria tão suscetível à minha sugestão!
-Quem...é você!!??- murmurou ele, meio que paralisado!
-Quem eu sou, não importa! A razão de estarmos aqui, sim, é importante! Reconhece este planalto?
-Não! O que...?
-Na guerra, você foi trazido aqui como prisioneiro!
–Eu nunca fui feito prisioneiro! Que sandice é esta, dona...sei - lá- quem- é você!?
-Sua mente foi alterada, coronel; descobri isso, quando a sondei, antes de vocês aterrissarem neste mundo infeliz! E ao fazê-lo, descobri toda a sua história oculta! O que era para ser uma simples missão de observação à distancia, evoluiu para isso aqui!- ela olhou em torno, curiosa! Vestia um macacão violeta brilhante, um corpo escultural, com a pele alva e lindos cabelos cacheados negros!- Para simplificar as coisas para você, eu sou Aydr! Lhe direi algumas coisas sobre mim, porque você logo será novamente induzido ao esquecimento, por minha sugestão mental, assim...não há porque ficarmos com adivinhações no momento; depois eu o farei esquecer! –ela concluiu com uma frieza digna de um robô! O homem diante dela fez um esgar de insatisfação! Quando quis dar um passo em sua direção, irritado, não conseguiu, estava como que congelado! A jovem misteriosa murmurou:
-Só o liberarei para movimentos quando compreender que nada pode contra mim! Estamos de acordo? Vai se comportar pacificamente? Não tente me agredir ou eu o porei fora de ação com um comando mental meu!
Lawrence Tarkah soltou um suspiro de frustração, contraindo-se em vão e raciocinou por momentos; então, tornou a fitar aqueles olhos hipnóticos!
-Era você nos ...sonhos esta noite?! E a angústia que senti... a compulsão irresistível para chegar aqui?.....
-Sim. Eu o acessei a noite, enquanto dormia e ditei-lhe suas ordens para vir até este lugar! A angústia e compulsão de que fala, no entanto não foi de minha responsabilidade....
–De novo, eu pergunto: quem é você? E pode me liberar...não vou atacá-la! A moça meneou a cabeça, séria; os movimentos lhe voltaram instantaneamente! Ela então falou:
-Meu povo está observando o seu há tempos; fomos contatados em nossos domínios por vocês, recentemente. Acabamos de estabelecer relações diplomáticas, inclusive! Determinados eventos envolvidos nesse processo de aproximação nos levaram a desejar saber mais sobre a humanidade em si; como resultado, enviamos missões secretas de observação para alguns recantos de sua dominação..e eu estou aqui! –Tarkah ia falar algo, mas ela leu sua mente e retrucou:
-A razão de estarmos aqui é que este mundo e sua conquista foram muito traumáticos para sua espécie! Um humano em especial, envolvido nos eventos de que relatei, esteve de passagem aqui, na sua guerra e isso o abalou sobremaneira, atraindo a atenção de uma irmã de minha espécie para ele, como um ímã! Ela identificou, com esta convivência, sensações e sentimentos que há milênios nosso povo esqueceu e...abdicou do lar ancestral para viver com ele, como humana! Por isso, tínhamos de vir a Vectra-12 para compreendermos o que este mundo fez a vocês!
-Pode ler minha mente!Fantástico! E esta alienígena que se enamorou, eu suponho, de um humano...o que houve com ela!?
-Vivem felizes até hoje no planeta do humano em questão; nós assim o permitimos, pois não temos por hábito cercear as decisões de nosso povo.Todos são livres, ao menos até certo ponto, para fazer o que quiserem.
-Mas esta sua compatriota...ultrapassou os limites, não!? –adivinhou ele, interessado.
-Sim...ela foi banida de nosso povo e de nosso lar. Mas aparenta ser feliz com a decisão que tomou.
-Imagino...como não estou a par de nada disso?
-Seu governo, a pedido do meu, fez de tudo o que contei, uma situação sigilosa; só alguns “graudões” tem conhecimento do acontecido; tudo pela diplomacia e meu povo é de importância bélica capital para o seu, em vistas da ameaça Koshita.
Neste ponto, Tarkah pegou o fio da meada!Com seriedade indagou:
-Você se refere aos invasores do Braço de Sagitarius! Como militar de patente superior, eu tive acesso a este assunto no Alto comando, há meses atrás! Então você é de um dos povos aliens daquele setor!! Ao que eu saiba, a coalizão entre nós e vocês evitou a invasão dos Koshitas, no ano passado! Ainda há perigo por lá!?
-Sempre haverá! Planejamos uma incursão à galáxia de Kosh no futuro, para monitorarmos melhor o risco que aquele povo nos oferece, porém...por enquanto, mantemos as coisas como estão.
O homem deu de ombros, recordando-se do assunto inicial!
- Bem... você está aqui em Vectra para estudar nossos traumas e complexos em relação a guerra; e eu nisso? Que quis dizer com eu ter sido aprisionado!? Eu não me recordo disso! Eu nem combati neste meridiano, eu lutei no norte!Como chegou aqui sem ser detectada? Você está sozinha? Veio numa nave?O que deseja na verdade, me trazendo a este ermo em que estamos agora!? A que povo você pertence?
-Muitas perguntas!- retrucou ela, com um sorriso na face, que realçou ainda mais a sua beleza!- A algumas delas posso responder....Você foi aprisionado, como eu disse, nos últimos dias da guerra, na batalha de Polar Cânion! Recorda-se dela?
O homem meneou a cabeça! Fora ferido lá, sim! Com vagar, retrucou:
-Eu me feri em combate em polar Cânion; fui recolhido para a retaguarda e levado para uma nave-hospital! Enquanto eu lá estava, me recuperando, a guerra acabou! Ainda assim, não fui capturado! Sua sondagem mental tem defeitos, dona Ay...aydara !
-Aydr! E minha sondagem não mente; os toritas “lavaram” a sua mente após os procedimentos e o deixaram no front , para ser encontrado ferido e levado para a retaguarda, sem memória do que fizeram com você!
-Que “procedimentos”!?
-Como disse no início, você se sentiu impelido a vir para cá, sem saber por que!
-Foi sua ordem mental! –exclamou ele, sentindo o rosto vergastado pelo vento frio!
-Na verdade, eu pus disciplina na sua compulsão, pois ela já existia, antes de eu acessá-lo ao dormir; e providenciei estar aqui quando você chegasse...Não poderia arriscar que viesse sozinho, sem minha vigilância, como o comando embutido em seu cérebro pelos toritas havia pré-estipulado! No momento em que você entrou em órbita de Vectra-12, devido à proximidade da fonte emissora, certos “ imputs” cerebrais seus foram despertados e você entrou, inconscientemente, em fase de obediência a antigos comandos toritas implantados em sua mente naquela época. Eu apenas me assegurei de que você viria sob minha supervisão até este ponto de encontro!
-Ponto de encontro? Com o que?
-Para que possamos ir em frente, devo eliminar sua sugestão mental torita primeiro....seria perigoso se você fosse adiante comigo sob controle dos seus inimigos!
-Perigoso para você?!
-Não, não para mim...para você! Tentaria me matar e eu teria de me defender.....
.....- ela exibiu um sorriso frio! O humano suspirou, confuso:
-Continuo não entendendo... A ser verdade o que você afirma...qual o seu interesse na situação!?
Aydr olhou para o céu enfarruscado e estremeceu, como se o frio a afetasse e não quisesse dar a notar isso; então disse-lhe:
-Meu povo não se intromete em assuntos de outras culturas; minha missão aqui seria unicamente de observação e estudo psicológico da sua espécie.... Vinha sendo assim há duas semanas, desde que cheguei neste mundo; eu analisava seu pessoal no posto militar e tudo ia bem, até você chegar!
-Como analisava a eles? Eles não a detectaram!?
-Assim como você não o fez, até que eu o quis....nossa tecnologia é superior em séculos, a de vocês!- ela pareceu medi-lo de alto a baixo, com certo desdém; em seguida, concluiu!- já conversamos demais! Você deve saber por que veio a este ponto geográfico!
-Por que minha chegada a atrapalhou?
-Porque me forçou a algo que eu não deveria fazer; interferir!
O coronel esboçou um sorriso, indagando:
-É mesmo!? E como eu pude fazer tal coisa a você!?
A alienígena fitou um ponto a distancia, antes de responder:
- Porque se eu o deixasse prosseguir sem interferência...você detonaria a guerra torita de novo!! E isso, meu povo, amante da paz acima de tudo, não poderia tolerar!
- Está me assustando! O que diabos eu estou fazendo aqui, afinal? Que perigo me ronda a ponto de reiniciar uma nova hecatombe!??
Aydr aproximou-se dele fitando-o nos olhos!
-Diga-me: está sentindo algo diferente agora? Eu o liberei um pouco de minha influência mental protetora; a sugestão torita implantada em você deve estar retomando sua carga total em seu cérebro!
Tarkah estremeceu! Uma onda irresistível de vontade de seguir em frente o assolou! O ponto para onde ela olhara antes, na penumbra local, era pra lá que ele tinha de ir, era imperativo que fosse!! O homem deu um passo vacilante, depois outro,e então, como num transe, começou a caminhar acelerado, contra o vento gélido e as nuvens de poeira rodopiantes! Ao chegar ao ponto desejado, caiu de joelhos e começou a cavar o solo com as próprias mãos! Aydr a tudo assistia, impassível! Após alguns minutos de frenética escavação, ele estacou! Com vagar, ora emergindo levemente do transe, ora nele mergulhando de novo, ele sobraçou um artefato que retirara do buraco! Neste ponto, ela se aproximou e fez um gesto cabalístico, que retesou o homem como se fosse uma mola distendida de súbito! Ele caiu pra trás, inconsciente, com o aparelho nas mãos! Ela se ajoelhou sobre ele e murmurou:
-Este é o ponto mais seguro que pode avançar sem mim, coronel!Agora vamos retirar esta sugestão hipnótica de sua mente, Lawrence!
II – Zumbis!
A mulher não teve tempo de fazer o que pretendia! No instante seguinte, recebeu o impacto de um tiro direto de defasador no tórax e voou longe, estrebuchando! Com suas últimas forças, vislumbrou uma torre de tiro que emergira silenciosamente da areia, atrás de si! O ato do humano sobraçar o aparelho que desenterrara do solo, devia ter acionado algum comando de defesa torita esquecido na região ao redor deles! Ela, entretida em ajudá-lo, descuidara-se de sua própria segurança num átimo de segundo, fatal, como podia notar, o gosto de sangue aflorando-lhe na boca: em segundos, a vida deixou o corpo feminino! Passaram-se dez minutos e um som de passos pesados no chão poeirento ecoou próximo: um enorme ser coberto por uma armadura de guerra, chegou até o casal caído! Com indiferença, fitou o cadáver da moça e deu-lhe as costas, dirigindo-se para o humano caído; com cuidado, tomou-o nos braços e se afastou, em silencio, carregando seu fardo inconsciente! A vinte metros dali, um túnel se abriu do nada, na areia batida pelos ventos e o ser lúgubre por ele entrou, sem demora! Logo a seguir, um verme gigante aflorou do solo, escavando de forma brutal, atraído pelo cheiro de sangue que, sabia-se lá como, podiam perceber mesmo no subsolo e serpenteou para o corpo inerte ali perto, ansiando por uma boa e inesperada refeição! Ao alcançá-lo, ia começar sua tarefa nojenta quando..... o cadáver esfumaçou-se, tremeluzindo e ...desmaterializou-se! O animal ficou ali, estático, surpreso com o que acontecera, por momentos e depois, sem mais reação, retornou para sua toca, sinuosamente pela areia!
* * *
Num aposento exíguo, uma bola de luz muito alva e brilhante, expandia-se e contraia-se, em ritmo intenso a princípio,e depois, em lenta velocidade, como se recuperasse o controle sobre si mesma, aos poucos! Quando o ritmo reduziu-se a quase um pulso luminoso por minuto, a bola mudou de forma, adotando vagarosamente a forma humanóide! Uma mulher começou a se delinear ali, lentamente.... Após alguns minutos, a forma feminina estava completa, visível e tangível! Uma moça de cabelos negros e olhos cinzentos, muito bonita e jovem espreguiçou-se na cabine isolada! Apalpou o peito, com sensação dolorida e fez uma careta de desconforto! Uma voz ecoou-lhe na mente!
- Como se sente, Aydr? Sua recuperação demorou mais do que o comum! É compreensível, pois o raio defasador desarmonizou sua essência vital, com a perda do corpo físico de forma tão súbita e brutal!
-Meio machucada no tórax...mas vai passar logo; são sensações residuais da lesão!- respondeu ela, testando seu corpo!
-Sei que deve ter doído muito! Afinal, você nunca “morreu” antes! Não é uma norma de nossas missões, que os visitantes sejam assassinados por ai! Ao que consta nos meus bancos de memória, você é o primeiro caso deste tipo!
-Tinha de ser eu!!- murmurou ela, contrafeita! –A experiência em si é muito....angustiante...e doída! Não gostaria de passar pela morte física de novo...- olhou para um painel à frente dela! - Há quanto tempo estou aqui, me regenerando!??
-Você “morreu” há uma hora atrás, pelo tempo humano!- respondeu a voz imaterial; Aydr contraiu-se em dor e pulou da cadeira anatômica! - O humano! Eles o capturaram!! Uma hora, você disse!!? Então eles já devem estar começando o seu plano sórdido!
-Você pretende tornar a interferir? Sabe que nossa lei não permite que...
-Eu conheço as nossas leis! Não posso deixar que os toritas consumem o que planejaram há quase quatro anos atrás, neste mundículo hediondo! Os humanos seriam pegos totalmente desprevenidos! Uma hecatombe sem par se instalaria!
-Ainda assim, devo alertar que nosso procedimento-padrão diplomático não aprova interferências nos conflitos deles! Os líderes irão questionar você com rigor por causa disso!
-Que seja! Não vou assistir uma nova guerra assim, parada sem fazer nada, nesta nave...Como estão meus parâmetros físicos de saúde? Já posso descer até o planeta?!
-Meus sensores dizem que sim. Vou tele-transportá-la para a superfície! Ficarei aqui monitorando seus movimentos!
-Faça melhor o seu papel de guarda-costas, desta vez! Se tivesse visto a arma torita antes que ela disparasse, eu não teria perdido minha vida! – rosnou ela, zangada! A voz não respondeu de volta, mantendo um silencio constrangido!
* * *
Enquanto a estranha personagem se recuperava de seu exótico “desencarne” , no subsolo, uma hora antes, O coronel era despertado para uma mais estranha realidade ainda! om vagar, sua visão retornou e ele encarou um estranho ser de metal, maior do que ele, coberto por forte armadura! O robô torita falou-lhe então:
-Você é o número 23! É o único dos “reprogramados” a voltar aqui! Estou reiniciando minha base de dados; logo estarei atualizado. Deve aguardar!
O homem logo viu que estava imobilizado dentro de uma espécie de campo de força de contenção! Tentou sair da cadeira em que estava, mas não podia dar um passo para qualquer direção, que levava um desagradável choque! Sentou-se de novo, amuado e confuso:
-Onde eu estou? A garota, ela está aqui?! O que é você!?
O autômato respondeu, impassível:
- Está aonde foi programado para retornar; a fêmea está morta; sou um robô-servo.
-“Aydara”? Ela morreu? Como??- exclamou ele, chocado! O ser de metal retrucou:
-Ela ia desfazer sua programação mental! O sistema de defesa desta base a abateu antes que ela arruinasse toda a operação!
-Então...o que ela me disse era verdade!!- suspirou ele, desalentado, recordando-se das explicações aparentemente sem nexo que Aydr lhe dera!-Eu estou com alguma lavagem cerebral atuante, desde a guerra! E...foi coisa dos toritas mesmo! –olhou em torno, temeroso! Não via um único guerreiro inimigo ali, só o robô, que aparentemente se atualizava! A instalação parecia empoeirada e abandonada, há muito tempo!Com perspicácia deduziu:
-Você, robô... estava ativo nesta instalação?
-Esta máquina estava em dormência; meus criadores me deixaram assim, inativo até que um dos reprogramados retornasse até este local. Despertei hoje ao receber seu sinal de chegada.
-Sinal de chegada?!
-Você desenterrou um dispositivo de alerta; ao acioná-lo, eu despertei da inatividade.
-Eu desenterrei o que!? Eu não me lembro de nada!!- Tarkah balançou a cabeça, estupefato! O que ele estava fazendo ali? Qual era o plano do inimigo para com ele? Fitou o autômato, que estava imóvel, se reciclando:
-Há algum ... “criador” seu aqui?
-Todos se foram, após me deixarem inativo. Não sei aonde estão agora.estou recebendo dados inconclusivos!
-Como assim?
-Os dados só me dão noção do tempo passado; Fui inativado há muito, muito tempo atrás... não previa que já tivesse passado tanto tempo! Não tenho retorno dos criadores, não respondem ao meu chamado!
-Sua central de comando aqui em Vectra não existe mais, por isso você não tem respostas deles! Já se passaram quase quatro anos desde que tudo aconteceu! A guerra acabou! Sua missão, seja ela qual for, não existe mais! Você matou uma inocente lá fora, à toa!!! Quando meus homens derem por minha falta, virão até aqui e......-olhou em torno! A base parecia subterrânea! Como eles o achariam ali!? Há quanto tempo estava ali, inconsciente?! Consultou seu relógio de pulso: já faziam trinta minutos que se ausentara da coluna lá na cidadela! Fargo já estaria à sua procura, mas como alertá-lo de sua posição!? Sentiu-se duplamente abatido, pela sua situação e pela morte da estranha mulher! Estava impotente, preso ali no campo de força! A cabeça lhe doía! O robô cessou de se inteirar da situação e afastou-se lentamente para um console central, aonde luzes piscavam sem parar! O coronel indagou:
-O que pretende fazer?! Já lhe disse que a guerra acabou! Você não tem mais mestres vivos neste planeta ou sequer uma finalidade! Deve me libertar e se auto-desligar! Obedeça!!
-Eu só obedeço aos criadores! Sua alegação de que a guerra acabou é mentirosa, para me confundir; na falta de ordens deles, devo seguir a programação original! Torus deve prevalecer!
Tarkah empalideceu!
-Como assim?? O que vai fazer??
O autômato enorme e pesado chegou à mesa de controle; com lentidão, acionou alguns comandos e retrucou:
-Minhas ordens foram de prosseguir a qualquer custo na missão, com ou sem os criadores. Isso será feito. Sua missão começa agora, 23.
- Não! Não pode fazer isso! –protestou o humano! O robô replicou:
-Estou reiniciando sua programação mental, conforme fui orientado a fazer pelos criadores. Você deverá assumir seu lugar na nave e partir para seu destino! Como os outros não vieram, você será o piloto, número 23 –com decisão, premiu um controle e o coronel sentiu imediatamente sua cabeça explodir! Urrou de dor e contorceu-se por instantes, mas a seguir, acalmou-se e ficou estático, impassível; o robô aproximou-se dele, desligando o campo de força! O humano permaneceu quieto e com a fisionomia de um sonâmbulo!
-23! Qual é a natureza de sua missão?
-Devo pilotar a nave capturada e seguir rumo à Terra! Lá chegando, devo espargir na atmosfera do planeta, a carga da nave!
-Como reagirá a uma interceptação?
-Seguirei os procedimentos normais de identificação da frota! Não desconfiarão de uma de suas naves retornando do espaço, pois o tráfego orbital de lá é intenso!
-E após a missão completada o que deve fazer?-indagou o robô, satisfeito com a entrevista.
-Devo me precipitar sobre a sede do governo mundial com a nave, destruindo toda a cidade ao redor dela!
-Correto. Com a carga de patógenos aéreos elaborada pelos criadores, a Terra será um planeta morto em duas semanas! A guerra será vitoriosa para Torus!
III – O “salto” para o caos!
Após andarem em silencio por alguns minutos, por um longo túnel escuro, chegaram ao seu destino. O robô estacou junto a um hangar subterrâneo; uma nave da federação coberta de poeira jazia no meio dele. O ar ambiente parecia viciado, como o humano percebeu, ofegando um pouco ali! O autômato fitou a astronave com seus olhos sem vida, por instantes; então disse:
-Muitos anos se passaram desde que os criadores a esconderam aqui, após capturarem-na em batalha! Devo verificar suas condições de funcionamento antes de liberar a missão; a carga viral também precisa ser conferida, após tanto tempo estocada no seu interior. -indicou um banco num canto!-Você, número 23, deve esperar ali até ser chamado. Lawrence Tarkah obedeceu, como um zumbi. O ser mecânico abriu a comporta da nave e entrou nela, a seguir. Demorou lá dentro uns trinta minutos e então retornou, dizendo para seu fantoche humano:
-Todos os sistemas estão de novo operacionais. Um dos tanques de patógenos perdeu sua efetividade, devido à uma falha no sistema de conservação, no entanto, os outros três estão funcionais. A missão é viável! Embarque imediatamente, 23. Estou transferindo para sua mente os dados da missão; cumpra-a, para a glória de Torus.
O coronel assentiu com a cabeça e embarcou, em silencio. O robô se afastou e ligou um comando na parede: o teto começou a se mover, em um surdo zumbir! O céu exterior, com seus ventos, surgiu-lhe à visão indiferente. A nave capturada estremeceu, quando seus motores foram ligados!
* * *
Aydr se materializou no solo, ansiosa! O frio reinante fez seus pelos se eriçarem, mas ela não estava nem ai para seu conforto pessoal! Diante de um céu enfarruscado e em eterna penumbra, ela correu pelo planalto, buscando um ponto já seu conhecido! Uma torre de vigilância começou a emergir da areia para alvejá-la como fizera antes, mas ela se antecipou,desta vez, usando um cilindro que tinha em suas mãos! O artefato emitiu um lampejo azul e a torre de disparo explodiu com estrépito! Logo adiante ficava a entrada do hangar torita oculto desde a guerra! Ela se criticou intimamente por não ter simplesmente destruído a instalação antes de guiá-lo até ali! O fato de ter desejado antes de tudo, mostrar ao humano toda a trama, virara-se contra si, ao fim de tudo! Ela era a responsável pelo que pudesse acontecer agora! Com um leve toque numa pedra elevada, abriu a porta de acesso ao hangar! Estava penetrando no local, quando um rumor fortíssimo chegou-lhe aos ouvidos! Olhou para o céu e viu uma astronave decolando! Ato contínuo, viu um robô enorme, encouraçado, avançando para ela de dentro da instalação aberta à sua frente! O autômato a detectara abrindo a porta externa e vinha-lhe em cima com toda a sua força , para matá-la! A jovem rodopiou elegantemente nos calcanhares e deixou a fera mecânica passar-lhe rente, desviando-se de sua carga assassina! Ato contínuo, mirou-lhe com o cilindro que segurava numa das mãos! O raio azul saltou e envolveu o ser artificial, que imobilizou-se, num clarão! Com estrépito, explodiu em mil fragmentos! Aydr olhou para o céu, angustiada! A nave desaparecera! Com decisão, chamou por seu companheiro invisível!
-A nave humana que acaba de decolar! Para onde foi?
-Estou compilando sua rota; e quanto a você, devo trazê-la de volta?
-Imediatamente! Prepare-se para sair de órbita!
A figura feminina se desmaterializou a seguir, teletransportada para uma pequena nave esguia, em órbita de Vectra-12! Lá chegando, acomodou-se na polrtona de piloto! A voz sem corpo informou-lhe:
-A nave humana está ganhando velocidade subluz; segue no rumo da Terra!
- À ela! Não posso deixar que “salte”!- ordenou a bela morena, olhos cinzentos fixos no painel a sua frente! A nave esguia tremeluziu e acelerou! Em terra, no posto da federação, os operadores dos sensores orbitais avisavam ao seu comandante sobre o estranho tráfego aéreo recém-iniciado! O negro alto fixou o olhar na tela, espantado! Ainda há pouco, falara com o major Fargo, que procurava seu próprio comandante no deserto da cidadela, há mais de uma hora, sem resultados! E agora, isso!!???
* * *
Em pleno espaço, a nave esguia ganhava velocidade, no encalço da sua fugitiva! A voz informou:
-Ele vai “saltar” em um minuto e meio!
-Não dará tempo de alcançá-lo!! Eu só tenho uma opção: teletransporte-me a bordo!
-Alcance de teleporte em cinqüenta e cinco segundos do tempo humano! Aguarde..... quarenta e cinco... trinta e cinco....- a voz continuou informando, mas Aydr já não a ouvia, mentalmente planejando como deter o coronel, ao chegar a bordo da nave suicida! Não teria tempo de impedir o “salto” mas ao menos, já estaria lá dentro!
- Estarei seguindo vocês!Teleporte em ação...agora!- avisou a voz! A morena contraiu-se, prendendo o fôlego! Seria uma chegada meio traumática, em meio a um “salto” interdimensional; se algo falhasse,se materializaria no vácuo, e morreria de novo!
Um clarão se consumou e ela perdeu a consciência de si, por microssegundos! A viagem insólita se concluiu assim como começou e a bela moça sentiu solo firme sob seus pés; em seguida, o som dos motores transdimensionais sendo acionados e uma horrível sensação de cisalhamento, quando sentiu que o tempo-espaço perdia consistência, mergulhando no Hiperespaço! E ela ali, em pé, no meio do caos! Durou apenas um momento a confusão mental e de orientação tempo-espacial! Quando deu por si, estava caída no piso, tonta e com ânsia de vômito, mas apesar de tudo, viva! Estava a bordo! Saltou para a posição ereta, sondando mentalmente o seu entorno! Estava só ali, naquele compartimento de carga mofado! Dirigiu-se para a porta,que se abriu a um toque seu no comando da parede; caminhou pelo corredor, buscando o trajeto para a ponte de comando: como nunca estivera ali antes, não sabia para que lado ir! Concentrou-se em Lawrence Tarkah: captou sua presença mental a bordo e deixou-se guiar por ela, sala após sala, elevador após elevador, correndo o quanto podia para alcançá-lo logo! Em minutos, chegou a seu destino! Na Ponte, solitário, um homem pilotava a astronave de combate federal! O “salto” ia se concluir em momentos, eles se materializariam na órbita terrestre e...bem, devido aos riscos, ela não podia permitir isso! Num átimo de segundo, Aydr sacou da arma cilíndrica que levava consigo e apontou para o painel de controle principal! O fogo azulado saltou sobre os comandos da nave, sob o olhar hipnotizado e passivo do piloto! Houve uma breve fulguração e tudo deixou de funcionar, numa nuvem de fumaça! Uma explosão distante feriu-lhes os ouvidos e ambos foram lançados para cima e para baixo! Ela, sem ter um ponto de ancoragem, voou pelo teto e caiu, desacordada! Ele, preso ao assento, ficou no mesmo local, semi-consciente! Os motores arrefeceram imediatamente e uma janela de estrelas num espaço negro surgiu-lhe em frente à vigia! Não se saberia precisar quanto tempo depois, ele abriu os olhos, zonzo e confuso! Ao fitar em volta de si, mais confuso ainda ficou! Estava de novo com sua mente liberada! Era o coronel Tarkah de novo, não um fantoche sem cérebro dos toritas! Desafivelou-se do assento, lívido! Não se lembrava de nada nem de como viera parar ali naquela nave...que nave era aquela!?? A gravidade artificial estava em curto e ele se sentiu leve, flutuante! Agarrou-se ao braço do assento e buscou um comando no painel para regularizar a situação : mas o painel estava destruído!! Envolto em fumaça tênue, chamuscado, Um tiro de alguma arma destruíra os controles da nave em que ele se encontrava! Raciocinando como militar experiente, olhou por sobre o ombro, procurando o painel de emergência para situações como esta, que supria a falta do comando principal de todas as nave da Federação: e viu flutuando na cabine o delgado corpo de uma mulher! Arregalou mais ainda seu olhos ao reconhecê-la, mais bela e viva do que antes!
-“Aydara”!!!- deu um pulo, impulsionado pela gravidade zero, em sua direção e sobraçou-a, no caminho para o painel secundário de controle! Ao alcançar o seu objetivo, apoiou-se nele com uma mão enquanto fitava incrédulo, a moça segura em seu outro braço! Os olhos cinzentos se entreabriram, suaves, e ela o contemplou, estática! Ele se surpreendeu, murmurando aliviado:
-Você está viva!!! Graças a Deus!! O robô torita disse que você morreu!!
A bela jovem desvencilhou-se dele, num reflexo assustado e subiu, rodopiando pelo teto! Já desperta. Aydr gemeu:
-A gravidade! Estamos sem gravidade artificial! Exagerei de novo!!!
-Do que você está falando!? O que fazemos ambos aqui!?? Que nave é esta!??- ele voltou-se para o painel acessório e premiu um controle! De repente voltaram a ter peso e ambos caíram no chão da cabine ampla! A gravidade artificial fora restaurada! Ela se pôs de pé, com cara de dor, acariciando seu traseiro, que batera com força no piso; ajeitando seu macacão violeta brilhante pigarreou, olhando para a janela frontal:
-Aonde estamos?
-Disso pensei que você soubesse.....Acho que me deve algumas explicações, “Aydara”
-É Aydr!! Pronuncia-se “Ai-dri-in”!-rosnou ela, de mau humor! O humano cruzou os braços, sério:
-Que seja! Continuo esperando! Pode começar!
-Você foi capturado por um robô dos toritas, lembra-se? –o outro meneou a cabeça, sempre sério! A morena prosseguiu! – O tal robô seguia ordens pré-estabelecidas de seus criadores toritas, estava inativo desde o fim da guerra; ele foi ativado por sua chegada e assumiu o controle de seu comando mental pré-existente desde aquela época! Parece loucura, mas foi isso que aconteceu! Ele o programou para um ataque suicida a seu planeta natal, como um golpe final torita em vocês, na “guerra” que para ele ainda estava acontecendo! Esta nave era a sua arma! Você era o suicida em questão! Entendeu??
O homem sacudiu a cabeça, estupefato e ganiu:
-Como é que é ?????? - a jovem suspirou de tédio: teria de re-explicar tudo com muita calma, para o aturdido coronel à sua frente!
Depois de nova e mais pausada explanação, Tarkah bufou, incrédulo! Não podia crer que toda aquela balela fosse realidade, mas...eles estavam ali, não estavam!? Fitou a nave, buscando um marco de identificação: Numa parede lateral havia um emblema com símbolos! Seguiu até lá e leu-o, pasmo:
-“ I.S.S. Argentorum”!! Não é possível!!!
-Por que?-indagou ela, logo atrás dele. O homem murmurou:
-Esta nave era um cruzador leve da Federação!! Foi dado como perdido na batalha de Beta-Orionis!! Isso foi há uns cinco anos! –fitou a moça alien, surpreso!- Nós perdemos aquela batalha... se o que você diz é verdade...então, os toritas abordaram e tomaram a nave!.... E resolveram guardá-la para este pérfido plano que você me relatou! Não me admiro: os toritas eram mestres na guerra biológica; quase mataram os hecrons com epidemias provocadas por eles! Há mais alguém a bordo?!
-Não, só nós!
-Pobre tripulação....os toritas não costumavam fazer prisioneiros a não ser para se alimentarem deles!
-Estes seres eram canibais?!! – indagou Aydr, surpresa!
-Sim, mas preferiam a carne Hecron, uma iguaria para eles! Nós fedíamos muito, na opinião deles, segundo se apurou! Não éramos seu prato favorito!- olhou em torno! –Bem, se eu estava sob sugestão hipnótica, a saída súbita do “salto” causada por sua arma me despertou! Agora temos outro problema....
- Eu lamento ter destruído seus controles de vôo, mas você entende que eu não tive outra opção! Íamos surgir sobre seu planeta em segundos e você iria exterminar sua própria raça, com os vírus que traz a bordo! Eu tive de inativar o espaçoplano! –explicou-se ela, meio sem jeito; e então percebeu algo! Não recebia impressão mental de sua própria nave! Correu para a escotilha de vante e gelou: Não via nada além de estrelas e espaço negro, com nebulosas ao longe, coloridas! O homem suspirou :
-Está procurando alguém?
-Minha nave! Ela devia estar bem atrás de nós! Não está!!
-Era ao que eu me referia, ”Ayda”...Ai-dri-in! Ao sairmos prematuramente do esquema de “salto”, o computador de bordo foi desligado; teremos de reiniciar tudo e ver onde estamos... no meio do universo!
-Pode nos tirar daqui? O espaçoplano ainda é pilotável?
-Sim...deste console de comando secundário, posso manobrar a nave! Vamos reiniciar o computador de bordo e ver o que ele nos diz! -Ía dar-lhe as costas para tanto, quando de repente, virou-se e encarou-a com menos sisudez! Com sinceridade na voz, murmurou-lhe:
-Ainda estou digerindo toda esta maluquice que você me contou, mas... se foi assim mesmo...Obrigado!
Os olhos de Aydr, normalmente cinzentos e frios, brilharam! Ela gostou do que acabara de ouvir! Um sorriso abriu-se em seus lábios finos, pela primeira vez desde que ele a conhecera!
IV – Pertinho de casa!
Lawrence Tarkah esperou o computador de bordo se atualizar e então, fitou os dados na tela do console de emergência, pasmo! A jovem encarou-o curiosa:
-O que houve? Estamos perdidos!?
-Sim e não.....- lamentou-se o militar, pensativo. Ela insistiu:
-Como assim?! Estamos ou não, fora do curso?
-Estamos fora do curso sim, mas não perdidos... o computador analisou as estrelas e já tem nossa posição! O problema é outro....
-Qual?!-gemeu Aydr, apertando os olhos!
- O combustível da célula de força! Quando o tal robô programou esta nave, não contou com o natural decaimento do nível de carga da célula de energia dela após ficar esquecida tantos anos! Acho que os toritas calcularam, há quatro ou cinco anos atrás, combustível para o percurso de Vectra-12 à terra, e nem mais uma astromilha sequer! Tem lógica, pois esta deveria ser uma viagem só de ida! Visto que nos desviamos subitamente em pleno “salto”, para a borda da galáxia aonde agora estamos....não temos combustível para voltar!!
A alien franziu o cenho, preocupada! Por isso não recebia sinal mental de sua micronave! Estavam bem longe de seu curso primitivo! O humano murmurou, desanimado!
-Estamos tão longe de casa, que nem em um milhão de anos chegaríamos à Terra ou Vectra!......
-Você disse na borda da Galáxia?
-Sim... Por que?
-Deixe ver seus mapas estelares!
O homem cedeu o lugar para ela, sem entender bem o que Aydr desejava e exibiu-lhe os mapas das coordenadas em que se achavam; a jovem alva de cabelos cacheados negros e sedosos meditou alguns momentos diante da tela e suspirou:
-Há uma possibilidade!
-Qual?!
-Estamos à uma distancia considerável de tudo conhecido por vocês, humanos, no entanto, eu estou mais perto de casa do que imagina! – apontou um dos braços da Via Láctea, o vizinho ao Braço de Órion, berço do homem! Tarkah deu uma risada nervosa!
-Estamos à uma distancia considerável de tudo conhecido por vocês, humanos, no entanto, eu estou mais perto de casa do que imagina! – apontou um dos braços da Via Láctea, o vizinho ao Braço de Órion, berço do homem! Tarkah deu uma risada nervosa!
-Sagitarius!!??? Você veio de lá!? Mas claro!!!.....-lembrou-se do que ela lhe dissera, quando se conheceram! –Mas é muuuito longe daqui!!-arrematou, sem crer no que ela insinuava!
-Mais próximo do que sua Terra, coronel......seu planeta fica no outro extremo da galáxia, neste braço que seu povo denomina de Órion! Eu sugiro que trace um curso para o Braço de Sagitarius! Se...eu disse: Se lá conseguirmos chegar, meu povo o repatriará para a Terra! – Aydr exibiu um sorriso lindo que a tornou mais bela e atraente do que já era, aos olhos do militar junto dela! Tarkah sentiu um arrepio íntimo, ao fitar seu olhar sensual e hipnotizador! Ela percebeu isso; na verdade, já notara de longa data, os olhares concupiscentes do homem para si, meio de soslaio! Não sabia como lidar com isso, tal situação a perturbava mais do que gostaria de admitir e creditava o fato aos hormônios do corpo físico que ocupava, uma coisa ainda nova para ela, que era pura energia em seu estado normal! As sensações da carne eram tantas e tão variadas que não pudera analisá-las a todas, no pouco tempo em que estava naquela sua primeira missão de estudo dos seres corpóreos! Já conhecera algumas emoções como raiva e angústia; não as apreciara, por sinal! De fato, antes de travar conhecimento próximo àquele humano algo perturbador para ela, decidira até cumprir logo suas tarefas e voltar para casa depressa, livrando-se daquela forma humanóide primitiva, material, cheia de sentimentos e emoções conflitantes, que não lhe diziam respeito, como ser superior que se julgava! A experiência de “morte” que vivenciara recentemente, a tal da “dor” de que sempre ouvira falar, também não contou ponto para admirar o modo de vida dos seres corpóreos! Ela era evoluída, superior, feita de luz! Se os humanos a vissem em sua forma natural, a adorariam como a uma deusa, pensou, rindo infantilmente da idéia!
-Bem... já tracei o curso, madame! Só vou concordar com isso por que não tenho uma opção melhor... de qualquer forma é uma chance, realmente!- retrucou o militar, notando o sorriso maroto nos lábios finos e delicados da ouvinte pensativa! Aydr retornou à realidade!
-Antes de partirmos, devo terminar algo que nem comecei com você!-fez um gesto cabalístico e o homem gemeu levemente, caindo a seus pés, sem sentidos! Ela se ajoelhou perante ele e tocou sua cabeça, concentrada! Com pouco esforço mental, sondou o cérebro do humano e localizou o ponto em que a “lavagem cerebral” torita se assestara! Sem dificuldades, emitiu um comando hipnótico, anulando a programação inimiga, “limpando” a mente do coronel de novas influências adquiridas em Vectra-12, no tempo da guerra! Permaneceu fitando o rosto adormecido em seu colo, pensativa; uma sensação estranha percorreu-a, arrepiando sua nuca! Percebeu beleza nele! Os cabelos negros e desalinhados, os traços viris... corando, sentiu-se atraída por aquela boca máscula! Aspirou, entre surpresa e enlevada, de olhos fechados, o odor de homem, que o humano exalava! Identificou nele os feromônios da espécie em tela ; lembrou-se de que no momento, era humana também, na forma e na sensibilidade, inclusive nas fraquezas, sendo portanto, suscetível às tentações da sensualidade daqueles seres primitivos!! Quis se afastar, assustada! Recordou-se do escândalo em sua terra, quando a sua compatriota decidira-se, contra tudo e contra todos, abandonar uma existência superior, pelo exílio eterno, na carne, ao lado de seu amor humano, em Marte! Na época, como todos os de seu povo, ela, Aydr, a recriminara e lamentara! E agora, o que estava se passando consigo!!?? Acariciou carinhosa, os cabelos do homem em seu colo, que dormia como um justo! Um desejo forte, insano, incontrolável, tomou conta dela, sua visão se nublou e um ímã químico, hormônios em ebulição, levou-a, inexorável, para a boca que tanto a atraia! Foi um beijo longo e cálido! Quando Aydr entreabriu os olhos, entorpecida, viu que Tarkah estava fitando-a, enlevado! Ela pulou para trás, como uma gata arisca, limpando os lábios do gosto que sentira! Afastou o olhar dele e foi para a vigia principal, observar o espaço lá fora! Estava corada de vergonha, como uma colegial! O homem pôs-se de pé, em silencio e caminhou para ela, lentamente. Estava confuso e desejoso! Tocou seu ombro delicadamente e murmurou em seu ouvido:
-Pode me dizer o que está acontecendo aqui? Você estava me beijando! O que fez comigo!?
-Eu só o adormeci para limpar sua mente da programação torita; nada mais! Está feito! Você não é mais um fantoche deles!-ela falou sem fitá-lo, distante! Lawrence, embriagado pela beleza rara e pelo aroma natural dela, aproximou-se mais e cingiu-lhe a cintura, com um abraço terno! Aydr quis se desvencilhar, mas ele mergulhou o rosto em sua nuca, sob suas madeixas encaracoladas, beijando-lhe o pescoço com desejo! A alien voltou-se para ele, esfogueada, a respiração descontrolada e o peito arfante! O humano a puxou para si, decidido, num beijo apaixonado; ela se entregou, afinal, sensual e ávida de novas emoções primitivas!
* * *
O espaçoplano inerte flutuava no cosmos, à deriva; turbilhões de gases quentes desenhavam nebulosas entre as estrelas em torno dele, muito distantes para ameaçá-lo, mas pujantes o bastante para serem admiradas por sua infinita beleza! Aquele mar sideral de cores e formas, feérico por si só, enfeitava a borda do braço de Órion, gerando um clima quase mágico, de fantasia e romance, muito apropriado para o casal a bordo do vaso estelar sem rumo! A moça de beleza exótica, de pele muito alva e cabelos cacheados em desalinho, espreguiçou-se languidamente nos braços fortes de seu par! Ela dormitara ali, relaxada, após o inédito ato que praticara com o humano; ambos estavam deitados no piso da ponte, sem roupa, entrelaçados como dois namorados de longa data! Aydr sentiu uma felicidade impar, ao vislumbrar os olhos de Lawrence Tarkah, fitos nos dela, com uma meiguice improvável num humano sofrido como ele! Com um ronronar de gata, ela suspirou:
-Dormi muito?
-O suficiente!- respondeu ele, enlevado! A jovem sentou-se a seu lado, admirando-o!
-Nunca pensei que sentiria um dia tantas sensações incríveis e explosivas como estas que senti! -admirou –o, extasiada! - Que feitiço sua raça tem sobre a minha!?? Por que nós sucumbimos tão facilmente ante sua capacidade de nos fazer ..fazer...diferentes!??-concluiu, por não achar um termo mais correto para expressar suas idéias! O homem encarou-a curioso!
-Por que diz isso? Nunca fez amor antes!??- sorriu, corando um pouco ao constatar que sua pergunta fora tola! Ela era virgem, como ele percebera no início, logo era a sua primeira vez!Com ternura, indagou:
-Seu povo...como vocês se chamam?
-Somos os Tulianos!
-E por que disse aquilo sobre feitiço?
-Como eu lhe contei quando nos conhecemos, uma outra compatriota minha se enamorou de um humano, em Marte há pouco tempo; foi um escândalo em meu lar natal! E agora acontece o mesmo comigo...e você! Eu, logo eu! Jamais poderia crer que seria a próxima “vítima”! Seu povo, apesar de sua inferioridade intelectual e tecnológica, nos seduz inacreditavelmente! Só pode ser feitiço! –riu-se gostosamente, abraçando o coronel. O homem pigarreou, contrafeito!
-Inferiores!? Que bobagem! Você é igual a mim, aonde está sua superioridade, Aydr!? Desde que a conheci, exala uma arrogância nata, como se fosse muito mais do que eu...como se falasse com um aborígene primitivo ou algo assim, do alto de sua “civilização evoluída”... Isso ofende, sabia? Ademais, você é humana como eu, pude notar isso hoje! –olhou o corpo esbelto dela, com um ar maroto! A jovem suspirou, se afastando dele de súbito; como se algo despertasse dentro de si ao ouvir o comentário sobre sua humanidade, Aydr tornou-se de um momento para outro, distante, indiferente:
-Não é bem assim...... eu não sou humana; eu estou humana!-ela fitou-o com seriedade, voltando a uma certa frieza, característica sua!- Não se iluda com o que aconteceu aqui hoje! Para mim, foi bom, muito bom, mas....- os olhos cinza se toldaram de indiferença!
-Mas...?
- Não devemos nos iludir; você, eu quero dizer!Foi um “laboratório”! Eu tenho este corpo há pouco tempo; mal o conheço! Ainda estou explorando suas possibilidades... precisava descobrir, sentir as emoções que senti no ato físico em si; não sei o que representou pra você, não tenho como correlacionar isso num humano real; mas pra mim foi só...uma aula prática! Como “estou” humana, necessitava sentir, aprender, ver como é que é a conjunção carnal de sua espécie...Você me ajudou demais nisso e eu lhe sou grata! Agora posso compreender como minha irmã de raça se sentiu em Marte!
Ante a espantosa mudança de comportamento, de afetuosa amante a uma figura fria e calculista, Tarkah se sentou, pasmo. Com seriedade, sem entender, perguntou:
-Mas o que houve? Por que está me dizendo estas besteiras?? Eu a ofendi de alguma forma? Por que está agindo assim comigo?!-ela permaneceu calada, encarando-o enigmaticamente; o militar então murmurou, decepcionado:
-Se não é humana, o... o que é você??
- Não poderia compreender; nem tenho autorização para lhe contar; basta que saiba que minha real forma não é essa. – retrucou ela, buscando suas vestes, distraída. Tarkah disse:
-Eu não poderia compreender??! Sou ”primitivo” demais pra isso, não é?! Nesse caso, como você se parece na realidade? Um monstro azul de seis patas e dez olhos!?? Você é humana, garota! Veja, posso lhe tocar e sentir sua maciez, seus cabelos, seu perfume, seu coração!- seus olhos brilharam ao dizer essa frase! - Não aceito esta asneira que está me vendendo! Se não quer mais nada comigo, é seu direito, mas pare com este papo furado de “ser superior não-humano” pra cima de mim! Não insulte a minha inteligência, alienzinha sem coração! Foi só sexo pra você?! Ótimo, por mim, tudo bem!!-levantou-se e procurou suas roupas, zangado e magoado! O que se passara entre eles ali antes, fora muito bom para o militar, ela nem poderia aquilatar o quanto; estava sozinho e carente há muito tempo e ela o fizera sentir-se vivo de novo, por alguns minutos; gerara-lhe esperança de voltar a ser o cara que sempre fora, antes da guerra! E agora ela vinha e lhe detonava tudo daquela forma insensível?! Sentiu-se um tolo romântico manipulado! Vai ver, ela o hipnotizara para o sexo fácil, com o tal poder mental que alegava ter! Olhou-a com raiva, a se vestir, calada,e depois voltou seu olhar pela janela externa, focando seu raciocínio: tinha de sair dali!
-Vamos logo com o seu plano de fuga deste vazio! Não podemos ficar aqui pra sempre! O que precisa, para voarmos para sua região da galáxia? Dê-me os dados que os inserirei no computador!
Aydr encarou-o curiosa! Surpreendera-se com a reação furiosa dele! Por que se irritara tanto assim com o que ela lhe dissera, se era tão simples entender??! Seriam as tais emoções humanas atuando sobre outro compartimento ignoto da mente daquela raça primitiva!? Sem pudores, pôs-se a sondar a mente dele, enquanto ele mexia no painel secundário de controles, preparando a nave para partir! E espantou-se com o que “leu” ali!
-Você estava... apaixonado por mim?!-ela sorriu, divertida!- Mas só ficamos juntos por minutos de seu tempo! Como pode sentir tanto em tão curto prazo!? Que espécie interessante é a sua!-concluiu, como se fosse uma cientista analisando uma cobaia!
Ele a fitou, furibundo! –Me dê logo as coordenadas de “salto”, sua geladeira ambulante e insensível!!!! E pare de entrar na minha cabeça!!
Aydr se encolheu, amuada e informou os dados que ele exigia! Em pouco tempo, estavam sentados nas poltronas de pilotagem, calados e sem se entreolhar, e o espaçoplano estrugiu em velocidade de salto transdimensional! Em um instante o espaço exterior fundiu-se numa miríade colorida turbilhonante de aceleração, tempo e espaço e a sensação de enjôo retornou forte sobre ela! Pensou que fosse desmaiar como da outra vez e ao mesmo tempo, impressões da mente do homem a seu lado repentinamente invadiram a sua consciência e ela viu, num lampejo, tudo que ele estava guardando dentro de si! Por algum mistério da súbita mudança dimensional, ou de sua constituição “humana” aliado ao fato de que ainda estava pensando no assunto, ela se tornara como um aspirador involuntário das lembranças dele! Sem se conter, ela pensou alto:
-Quem era Karine? O que é “esposa”!? E divórcio!?
Tarkah lançou-lhe um olhar fulminante!
-Como ousa!!!??? Invade meu cérebro o tempo todo! Não posso ter privacidade!!???
Aydr mordeu o lábio inferior, de forma sexy, e murmurou, ao concluir a sua varredura involuntária!
-Agora já entendi! Tantos conceitos!! Ela foi sua companheira e o abandonou quando a guerra acabou! Você ficou solitário e sofre muito desde então! Vive pela carreira militar para esquecer a droga de vida que tem! – fitou-o com espanto! Lawrence Tarkah fez menção de levantar-se do assento para voar-lhe no pescoço, mas de repente se conteve! Com tristeza, disse apenas:
-Como pude me enganar tanto com você!? Sou mesmo um idiota...... Dane-se, se suga minhas memórias.....- quase concluiu que ela tinha razão no que deduzira! Depois do divórcio, sua vida tornara-se uma merda! A carreira era tudo que lhe restava e se dedicava a ela como se fosse uma mulher, desta vez, mais fiel! Uma mão suave tocou-lhe a destra, para seu espanto! Aydr o segurava e dizia, com voz mais amena, seus olhos cinzentos cravados nele:
-Não sou um monstro, coronel... Eu não fiz por mal...foi este “salto”...interfere com minha fisiologia cerebral, diferentemente da sua! Não faz idéia do que estou passando neste exato momento!!!
Ele retirou a mão, brusco, sem lhe dar atenção; ela prosseguiu, com inesperada delicadeza na voz, enquanto cenas e definições extraídas das lembranças dele se solidificavam em sua mente prodigiosa, com a velocidade da luz, num processo inédito até para ela, que comentou, surpresa:
-Só agora compreendo certas coisas e conceitos que não conhecia antes.... - falou extasiada! – Eu.... eu fui, como vocês dizem...cruel com seus sentimentos! Sim..... eu compreendo afinal, por isso se magoou comigo!!- e como se quisesse explicar sua epifânia! - Antes eu não entendia suas reações! Estou sabendo agora o que é mágoa, solidariedade, arrependimento, piedade e até mesmo....... o amor... Eu estou me tornando mais humana, Lawrence!!??? - O homem, perplexo com o que ouvia, resmungou:
- Você é doida, isso sim......deve ter personalidade múltipla, a julgar como varia de humor! Cale-se e me deixe pilotar... Vamos sair do “salto” !
- Eu... sinto muito, coronel.......sinceramente.....- gemeu ela, fechando os olhos, tentando disciplinar a maré de conhecimento que lhe avassalava os sentidos, num louco turbilhão que nunca experimentara antes, em meio a ondas de náusea pura!
V – Do outro lado da Via Láctea!
Quando os motores de “salto” desligaram-se, a nave emergiu no espaço convencional! O piloto soltou um longo suspiro ao ver que estavam em região soberbamente estrelada! Nebulosas incríveis floresciam ali e os mostradores de bordo zumbiam indicando altos níveis de radiação! Tarkah gelou! O combustível estava no fim e eles não poderiam ir muito longe; os alarmes de radiação enlouqueciam e ele resmungou:
-Precisamos sair desta área! Estamos muito próximos daquela nebulosa ali! A radiação nos matará, se ficarmos aqui! – encarou a tuliana e surpreendeu-se ao ver que ela estava desacordada! Sem mais pensar, religou os motores de “salto”, sem calcular qualquer parâmetro! Tinha de sair dali!! A nova viagem transdimensional seria de meros instantes e o combustível se esgotaria, mas ao menos escapariam alguns anos-luz daquela região mortal do espaço! De fato, momentos depois de ativar o “salto”, ele viu ressurgir o espaço normal de novo, sem tantas estrelas próximas! A nebulosa mais vizinha deles estava a muitos anos-luz de sua posição; os alarmes de radioatividade cessaram de soar! Um mundo violáceo destacava-se à pouca distancia deles, para sua alegria! Fitou os controles de vôo e suspirou aliviado: ainda havia alguma carga na célula de energia exaurida da nave! Embicou o espaçoplano para o mundo e cruzou os dedos! Em inércia, o vaso estelar singrou o éter no rumo desejado; o piloto voltou sua atenção para a sua companheira de viagem, que permanecia inconsciente. Por alguns momentos refletiu sobre a loucura que se apossara dela no “salto”! Não lhe dera muita trela ao estranhíssimo chilique mental, mas...e se ela estivesse mesmo passando mal naquele exato momento!? Admirou sua beleza rara, diferente das mulheres comuns; preferia a moça assim, desmaiada, sorriu ironicamente, porque que só neste estado ela não o fazia sentir-se como um Neandertal, com sua soberba estapafúrdia! Levantou-se do assento e dirigiu-se à ela, examinando sua pulsação: parecia normal! Abriu seus olhos, analisando seu estado de inconsciência; estava realmente desmaiada, mas sua respiração era pausada, relaxada, como se dormisse! Deu-lhe um leve tapinha na face e ela estremeceu! Repetiu o gesto e Aydr soltou um suspiro profundo, arregalando os olhos cor de chumbo glaciais!
-Onde estou???-gemeu ela, assustada! Ao mirar o homem diante dela, relaxou! Ia dizer alguma coisa quando seu olhar entreviu o mundo violeta que se aproximava, célere! Com um salto da poltrona gritou:
-Como viemos parar aqui!!?? Quem nos trouxe a Waldor!!???
-Waldor?! Ah, aquele planeta ali? Fui eu!
A tuliana fuzilou-o com um olhar de ira! Numa explosão de cólera tipicamente humana, ela urrou!
- Estúpido ser inferior!!!!!!! Por que entre milhares de planetas de meu setor, escolheu logo Waldor!!!???? Tire-nos daqui depressa, eu ordeno!!!!
-Ordena?! Teve outra crise mental, mulher!? Você não manda nada aqui!-protestou o militar mas ela já lhe impunha uma forte ordem hipnótica, os olhos cinzentos em fúria total! Ele estremeceu e encolheu-se ante a investida em seu cérebro; sentiu que estava sendo subjugado! Não era páreo para a força mental da tuliana! Em seguida, já sob sua influência, disse-lhe como um autômato:
-Não posso obedecer a sua ordem de fuga, senhorita! O combustível está no fim! Só nos resta chegar à órbita do planeta e pedir ajuda ao seu povo pelo rádio!
Aydr estacou em sua raiva! Com um murmúrio de frustração, cessou o domínio sobre o intelecto de seu companheiro de viagem, que balançou por instantes, tornando a si, como se bêbado estivesse! Ela afundou-se no assento, chocada! Ao invadir os pensamentos dele, num átimo de segundo, soube o motivo de urgência que o levara a acionar os motores de “salto” mais uma vez, fugindo da zona radioativa mortal para eles e caindo por mero acaso, naquele setor de espaço em que se encontravam! Compreendeu a razão, mas isso não lhe melhorava a situação vigente!
-Estamos em apuros.... pelo Grande senhor do Todo!!! Estamos em apuros!!!
O homem esfregou a testa, zonzo; com vagar, murmurou:
-Aydr: estou te avisando pela última vez....se você fizer isso de novo, eu juro que eu te.....- o sensor de bordo emitiu um sinal de alerta! Alguma coisa se aproximava deles! Ele ia averiguar quando notou pela escotilha de vante, um enxame de veículos ascendendo de Waldor!
-Naves!!!-exclamou, animado!-Estamos salvos!-fitou Aydr, que se encolheu no assento, nervosa! A jovem meneou a cabeça, gemendo:
-Acho que não........
VI – Waldor!
Quatorze naves fusiformes se aproximaram céleres da astronave que entrava em órbita! Enquanto a maioria delas tomava posição de cerco à recém-chegada, uma se destacou do grupo e parou diante dela, flutuando no vácuo! Um apêndice cilíndrico, flexível e largo, saiu da mesma e acoplou-se na nave humana! O coronel exclamou:
-O que é isso!? Parece ser um...
-Túnel de abordagem!-disse ela, séria e apreensiva; Tarkah levou a mão ao coldre, notando o semblante dela!
-São inimigos, não são!?
-De certa forma, sim.
- como “ de certa forma””!?
A parede aonde o túnel se acoplara começou a brilhar, de forma intensa! O militar sacou da arma laser, tenso, e grunhiu:
-Estão perfurando o casco!!???
-É o estilo deles! –ela se pôs de pé, aprumando o corpo; fitando o homem, murmurou:
- Não reaja! Eles são extremamente selvagens, se confrontados! Mantenha sua postura; isso os impressiona!
Ato contínuo, um buraco de dois metros de diâmetro se formou no ponto da parede que reluzia! Do mesmo, saíram três seres de aspecto humanóide, mas definitivamente, não humanos! Em suas mãos esguias, portavam aparatos que sem dúvida, eram armas! Usavam capacetes e trajes pressurizados, num tom verde sujo, deduzindo-se que não respiravam a mesma composição atmosférica do casal capturado! O que parecia ser o líder aproximou-se audacioso de Lawrence e mediu-o de alto a baixo, com a arma em seu peito, ameaçadora. Era alto, quase dois metros, mas muito magro! Após analisar a figura do homem , voltou-se para Aydr, que permanecia séria, ocultando sua ansiedade! Com o mesmo procedimento, olhou-a com interesse; de repente, falou, e sua voz soou metálica, pelo fone do capacete, de alguma forma traduzida para eles por algum aparelho embutido nele:
- Que são vocês?
-Humanos; caímos em seus domínios por acidente! Nossa nave está sem combustível! Se puder nos dar meios de reativá-la, partiremos em paz!- respondeu ela, altiva, fitando o alienígena nos olhos, através do visor do elmo!
-Humanos?- tornou o alien, impassível! – A espécie de outro quadrante que invadiu nosso setor com o beneplácito dos Lahars e Tulianos!?
-Não invadimos; viemos defender o quadrante de vocês de uma invasão! Deve ter ouvido falar dos Koshitas!-insistiu ela, segura de si. O ser esguio meneou a cabeça, com irritação!
-Mentiras! A tal invasão nunca aconteceu! Vocês nem sequer nos convidaram para sua Aliança!
- Quem escolheu os povos do setor para compor a Aliança com os humanos foram os maiorais daqui : Tulianos e Lahars sabem a quem convidar ou não e neste caso optaram por povos com condições de viajar pelo Hiperespaço; não temos culpa se não escolheram seu povo! Vocês não tem capacidade de viagens transdimensionais, por isso ficaram de fora...como os Narcans e outros mais primitivos!- explicou ela, dura!
-Narcans são piratas! Não ouse nos comparar com eles!-rugiu o ser, gesticulando com veemência! Ela meneou a cabeça, concluindo com aparente calma:
-Eu sei disso; não quis compará-los, vocês são bem melhores do que eles, mas...vocês realmente não tem tecnologia para viagens hiperespaciais! Estou errada? Não temos culpa da decisão dos maiorais do setor lhes ter prejudicado e nem somos seus inimigos; só queremos voltar para casa...peço que nos ajude neste desejo!
O alienígena balançou a cabeça, em contrafeita anuência; olhou em torno e disse-lhe, com maliciosa inflexão na voz :
-Esta nave tem reator de hiperespaço, não?
-Huum...não! –mentiu ela, empalidecendo! O ser emitiu o que pareceu uma risada sarcástica!
-Claro que tem! Como chegariam aqui sem um motor destes!? -Fez sinal para que eles se sentassem nas poltronas, ríspido, e ordenou algo em uma língua desconhecida para seus subalternos, que voltaram para o túnel aberto; a seguir, ante o olhar surpreso do humano, o buraco foi sendo selado com uma substância esbranquiçada, pelos mesmos! Em segundos a parede estava “remendada” e parecia mais sólida do que antes da perfuração! O tubo cilíndrico foi retirado do casco e a nave alien posicionou-se acima deles, emitindo uma luz amarela que envolveu o espaçoplano terrestre! Aydr falou baixinho para o coronel, frustrada:
-Raio trator! Estamos à mercê deles! Vão nos rebocar para Waldor!
Lawrence Tarkah apertou sua mão sobre o coldre, sussurrando:
- Ele está sozinho...podíamos....- Ela o deteve discretamente; o alien alto e esguio voltou-se para eles após observar que sua flotilha acompanhava seu reboque, atenta! Com um gesto amplo, disse-lhes:
-Vocês agora são propriedade do Kallman de Waldor! Submetam-se e viverão; reajam à sua sorte e serão volatizados! Esta nave será desmontada e copiaremos seu reator de hiperespaço! Em breve , os waldorianos terão sua tecnologia de Viagem transdimensional!
- Mas isso é errado! Não somos seus inimigos! Libertem-nos, por favor! Se os Tulianos souberem.....- protestou a jovem, com seriedade na voz! O alienígena esguio deu de ombros, apontando sua arma para o casal:
-Os tulianos jamais saberão...como já não sabem de muita coisa aqui em Waldor! Humanos: entreguem-se à misericórdia de seu novo amo, o Kalmann e serão bem cuidados! Ele nunca viu um de sua raça e adorará ter vocês como seus favoritos! Conformem-se com seu destino e o adorem para o seu próprio bem!- dito isso ele lhes deu as costas, confiante e ficou admirando a viagem de reentrada na atmosfera do planeta violeta!
-Me atualize Aydr, que temo estar ouvindo mal... este cara está dizendo que seremos ....”mascotes” do líder dele?!-murmurou o homem para a jovem alva, incrédulo! A tuliana mordeu os lábios e retrucou, entre dentes:
-Mascotes? Não, Lawrence....escravos !
-O que?????-ganiu ele, estupefato! Ela continuou:
-Por isso não queria que tivéssemos vindo aqui! Waldor é segregado do convívio com as demais raças do quadrante há séculos, por ser uma cultura brutal, primitiva e totalmente escravagista! Não nos relacionamos diplomaticamente, não comerciamos com eles e nem passeamos por este setor do braço galáctico em que eles vivem, de forma localizada, restritos a este mundo e algumas colônias das vizinhanças, por conta de sua limitação tecnológica, que só lhes permite usar estas naves obsoletas para viagens locais pelo espaço próximo... São tão insignificantes para os povos da Aliança, que nós os ignoramos solenemente devido a estas características deles e ...isso os enfurece sobremaneira contra nós!
-Genial! Eu ainda não acredito no que estou passando!!!-bufou furioso!- Há horas atrás, eu era um piedoso coletor dos despojos de heróis esquecidos de meu povo, num mundinho sujo do Sistema Vectra, em pleno território da novíssima Federação Galáctica!! E agora, assim de repente, estou no outro lado da Via Láctea, com uma telepata louca estrangeira, de personalidade múltipla, numa nave terrestre que devia estar “desaparecida em ação” há cinco anos , carregada de vírus mortais, prestes a ser feito escravo de um sultão alienígena no “cu do mundo” do Braço de Sagitarius!! É muita sorte a minha!!!!!- começou a rir como um insano! E de chofre, fuzilou-a com uma pergunta ácida, enquanto apontava para o ser que os ignorava, admirando a vista lá de fora, pela janela:
- E quanto a você, super-cérebro!!?? Desde que este magrelo ai nos invadiu, não mexeu uma sobrancelha! Por que não o fulmina com o seu poder mental!??
Aydr mordeu os lábios, tensa! Ela poderia fazê-lo, mas não via como abater o waldoriano iria resolver a situação-limite em que ambos se encontravam, numa nave sem energia, sob forte escolta dos amigos do ser esguio a frente deles! Ademais, uma coisa que o captor lhes dissera a incomodou! Devido a isso, sentia a necessidade de permanecer quieta para aprofundar sua investigação sobre o fato! Cruzando os braços, sussurrou para o humano a seu lado:
-Não posso falar agora, mas tenho meus motivos para não agir... De maneira alguma eles devem saber que sou tuliana, entendeu? Para todos os efeitos, sou “terrestre”, como você!
-Por que não pede socorro para seu povo!? Vocês são telepatas... Comunique-se com eles e peça que venham nos tirar desta enrascada!-sugeriu Tarkah, tentando sofrear sua natural impulsividade! Ela retrucou:
-Não diga tolices! Sou empata sim, mas não sou o Poderoso Senhor do Todo! Só ele tem a onipresença, onisciência e onipotência!!
-Poderoso o que!?- sorriu, debochado! –Quem é esse, seu presidente!!?
-Vocês o conhecem como “Deus”....... –resmungou, amuada! –Meu povo vive muito, muito longe desta região! Não tenho poderes sobrenaturais para contatá-los daqui! Só Deus poderia fazer isso!
-Então estamos perdidos....- disse O coronel, desanimado. Olhou sua pistola no coldre e refletiu se devia aproveitar a distração do waldoriano para fulminá-lo; um rápido cotejo da situação lhe indicou que seria loucura suicida: Se matasse o cara, os outros aliens os destruiriam assim que pousassem! Melhor seria pagar para ver o que vinha por ai e tentar fugir assim que surgisse uma oportunidade! O ser magro desviou sua atenção da janela para eles e lhes disse, monocórdio como um robô:
-Preparem-se! Estamos pousando na capital do Kallman! Rejubilem-se, seres sem nobreza: o Piedoso os avaliará assim que desembarcarmos!
-Mas não respiramos sua atmosfera! Morreremos lá fora! –obstou a tuliana, espantada! O ser replicou:
-Coloquem seus trajes espaciais! Temos um habitat para vocês, serão levados para lá.
-Vocês têm?! Já nos esperavam!?- indagou o militar, franzindo o cenho! O alienígena encerrou o assunto:
-Não há mais o que se falar. Vistam-se!
O cortejo pousou em um descampado azulado! Vegetação bizarra crescia em torno da pista, com tons que variavam do escarlate ao roxo! O céu era de um violeta bem suave, até bonito! Três luas ao longe brilhavam, distantes entre si! Um sol de coloração azul-violácea fulgia no zênite! O humano perdeu o fôlego, ao vislumbrar aquele cenário exótico! Já estivera em mundos aliens antes mas nunca em um como Waldor!! Enquanto eram instados a andar por uma guarda armada, o casal dentro de seus trajes espaciais, o militar analisou as feições dos aliens! Com as cabeças à mostra, uma penugem magenta cobrindo seus crânios, tinham dois olhos argutos e marrons, sem escleras visíveis! De testa pronunciada, com narizes ( ou seriam bicos!? ) meio aquilinos, pareciam ser uma espécie oriunda de pássaros! Nunca vira seres humanóides tão estranhos como os waldorianos! Caminhando a seu lado, em silencio perturbador, a tuliana examinava cada metro do caminho! Ciente de que a escolta não os ouvia, e se ouvisse, não os entenderia, pois não falavam sua língua, usou o rádio do capacete pra instá-la a falar:
-Qual é o plano? Tem algum?
-Por enquanto, não..Devemos permanecer vivos! Morrer dói muito e não quero passar por aquilo de novo!-gemeu ela; o homem fitou-a pela viseira do capacete!
-“Morrer”?!! Você já morreu antes!??
- Em Vectra-12...uma arma torita me matou enquanto eu socorria você na areia.
-Bem, neste caso... como é que está aqui agora!? Se não é um fantasma,,,o que é você!?-debochou Tarkah, pretendendo ignorar a tensão que sentia! Aydr replicou, indiferente:
-Como já lhe disse, não sou feita de carne; eu “estou na carne”! Este corpo pode ser materializado ou desmaterializado à vontade, sob as condições corretas. Enquanto estiver nele, sou mortal, vulnerável a qualquer injúria que mate um ser humano comum como você! A diferença é que depois da morte física, minha essência vital pode recriar um novo corpo, idêntico ao que morreu antes. Literalmente falando, na minha verdadeira forma...sou imortal.
O homem a seu lado sentiu sua cabeça rodar de espanto! Era muita informação para ele digerir daquela forma! A jovem que ele no fundo ainda desejava, era imortal e ... bem, trocava de corpo como ele trocava de roupa!?!
-Sim, pode–se dizer que sou assim mesmo!-murmurou ela, sorrindo, ao ler seus pensamentos!-E obrigado por me desejar! Você também não é dos piores!
-Aydr.....-rosnou ele, aborrecido! –Como posso bloquear meus pensamentos de você!?
-Não pode! Mas não se amofine comigo...estou ficando mais humana a cada hora que passamos...aquele evento que sofri no hiperespaço...coisa estranha, mas me afetou mais do que eu poderia supor!
-Está perdendo seus poderes mentais!?-inquiriu o humano, andando sem vontade pela pista azul, sob a vigilância dos guardas em redor!
-Não! Mas estou me sentindo mais e mais humanizada! Suas emoções e sentimentos... Conceitos que eram um enigma sem solução para mim, como tuliana... eu os absorvi por inteiro, naquela... sei lá, naquela espécie de visão que tive! Por alguma razão que desconheço, o “salto” em sua nave me afetou a psique tuliana, talvez por que estava presa em um corpo humanóide, quem sabe misturou as fisiologias, sem falar no mal estar físico e mental que experimentei!! De repente, comecei a compreender você e sua forma emocional de ser! Senti pena de você por seus sofrimentos passados, imagine só! Se meus superiores em Tulion soubessem disso...eu seria exilada para sempre de lá, como minha irmã de raça o foi!
-Está querendo me dizer que não vai mais agir como se fosse um “freezer” de pernas bem torneadas!?-sorriu ele, animado!- E nem vai mais me menosprezar como um ser inferior!?
-Não force, Lawrence!-os olhos cinza-chumbo brilharam, na viseira do capacete; eles ainda eram frios o suficiente para que ele não se esquecesse de com quem tratava!
A comitiva seguiu por um caminho florestado de árvores exóticas, arroxeadas e castanhas! De repente, uma cidade surgiu, contrastando com o céu irreal! De construções que mais pareciam enormes globos, feitas de um material vítreo, waldorianos altos, sem uma distinção sexual visível, surgiam nas aberturas ( ou seriam portas? Ou janelas?), curiosos para espiarem os recém-chegados! A escolta apertou o passo, tangendo o casal até um domo gigantesco! Com reverência, o líder entrou nele e depois de alguns segundos, retornou, gesticulando para que o grupo todo o seguisse. Uma vez lá dentro, o ser esguio e estranho ordenou aos dois cativos, usando um aparelho de tradução em seu uniforme:
-Deixaremos vocês agora para que se apresentem ao Kallman! Quando a porta se fechar, o ar será equilibrado aqui dentro para que possam retirar seus capacetes; consolem-se porque passarão o resto de suas vidas sem valor neste domo, servindo ao Glorioso Kallman!- e sem mais uma palavra, retirou-se; a abertura se eclipsou numa parede sem marcas de porta. Um chiado ressoou no recinto e a pressão começou a mudar no local! Um alarme interno dos capacetes indicou ser seguro retirá-los e o casal assim o fez. Olhando em torno, viram que havia uma porta interna no outro lado da sala! Antes que fizessem menção a ela, a mesma se abriu! A tuliana falou, respirando fundo:
-Que estranho! O kallman deles não respira o mesmo ar do seu povo? Como poderemos encontrá-lo aqui?! Esta nossa atmosfera deve ser venenosa para os Waldorianos!
-Está sentindo este odor? Parece ozônio... de leve, mas tem!
Iam avançar para a porta quando um trio de guardas armados surgiu na mesma; mas não eram waldorianos! Eram humanos! Os soldados usavam armaduras de guerra reluzentes, pesadas, compactas, de cor violeta, sobraçando pesadas armas de mão, como se fossem fuzis! Não se viam suas fisionomias, ocultas por elmos sofisticados! O chefe deles exclamou em alto e bom som:
-Humanos! O kallman os espera! Entreguem suas armas e sigam-nos!
O casal desfez-se de suas armas pessoais, que os waldorianos nem tinham se preocupado em tomar, desde sua chegada; em seguida, adentraram num aposento gigantesco e muito bem decorado, com um requinte digno da nobreza! Havia até um mini-jardim bem arborizado, com aves estranhas voejando para lá e pra cá! Verificando que estavam sós com os guardas, o coronel indagou:
-Vocês não são nativos! São fisicamente diversos dos waldorianos.... e aqueles “passarinhos” não parecem ter tecnologia para construir este lugar!
-De fato eles são muito atrasados!- a voz ressoou atrás deles! Ao se virar, a dupla se deparou com um homem e uma mulher, humanóides, de pele alaranjada e cabelos esverdeados, em trajes suntuosos, reais! Seus olhos eram de uma incrível tonalidade sem íris e pupilas! Tarkah estremeceu, parvo! Reconheceria aquelas figuras em qualquer lugar, já que fora muito bem instruído a respeito delas, desde dois anos atrás! Todo o pessoal de patente superior da Frota recebera aulas a respeito daquelas pessoas para melhor se prepararem para elas! O olhar incrédulo e surpreso do homem fez Aydr sondar sua mente, da forma indiscreta que sempre fazia, sem entender do que se tratava! Em um microssegundo, compreendeu tudo! O homem em trajes reais declarou, com empáfia:
-Curvem-se ante seu Kallman, servos!
A voz tremula de Aydr sibilou:
-Koshitas!!!!!!!!!!!!!!!
-Deixaremos vocês agora para que se apresentem ao Kallman! Quando a porta se fechar, o ar será equilibrado aqui dentro para que possam retirar seus capacetes; consolem-se porque passarão o resto de suas vidas sem valor neste domo, servindo ao Glorioso Kallman!- e sem mais uma palavra, retirou-se; a abertura se eclipsou numa parede sem marcas de porta. Um chiado ressoou no recinto e a pressão começou a mudar no local! Um alarme interno dos capacetes indicou ser seguro retirá-los e o casal assim o fez. Olhando em torno, viram que havia uma porta interna no outro lado da sala! Antes que fizessem menção a ela, a mesma se abriu! A tuliana falou, respirando fundo:
-Que estranho! O kallman deles não respira o mesmo ar do seu povo? Como poderemos encontrá-lo aqui?! Esta nossa atmosfera deve ser venenosa para os Waldorianos!
-Está sentindo este odor? Parece ozônio... de leve, mas tem!
Iam avançar para a porta quando um trio de guardas armados surgiu na mesma; mas não eram waldorianos! Eram humanos! Os soldados usavam armaduras de guerra reluzentes, pesadas, compactas, de cor violeta, sobraçando pesadas armas de mão, como se fossem fuzis! Não se viam suas fisionomias, ocultas por elmos sofisticados! O chefe deles exclamou em alto e bom som:
-Humanos! O kallman os espera! Entreguem suas armas e sigam-nos!
O casal desfez-se de suas armas pessoais, que os waldorianos nem tinham se preocupado em tomar, desde sua chegada; em seguida, adentraram num aposento gigantesco e muito bem decorado, com um requinte digno da nobreza! Havia até um mini-jardim bem arborizado, com aves estranhas voejando para lá e pra cá! Verificando que estavam sós com os guardas, o coronel indagou:
-Vocês não são nativos! São fisicamente diversos dos waldorianos.... e aqueles “passarinhos” não parecem ter tecnologia para construir este lugar!
-De fato eles são muito atrasados!- a voz ressoou atrás deles! Ao se virar, a dupla se deparou com um homem e uma mulher, humanóides, de pele alaranjada e cabelos esverdeados, em trajes suntuosos, reais! Seus olhos eram de uma incrível tonalidade sem íris e pupilas! Tarkah estremeceu, parvo! Reconheceria aquelas figuras em qualquer lugar, já que fora muito bem instruído a respeito delas, desde dois anos atrás! Todo o pessoal de patente superior da Frota recebera aulas a respeito daquelas pessoas para melhor se prepararem para elas! O olhar incrédulo e surpreso do homem fez Aydr sondar sua mente, da forma indiscreta que sempre fazia, sem entender do que se tratava! Em um microssegundo, compreendeu tudo! O homem em trajes reais declarou, com empáfia:
-Curvem-se ante seu Kallman, servos!
A voz tremula de Aydr sibilou:
-Koshitas!!!!!!!!!!!!!!!
VII - O inimigo dentro!
O homem de pele laranja cruzou os braços, impaciente! Os guardas deram uma coronhada em Tarkah, que caiu de joelhos com o golpe! Aydr foi empurrada para o solo, também! O coronel fitou o ser adiante dele, com ira e dor! Este fez um gesto amplo, dizendo-lhe:
- Assim é melhor... O que acha deles, Varnia? Nossos primeiros servos humanos!
-Um casal forte, sem dúvida, meu lorde! Fazem jus à descrição dos imperadores sobre eles!-retrucou a mulher, lançando um olhar perquiridor sobre ambos, ajoelhados. O seu companheiro comentou:
- Chegaram a nós muito cedo, eu reconheço; nossa presença aqui não devia ser notada por nenhuma raça local, até que estivéssemos fortes para nos anunciar!- normalmente eu mandaria exterminá-los, por conta disso, mas...pelo que eu sei, vocês estão sem nave mesmo, são náufragos presos aqui e...esquecidos de seu povo! Não representam perigo para Kosh!
-E precisamos de escravos pessoais!- sorriu a dama alaranjada de cabeleira verde pálido!-Quem deseja pra si, meu lorde?
-O imperador falou muito bem das fêmeas humanas; veja só a pele dela!! Eu quero esta ai!-respondeu, com um olhar guloso sobre a espantada tuliana!
-Então que o macho seja meu! –bateu palmas e um grupo de serviçais surgiu de um acesso oculto no salão! - Levem estes escravos para que sejam preparados! O Lorde Tanu e eu esperaremos em nossas câmaras pessoais!
Lawrence tentou reagir mas nova coronhada se abateu sobre sua cabeça e ele desabou, inconsciente, no piso decorado ! Aydr teve um espasmo de reação, mas sua mente lógica e atenta a conteve! Devido às ações preventivas das forças da Aliança, da qual Tulion fazia parte, os koshitas não deviam, teoricamente, estar ali! Precisava saber mais sobre aquela invasão secreta de seu quadrante! Por isso o waldoriano na nave dissera que os tulianos de nada sabiam sobre o que se passava naquele planeta violáceo distante! Ao relancear um olhar para a mulher altiva, em finos trajes de nobreza, sentiu um mau pressentimento! Aqueles olhos púrpuras sem íris transpareciam maldade, poder e...algo mais, não sabia definir o que, algo...hipnótico! A sensação durou um segundo, mas a perturbou sobremaneira, enquanto se deixava levar pelos serviçais, todos koshitas! À dama alienígena também não escapou a figura de Aydr e de seus olhos cinzentos e frios! Ela murmurou, pensando alto:
-Interessante!
-O que, minha bela Varnia?-indagou o kallman de Waldor! A mulher de cabelos esverdeados suspirou, pensativa:
-Uma impressão que tive....... Aquela mulher humana... Pareceu-me que.... oculta algo, que não é o que aparenta ser!- deu de ombros, mudando de assunto! – Não importa; ela será sua concubina, logo, caberá a você desvendar seus segredos!
* * *
Aydr foi levada a um aposento recluso do imenso domo, típico de um harém das lendas orientais da Terra! Surpresa com o luxo do local e a quantidade de fêmeas da raça koshita presentes, todas examinando-a de longe, como se fosse um bicho exótico, não ofereceu resistência, quando mulheres de pele alaranjada, monossilábicas, a despiram à força, levando-a à uma banheira cheia de um líqüido aromático colorido, obrigando-a a nela se mergulhar! Poderia ter se recusado, usando de seu poder mental sobre elas, mas queria ver até onde iria tudo aquilo! Precisava espionar mais, para de alguma forma, alertar seu povo no futuro! Pasma, a jovem raciocinou, enquanto recebia um generoso banho de suas aias: Os temíveis e lendários koshitas, afinal estavam de fato, no Braço de Sagitarius!!! Apesar de todos os esforços da Aliança de raças, o inimigo havia conseguido se infiltrar, sabia-se lá como!! E escolhera um planeta distante e obscuro, de um povo sem importância, desprezível, esquecido! E lá se instalara, secretamente, bem nas barbas dos defensores do quadrante contra sua presença no mesmo! Em Tulion, como em outras capitais planetárias do setor, até se duvidava que esta raça laranja oriunda de outra galáxia, de fato existisse, posto que nunca nenhum habitante local vira um deles, até o presente! As raras batalhas travadas pelas forças da Aliança só confrontaram e destruíram meras vanguardas inimigas que eram formadas por povos escravos de Kosh, “ carne de canhão” , como os humanos os denominavam! Desde o início das hostilidades, nem um só koshita verdadeiro fora capturado! Já fazia mais de um ano que Sagitarius vivia em relativa inatividade bélica, pensou-se que eles tinham desistido de invadir, coisas assim.... e agora, com o que a tuliana se deparava!??
Uma das aias começou a lavar seus longos cabelos negros, aparentemente extasiada com a cor deles! Aydr reparou que todas as koshitas tinham cabelos verdes ou púrpuras! Sua pele era de tons alaranjados tendendo ao dourado e seus olhos invariavelmente, de cor lilás! Uma mulher branca como ela, de cabelos negros e encaracolados, com olhos plúmbeos, causaria furor entre as fêmeas do lugar, considerou, curiosa! Ao mesmo tempo, sentiu um mar de sensações inusitadas invadirem-lhe a alma! A medida que seu banho de sais aromáticos e relaxantes prosseguia, sendo delicadamente massageada e lavada pelas estranhas servas de kosh, sentia-se lânguida, satisfeita! Deu-se conta de que, desde que assumira a forma material, nunca tomara um banho destes ou de qualquer outro tipo, jamais imaginara quão relaxante ele poderia ser para uma mulher... e ela era uma mulher!!!! Estava aprendendo mais e mais sobre ser humana, e a “ sentir “ como humana! Com um prazer inebriante, cerrou os olhos, enlevada, e deixou-se aos poucos, afundar na larga banheira colorida e morna, sob os cuidados de suas atenciosas anfitriãs! Sua investigação podia esperar!
Pouco depois, a secaram com cuidado e a pentearam! Aydr estava nas nuvens, vivamente impressionada com o mundo de sensações que experimentava em seu corpo físico, naquele lugar! Uma das servas ia aplicar-lhe algum tipo de essência oleosa na pele, muito cheirosa por sinal, quando uma delas, a que aparentava ser a chefe, deteve a subordinada! Com autoridade, disse:
-Não precisa aplicar-lhe os óleos do amor!
-Mas ela vai para Lorde Tanu! Ele gosta de sentir o aroma do....- começou a aia mais nova, com o frasco de essência nas mãos!
-Ela não precisa! –A aia mais velha fungou o ar, encarando a tuliana com conhecimento de causa! - Aspirem o ar! Ela exala feromônios!! Não... ela não precisa de ajuda artificial! – deu uma risadinha marota! - Nosso lorde protetor não faz idéia do que o espera no leito esta noite!
Se a tuliana pudesse ver sua expressão, ao ouvir isso.... Um arrepio gelado correu-lhe a espinha! Lorde, leito, feromônios!!??? De repente, começou a se preocupar de verdade com seu futuro imediato! Uma roupa vaporosa foi-lhe entregue, com ordens de a vestir; ressabiada, a tuliana obedeceu e viu-se num espelho oval, de seu tamanho, trazido pelas aias! Não acreditou no que via! Estava soberba! Sua beleza natural fora multiplicada pela sensualidade do traje em si e ela corou, constrangida de si mesma! Uma aia prendeu-lhe ao tornozelo direito um adereço precioso! Ao colocá-lo, a jóia emitiu um leve “bip”! Aydr então notou que todas ali usavam tornozeleiras distintas, se bem que não tão belas como a sua! Deduziu que seriam uma identificação da escravidão, e a aia mais antiga lhe ditou:
- De agora em diante, pertences ao Lord Tanu, como todas nós! Esta jóia não é só sinal de teu status de concubina dele; ela é um rastreador para que ele sempre saiba aonde tu te encontras!
-E se eu quiser retirá-la!?-murmurou a tuliana, com um olhar ferino! A aia sorriu; com desdém, respondeu:
-Se tu tentares retirar a tornozeleira, ela te explodirá.... Ninguém que fez isso antes está aqui pra contar....-e com um gesto autoritário para as demais! –Podem levá-la!
* * *
Lawrence acordou de súbito!A pancada que recebera lhe dera um belo “galo” de presente que doía ainda, ao tocá-lo! Ao notar o cenário em que se encontrava, nada reconheceu! Um homem atarracado o observava, de longe; no chão perto dele, um monte de roupas koshitas masculinas! O homem de cabelos roxos ordenou, apontando um banheiro:
- Lave-se e vista estas roupas, escravo; sua nova dona o aguarda impaciente!
-Quem é você!? Que besteira está dizendo!!?-levou a mão ao pescoço, sentindo algo lhe roçar a pele! Era uma gargantilha ou colar justo, de metal precioso! Tentou retirá-lo, mas a dor que seu gesto lhe causou, o fez recuar no intento! O homem falou-lhe, imperturbável:
- Vejo que já conheceu o poder de seu rastreador; ele lhe causará dor ao tentar retirá-lo e se insistir, pode explodir sua cabeça. Não tente mais isso. Meu nome é Luag; sou o chefe dos criados de sua alteza, Lord Tanu! Deve prestar obediência a mim, abaixo dele e de Lady Varnia!
-Este Tanu...quem é ele? O imperador de seu povo que não é, pelo que ouvi ele falar!
-Lord Tanu pra você! O lord é um Gila-Ad de kosh! Os Gila-Ads são nobres que governam territórios conquistados, em nome do imperador divino de nossa raça!
- Tal qual um sátrapa, hein!? Como posso entender sua língua e vice-versa!? Não vejo tradutores universais em mim ou você!
-Pobre e primitivo escravo! O domo tem um sistema de tradução simultânea que opera em todo o seu interior! Não necessitamos de aparatos pessoais pra nos comunicarmos com estrangeiros! – e notando o espanto do terrestre, concluiu, desdenhoso! - Como sua gente é atrasada........ Agora, sem mais demoras! Vá banhar-se e vista-se!
- Eu não vou vestir esta fantasia!! Parece saída de um conto de Aladim!-resmungou o humano, pondo-se de pé! Luag exibiu um objeto em sua mão direita:
-Bem, se não vestir, vou fazê-lo sofrer! Seu colar obedece a mim, também! –apertou o objeto com um ar sádico! –Tarkah pulou como uma mola distendida! A dor que sentiu foi inenarrável! Durou só um segundo e cessou! Ele caiu, prostrado no solo! Luag indagou:
-Devo continuar?
-Dane-se, merda de koshita maldito!!! Se eu puser as mãos em seu pescoço....- foi a resposta furiosa e ele tentou se levantar para voar-lhe em cima, mas Luag não se alterou; apenas premiu o objeto da destra de novo! Tarkah rodopiou no ar, com um uivo abafado e caiu rente aos pés do koshita! Sua respiração estava ofegante e ele via tudo rodando! Luag inquiriu-o, cutucando-o com a bota:
-Devo continuar!?
O coronel retraiu-se, tentando ganhar fôlego após a dor inacreditável!
-Ok, ok!!...Já entendi seu ponto de vista! Cadê as tais roupas!?
-Primeiro o banho, escravo! _sorriu Luag, vitorioso, apontando o banheiro! O humano suspirou vencido e arrastou-se para lá, ainda tonto!
VIII - Lady Varnia!
Lawrence Tarkah foi conduzido à uma ala reservada,no centro da área do domo; perfume inebriante no ar, como incenso, móveis luxuosos e aias silenciosas, movendo-se como sombras pelos cantos, o levaram a supor que estava em aposentos da mulher nobre que vira ao chegar! O cheiro suave de ozônio estava bem amortecido, percebeu, não sabia se pelo incenso ou se por alguma mudança da atmosfera local. Fungou o ar, aliviado! Parecia estar só na sala e observava tudo com atenção, quando uma voz feminina ressoou atrás de si:
-Em Kosh, respiramos basicamente o mesmo ar que vocês, humanos...um pouco ozonizado talvez, mas não chega a matar seu povo, como notamos quando alguns de vocês lá estiveram conosco; como precaução, reduzi os níveis deste gás aqui; não me afeta e também não afetará você!- a sombra se tornou visível: era a koshita que se denominava Lady Varnia! Pisando macio, descalça, um corpo sensual, com trajes finos, levemente decotados, braceletes preciosos, cabelos em coque, olhos lilases brilhantes, nariz afilado, boca carnuda e desejável! Alta, ela ombreava com o coronel! Ele a seguiu com os olhos, impressionado enquanto ela o rodeava , analisando-o! Com um sorriso, a nobre dama comentou:
-Luag fez um bom trabalho com você! Parece um servo digno da realeza, agora! –o homem fitou suas vestes koshitas de cortesão - escravo, com desagrado! O colar lhe incomodou ao fazer isso e ele aliviou a posição do pescoço, frustrado! Varnia notou e disse-lhe:
-Logo se acostumará à sua nova condição; sei que não era escravo antes e isso tudo deve estar sendo meio estranho para você, mas.... com o tempo, se adaptará! Agora você é meu, sabia? Antes que prossigamos, quero saber uma coisa: Meus súditos waldorianos me comunicaram que sua nave tinha um carregamento biológico... Microorganismos, ao que soube! O que pretendia com eles? Iria nos atacar? Se for esse o plano de sua Aliança, perderam seu tempo! Primeiro: somos imunes às suas doenças; segundo: vocês andaram por uma zona do espaço muito radioativa! A mesma matou seus bichinhos! Como vocês dois sobreviveram?!
-A Ponte da nave tem isolamento especial contra radiação, bem como outras áreas de convívio humano; o compartimento de carga, ao que parece, não! Felizmente, aliás....-ele suspirou de alívio ao saber que os vírus foram inativados pela radiação das nebulosas! Menos um problema para que se preocupasse! E prosseguiu, fitando a mulher alaranjada:
- Não entendo como vocês chegaram aqui sem que a Aliança os detectasse! Vejo que não são um grupo grande... batedores, talvez? Como dominaram os waldorianos? Essa raça parece bruta o suficiente para fazer picadinho de vocês... Como os transformaram em seus dóceis servos!!?
-Para um escravo, pergunta muito... Qual o seu nome?- murmurou ela, rodeando-o de novo, como se estivesse prestes a dar o bote!
-Tarkah, madame!
-Dominar esta raça inferior não foi difícil... Eles ficaram muuuito zangados com a Aliança por terem sido preteridos em sua formação! Foram solenemente ignorados por vocês, entende!? Para um povo orgulhoso como eles, isso foi imperdoável... Assim, ao notarmos sua insatisfação como os vizinhos, prometemos-lhes o domínio deste setor galáctico caso se aliassem a nós; como mercenários gananciosos que são, aceitaram! Os waldorianos são guerreiros tribais, primitivos, apesar de sua tosca tecnologia espacial... Seguem ao mais forte: em vista disso, matamos seu kallman assim que pousamos e Tanu se declarou o novo líder deles! Foi prontamente aceito... Eis tudo!
-Como chegaram aqui!?-insistiu o militar.
-Somos batedores, como você já disse.... A galáxia é muito grande e nem mesmo a sua Aliança pode vigiar todos os pontos dela ao mesmo tempo! Simples, não?!
-Mas vocês são membros da elite de Kosh! A sua guarda usa as cores de uma de suas imperatrizes! Como podem ser “batedores”!?
Varnia bateu palmas, impressionada!
-Meus parabéns, Tarkah! Vejo que está bem informado sobre nossas peculiaridades! A ex-imperatriz traidora que fugiu para cá os informou bem! Sim, nossos homens são da Guarda Violeta real! Uma deferência da nova soberana a Tanu, seu fiel secretário!
-Sabemos mais do que imagina!- replicou ele, sério. A mulher aproximou-se dele, confiante! Com desinteresse aparente, levou as mãos ao pescoço dele, enlaçando-o, sedutora! Com um tom misterioso na voz, perguntou-lhe:
-Então você deve saber que uma das peculiaridades das fêmeas reais de Kosh é a Magia! E suas damas de companhia, como eu, também obtêm esta dádiva real! -Os olhos violáceos acenderam-se, fixos nos dele, ferozes, irresistíveis, inexoráveis! Lawrence sentiu o chão sob seus pés faltar!
* * *
Noutro aposento, Aydr sentiu uma aguda impressão mental envolvendo seu companheiro de odisséia! Ela não dissera a ele, mas quando se uniram fisicamente, um elo mental se formou, por sua vontade, e ela podia perceber quando algo não ia bem com o humano! Retesou-se e olhou em torno, tentando localizar de onde vinha aquele ...presságio! Ia correr por uma porta afora quando por ela entrou... o kallman de Waldor! Tanu, o lord, esboçou um sorriso prazeroso ao vê-la paramentada como uma concubina da nobreza! Mediu-a de alto a baixo, impressionado com sua beleza evidente!
-Realmente o imperador não exagerou ao elogiar sua raça!! Vocês dão fêmeas soberbas!!! Dê uma volta para eu admirá-la, minha serva deliciosa! Huummm... como cheira bem!!!
Os tais feromônios de que a serva falara! Seu corpo físico parecia secretá-los mais do que ela apreciaria! A tuliana soltou um muxoxo de enfado! Não era a hora , nem o lugar e...nem o homem! Fez menção de ultrapassá-lo, apressada com a intuição lhe fervendo na cabeça, quando este a agarrou, rindo jovialmente!
-Ei! Aonde pensa que vai, minha alva deusa!!??
-Me solte! –rosnou ela, tentando ir para a saída!
- Soltar?!! Não creio que esteja em condições de me dar ordens... Quem é o escravo aqui!?-debochou o koshita, mantendo-a sob seu jugo, ébrio de desejo! Aydr fuzilou-o com seu olhar gélido e cinzento!
-Deve ser você, meu lorde!!!- e lançou-lhe um verdadeiro dardo mental que o fez rodopiar no ar, surpreendido! Com ira, ela se desvencilhou dele e ordenou:
-Vá para sua cama e fique lá!! E esqueça o que aconteceu aqui!
O nobre fez meia volta como um sonâmbulo e dirigiu-se para outra câmara anexa ao aposento! Aydr disparou para a porta visada, com a imagem de Lawrence Tarkah em perigo na sua mente! Atravessou um longo corredor vazio e silencioso e então, viu uma porta guardada por dois lacaios - sentinelas! Fez um gesto hipnótico para ambos assim que chegou até eles e os homens desprevenidos, caíram pelo solo, desacordados! Um tanto exausta pelo esforço mental despendido, a jovem muito branca,de cabelos cacheados negros, em seus trajes esvoaçantes e transparentes, atravessou o portal e deu com uma câmara íntima! Descalça, não fazia barulho ao pisar e seguiu sua intuição para uma porta entreaberta! Lá chegando, arregalou os olhos de estupefação, revolta e para sua surpresa, ciúmes!! Num leito luxuoso, a mulher de Tanu, ainda vestida, cantarolando baixinho numa língua estranha, despia lentamente o humano, que jazia deitado sob ela, impassível, como que dopado ou coisa assim! Numa fração de segundo, Varnia estremeceu e voltou seu olhar violeta para a porta! Naquele momento, Aydr compreendeu por que sentira algo de anormal com a koshita!
–Você!!!!- murmurou a mulher de pele alaranjada, ainda montada sobre o inerte parceiro! Com a agilidade de uma pantera, ela saltou da cama para o chão atapetado, exibindo uma face de fúria, rosnando:
-Eu sabia....você é telepata!!!
-E você é... é...o que é você!??- Aydr assumiu postura defensiva! Reconheceu a potencialidade da adversária no ato, mas desconhecia o que ela representava! Varnia estufou o peito, sorrindo malevolamente:
-Eu sou uma maga!! E você vai morrer, maldita!!!!!!!- e fez um sinal com uma das mãos, na direção da recém-chegada! Aydr sentiu a influência maligna em sua pele, na forma de dor lancinante e contra-atacou com sua prodigiosa mente superior! Varnia deu um salto para trás, levando as mãos à cabeça! A tuliana sentia seu corpo todo arder como se estivesse em chamas! Concentrando-se no ataque mental, ela ignorou a dor e manteve o “bombardeio” sobre o cérebro da rival que cambaleava gemendo, com as mãos ora no rosto, ora na nuca, em evidente sofrimento! Esta fez novo gesto teatral e Aydr caiu de joelhos, sentindo-se prostrada e em dores inexplicáveis! O duelo de forças titânicas persistiu por poucos segundos e então, Varnia rolou pelo chão, desacordada! De seu lado, a tuliana, já ajoelhada, sentiu a mente se enevoar devido ao esforço despendido e foi ao chão, inconsciente!
Um toque morno a despertou, sentindo lábios colados aos seus! Os olhos cinzentos se abriram para um rosto conhecido, rente a ela, e Tarkah sussurrou, aliviado!
-Graças ao bom Deus, você está viva! Eu pensei que....
- Lawrence!....O que? Onde?......- ela o afastou fingindo rispidez, ao sentir seu beijo, e olhou em torno: Varnia jazia caída no piso, perto deles! O humano torceu o nariz, amuado com a sua reação, mas nada disse, apenas admirando-a em seu novo visual! A tuliana indagou de forma algo infantil:
-Como você e ela.... quero dizer, você fez com ela...?!? Fez??
-Nada aconteceu, minha bela! Eu apenas “apaguei” enquanto falava com a koshita e..... e quando acordei, estava na cama ali, semi-nu... e vi você aqui! Pode dizer o que aconteceu? Eu não me lembro..... –disse-lhe ele, se recompondo.
-Esta bruxa é uma poderosa hipnotizadora!! Ela o dominou com seu poder mental e ia...ia...bem, você sabe o que ela ia fazer com você! Eu recebi seu pedido de socorro e cheguei bem a tempo de evitar o pior! –explicou ela, pondo-se de pé e analisando a outra! O homem exclamou:
- O que? Outra doida me hipnotizou!?? Isso já está ficando monótono.... Que diabo de universo é este?? Mas espere ai...eu pedi socorro pra você!?? Como, se não me lembro!?
-É uma longa estória; noutra hora lhe conto; temos de decidir o que fazer agora!- disse-lhe Aydr, pensativa.
-Ela está....?
- A...a bruxa tentou me matar com uma sugestão hipnótica poderosíssima, “magia” na visão mística dela!!! Realmente, eu não fui boazinha com ela, não! Se fosse humana, estaria morta... mas a raça dela é resistente! Creio que está em choque ou algo assim!
-Sei que não é a hora mais adequada, mas ...como você está linda, sua “ dominatrix de cérebros”! – o homem admirou-a, realmente embevecido; as roupas vaporosas de ”odalisca” e o seu perfume pessoal o excitaram demais! Aparentemente apaixonado, quis beijá-la de novo, mas embora a idéia lhe agradasse, ela o repeliu, firme!
-Pára!!! Que idéia! Temos coisas mais importantes para resolver!!-a tuliana se deu conta de que seus feromônios estavam amplificados mesmo, pois o humano parecia não se aperceber do risco que corriam, só desejando possuí-la ali mesmo! Foi preciso uma reação dura ao assédio inoportuno para que ele voltasse a pensar claramente! Visivelmente constrangido, o humano mudou o foco de sua atenção:
- Temos de decidir o que fazer com essa loba ai... Se ela acordar, irá chamar seus guardas e seremos executados! O pior é que estamos isolados aqui! E tem o problema deste meu colar....podem me explodir a cabeça à distancia, se quiserem!! Sem uma astronave, como escaparemos deste planeta?- fitou a “odalisca“, indagando!- E o tal Tanu, aonde ele está agora? Como você chegou aqui!?
-Eu já o dominei! Está em seu leito, sob minha sugestão mental!
-Então você o dominou... Talvez esteja ai a nossa saída daqui! Pode fazer o mesmo com Varnia?- apontou a koshita que emitia gemidos suaves no piso, recobrando a lucidez aos poucos! –Se pode, seja rápida ou.....
-Eu posso!-fitou a adversária, que abriu os olhos violáceos, confusa! Tinha de pegá-la neste momento, antes que recuperasse toda a sua normalidade! Quando a koshita fixou nela o olhar surpreso, Aydr a subjugou, não sem certo esforço, pois Varnia era uma telepata como ela, e das boas! Só o conseguiu porque a mulher abaixo dela estava saindo da inconsciência! Em segundos, a dama real sentou-se na cama, com uma fisionomia distante, inexpressiva! Aydr ordenou, férrea:
-Deve se esquecer de que nos viu aqui; deve se esquecer de seu desejo pelo escravo humano e deixá-lo em paz! Você está exausta! Deite-se e durma até amanhã!
A koshita nada disse, apenas deitou-se e adormeceu imediatamente. Tarkah soltou um assobio baixinho, impressionado! Se ele pensava que já vira de tudo com a tuliana........
- Será que você poderia ordenar ao tal kallman que nos desse uma nave?
-Entenda de uma vez: eu tenho poder para influenciar as mentes de outros, temporariamente, mas não sou uma deusa! Não tenho como dominar completamente em definitivo, o intelecto alheio! Não tenho certeza de que poderia fazer isso que sugere....
-Mas não custa nada tentar...ou permaneceremos aqui como escravos sexuais destes depravados laranjas! Ademais, é nosso dever tentar fugir e avisar nossos povos desta ponta de lança de invasão!-ele franziu o cenho, dirigindo-se para a porta de saída do aposento! - Devemos também descobrir o que eles estão fazendo aqui e o que pretendem no futuro! Só este grupo pequeno não invade nada nesta galáxia! Eles devem estar preparando a vinda do grosso do povo deles! – O homem atarracado cambaleou ao alcançar o portal... Ele pareceu exausto para ela; Aydr lembrou-se então de que ele não dormia há dois dias!
-Precisamos descansar... Até eu mesmo necessito disso ou este corpo físico se deteriorará....
-Mas você não o domina totalmente? Precisa de descanso?!
-Se não estivéssemos nesta intensa atividade, não seria o caso, mas... dispendi muita energia ao subjugar tantas mentes ao mesmo tempo...Preciso manter este controle constante sobre todos ou eles se libertarão de meu poder mental e estaremos em apuros! Não posso forçar mais este cérebro físico como estou fazendo ou ele se arrisca a uma deterioração súbita com risco de morte para esse corpo! –explicou-lhe a tuliana, emitindo um suspiro de cansaço reprimido! Lawrence Tarkah meneou a cabeça, compreensivo:
-Entendo...está fritando seus neurônios com este poder seu! O físico não comporta tanta... energia mental! Devemos descansar um pouco realmente... E comer algo! Estou faminto, além de exausto!-olhou em torno e viu uma terrina ricamente adornada, numa mesa de refeições, cheia de frutas estranhas! Olhou para ela e indagou:
- O que acha? Serão comestíveis para nós?
-Devem ser...a fisiologia koshita é compatível com a humana, apesar das diferenças fenotípicas! Eles até consideram que vocês são a sua “tribo perdida”, não?! Foi este o motivo alegado pelo imperador deles para nos invadirem....
-De fato...o tal maluco–mor de Kosh pensava assim! Só que para mim, ele nos quer invadir por motivos mais do que meramente genealógicos! Vamos comer?
-Vá em frente; tenho de fazer mais uma coisa!
O homem serviu-se de uma “pêra” azul! Mordeu-a com gosto, e sorriu!
-Deliciosa!!!-olhou para sua companheira de epopéia e notou que se concentrava profundamente, exibindo cansaço em suas faces alvas! Após alguns instantes, os olhos cinzentos como o mar mais revolto num dia de chuva se abriram, aliviados! Ela suspirou:
-Está feito!- e explicou-lhe! –Para que nós possamos descansar em paz por algumas horas, tive de impor uma sugestão mental coletiva sobre os koshitas que domino, para que todos durmam por um período maior esta noite, de forma que possamos despertar antes deles, amanhã! Assim, não escaparão de minha influencia enquanto eu própria durmo....
-Genial! Eu nunca encontrei alguém como você, Aydr!-elogiou-a ele, comendo fartamente as frutas na mesa! Ela se aproximou dele e tomou algumas “peras” para provar; sorriu tristemente:
-Obrigada!
-Pelo que?
-Sua pronúncia melhorou muito! Já consegue me chamar pelo nome correto!
Tarkah deu um risada gostosa e buscou uma garrafa de prata cheia de algum líquido nutritivo; serviu-se de duas taças prateadas e fitou por instantes a koshita, que dormia em seu leito, ressonando como um gatinho!
-Ela sabe se cuidar! Tudo do bom e do melhor... E é só uma dama da corte! Imagino o luxo da realeza em si! Isso aqui deve ser o néctar dos deuses! –tomou a taça de um gole só, deliciado! Aydr bebeu também e aprovou o paladar do líquido. Comeram e beberam o suficiente da excelente refeição e procuraram um local aonde se aninhar para algumas horas de merecido sono! Havia vários divãs na ampla câmara pessoal da dama de cabeleira esverdeada! Escolheram um, de casal e deitaram-se, mortos de cansaço! Ela suspirou, com o corpo doendo!
-Nunca poderia supor que ser de carne doesse tanto...minhas costas estão me matando! Como vocês agüentam isso diariamente, por...oitenta anos ou mais!!??
-Falta de opção?! –pilheriou ele, semicerrando os olhos!-Quer que lhe faça uma massagem nas costas?
-Alivia a dor?
-Com certeza! Vire-se de costas para mim e relaxe....
A tuliana curiosa, obedeceu e ele pôs as mãos em suas espáduas, friccionando-as levemente; Aydr sentiu-se levitar de prazer!-Você fazia isso em sua esposa?
-De vez em quando sim....relaxa a mente e o corpo, não?!-resmungou ele,sem muito interesse no tema.
-Sim...é delicioso! Afinal, sensações prazerosas na carne...Parecia que só havia dor!-sorriu ela de olhos fechados, bem submissos a ele! O humano indagou:
-Você não me disse qual é sua verdadeira forma....
-Energia...luz... Sem contornos de silhueta, só energia! Seria invisível aos seus olhos físicos, se me desmaterializasse agora... Vivo numa ...dimensão diferente! Meu próprio mundo vibra numa freqüência superior ao seu entendimento...
-O que quer dizer!?
-Quero dizer que se vocês desembarcassem em Tulion...
-Impossível! Pelo que eu soube, seu governo nos proibiu de nos aproximarmos de seu espaço natal, ou sequer orbitarmos seu planeta... Vocês são tidos como xenófobos de carteirinha! Nem sei como se aproximaram de nós assim... Os próprios Lahars, seus vizinhos, são mantidos à distancia de Tulion, por exigência de seu povo! Aliás... ninguém sabe ao certo, aonde fica o seu planeta!
-Nós mantemos todos os povos longe de Tulion.... Preferimos assim! Temos nossa própria noção de privacidade.
O humano prosseguia a massagem relaxante, atento ao que ouvia e ela prosseguiu, meio sonolenta:
-Como dizia, se vocês humanos pousassem em Tulion...se ultrapassassem nossas defesas, nossa camuflagem planetária....Se achassem aonde se situa o mundo natal de minha raça.....
Ele parou a massagem, estupefato; ela concluiu!
-Não veriam uma só cidade... um só centro de povoamento...um só traço de vida nativa! Tulion, aos seus olhos físicos se revelaria como um planeta ígneo!
-Fala sério!!!??
-Não devia ter lhe contado estes detalhes, é proibido... mas não importa mesmo...Um dia saberiam de alguma forma! Tulion é invulnerável a qualquer tipo de invasão, porque é um mundo vulcânico ativo! Sua superfície é de lava pura, com temperaturas que ultrapassam a qualquer tipo de vida sólida! Qualquer um que pisasse lá seria volatizado pelo fogo e calor! Erupções constantes e mares de lava permeiam sua superfície inóspita!
-E... seu povo vive aonde?
-Numa dimensão paralela a esta, como já lhe disse! Num Tulion totalmente diferente! Mares de luz, cascatas de luz, flores de luz...tudo lá é energia e luz! Seus sentidos humanos nem podem aquilatar a grandeza evolutiva de meu mundo real! –orgulhou-se ela, ronronando!
-Muito interessante... Realmente nem sei porque vocês visitam esta...dimensão física, se vivem num paraíso divino destes!-ele recomeçou a massageá-la, parvo com as revelações de sua companheira de infortúnios! Aydr deu de ombros:
-Ora, mesmo para uma civilização superiora e pacífica como a minha... há desafios a vencer! Mantemos a ordem no braço galáctico, à distancia; supervisionamos os demais povos físicos... Fazemos com que a vida flua por ai em completa paz e harmonia...sem que eles sequer saibam que estamos por trás de tudo que vivem na matéria! Eis aí a grandeza da nossa missão!
-Nobilitante, de fato... Pena que eu não possa visitar o Tulion real, algum dia....
-Quem sabe?-indagou ela, misteriosa, pondo fim às confissões indiscretas! Seus olhos plúmbeos brilharam de desejo, reprimido a tanto esforço até aquele momento!
-Por que sua esposa o abandonou?-indagou-lhe de chofre!
-Que importa isso agora? Ela me abandonou, ponto final! Não é um assunto que eu deseje discutir com você ou com qualquer outra pessoa, de que dimensão for!-irritou-se ele, parando a massagem nas costas dela! Ela virou-se subitamente para ele, e seu odor feminil o invadiu! Ele estremeceu, narinas em frêmito com os feromônios dela! Sua beleza alienígena o entorpeceu totalmente!
-Por que está fazendo isso comigo? Não é justo...-lamuriou-se, crente de que seria enxotado de novo, se expressasse sues sentimentos!
-Não estou sugestionando você, Lawrence.... O que sente é legítimo... Como eu também!
-Você ... está admitindo que....- calou-se, tímido! Aydr achegou-se dele, sensual! Sua voz era não mais que um sussurro aveludado:
-Que eu gosto muito de você? Que eu desejo você dentro de mim? Que... eu amo você??
O humano meneou afirmativamente a cabeça, grogue de amor! Ela sorriu e quando o fez, seus olhos cinzas faiscaram de alegria!
-Acho que não dormiremos nada esta noite, meu querido...... Você ainda tem muito que me ensinar! – e puxou-o para si, felina! Ele se entregou a aquele mar de sensações alucinantes, como se fosse a sua primeira vez!
IX – Lord Tanu
A manhã devia estar se iniciando lá fora, calculou Tarkah, quando despertou de seu sono merecido! Num relance de olhar, viu que Lady Varnia ainda dormia profundamente; procurou a tuliana que adormecera a seu lado no divã, após uma noite de intensos prazeres e amor real; não a encontrou! Pôs-se de pé num átimo, os sentidos em alerta! Vasculhou a câmara íntima da dama koshita, mas Aydr não estava lá! Com vagar, relaxou sua posição e serviu-se de umas poucas frutas que sobraram da refeição noturna, bebendo uma taça do poderoso energético da jarra de prata! Estava a matutar onde ela estaria quando a tuliana regressou de um cômodo secundário!
-Bom dia!-saudou-o a jovem em vestes vaporosas e ricas!
-Bom dia, linda! O que houve? Levantou-se há muito?
-Fui ao sanitário! –disse-lhe ela constrangida! -Este corpo físico necessita eliminar suas excretas também!
-Sem dúvida! Que horas serão?
-Ainda é cedo; programei-me para despertar assim que o dia raiasse! Teremos tempo para resolver o que faremos para sair daqui! Já comi algo e estou pronta para o dia!
O militar anuiu com a cabeça, revigorado pelo descanso; palpou seu colar de escravo com asco e rugiu! –Tenho de tirar isso de mim! O tal Tanu deve saber como fazê-lo! E ainda tem a questão de nossa fuga....
-Tem razão! Vamos ao aposento de Tanu, o libidinoso!-ironizou ela, guiando o companheiro para a saída! Ele a abraçou delicadamente por trás e aspirou-lhe as longas madeixas negras, enlevado por ela! Galanteador, sussurrou-lhe ao ouvido:
-Que jóia linda esta em seu tornozelo... Realça sua beleza!
-Mas ela equivale ao seu colar, em termos de escravidão! Estamos no mesmo barco, meu doce coronel! Precisamos saber como retirá-los... Para sair daqui em segurança!
Atravessaram o átrio interno dos aposentos de Varnia, passando pelos criados adormecidos pela tuliana! Em pouco tempo, chegaram ao quarto de dormir do kallman! Lord Tanu estava deitado na cama luxuosa, em sono total! Aydr o despertou com um toque e o koshita acordou, com o olhar violeta perdido na distancia, ainda sob hipnose! A dupla se acercou dele e a tuliana fitou-o com veemência, inquirindo-o mentalmente! Tanu estremeceu e retrucou, como um sonâmbulo:
-Somos a vanguarda de uma força de invasão; estamos preparando um imenso portal interdimensional orbital para que as naves maiores possam “saltar” para cá sem serem detectadas, assim como fizemos! Não usaremos o hiperespaço, mas sim, uma nova tecnologia de Kosh para viagens interdimensionais!
-E sem este portal, sua invasão fica inviável?- perguntou o coronel, atento.
-Não de todo, mas fica mais improvável! A Aliança tem pleno poder para detectar “saltos” hiperespaciais convencionais e nos destruiria como já fez antes, por várias vezes em que tentamos! Foi por mero acaso que minha pequena nave conseguiu emergir nesta região sem que a detectassem! A galáxia é vasta, para minha sorte, mas uma invasão em grande escala seria detectada e destruída.....
-Onde está este portal? Nada vi na órbita de Waldor!-insistiu ele! O koshita suspirou sonolento:
-Nós o ocultamos com nossa tecnologia de camuflagem.
-E quanto falta para ele estar pronto?-indagou Aydr, atenta em manter o controle sobre a vontade do ser alaranjado!
-Entrará em atividade em duas semanas!
Neste momento, O humano indagou, brusco;
-Pode nos dar uma nave para irmos até lá?
-Sim.
-Mande que seus homens nos devolvam nossos trajes espaciais e que nos levem até ela, que deverá estar abastecida! Ah, e estes aparelhos de rastreamento...tire-os de nós, agora mesmo!
O alienígena se levantou do leito e foi até um painel, ordenando algo pra seus subalternos! A jovem alva cutucou o homem a seu lado, irritada!
-Eu não disse que não fizesse isso?? Não tenho como manter o controle dele se nos afastarmos muito de sua pessoa!! Como faremos, se ele despertar enquanto ainda estivermos a caminho do espaçoporto?!
-Sem problema! – sorriu Tarkah, tranqüilo, admirando aqueles olhos cinzentos e glaciais! –Ele vai ser o nosso piloto! Sabe pilotar, Tanu?
-Sim!
Neste exato momento, uma tela enorme que pendia do teto se acendeu e o rosto do waldoriano mais graduado abaixo do kallman surgiu! Com uma mesura de respeito, o ser passeriforme exclamou:
-Perdoe-me a interrupção, mas temos problemas, meu soberano!- Tarkah recuou para não ser visto e Aydr fez o mesmo, guiando Tanu a responder, como se nada estivesse acontecendo ali!
-Diga!
-Nossos sensores captaram uma frota Narcan se aproximando de Waldor! Temo que seja mais um dos raids piratas deles! Devemos interceptá-los!
-E quem são estes Narcans!?-indagou Tarkah para a tuliana!
-Um povo reptiliano deste setor, tão ou mais atrasado, moral e culturalmente do que os waldorianos! Seu povo já teve entreveros com eles! São saqueadores espaciais, párias que não pertencem à Aliança!
-Execute isso imediatamente! Eles não devem chegar até este domo! – ordenou Lord Tanu, com o olhar inexpressivo, sob as ordens mentais de Aydr!
- Será feito, kallman! – O waldoriano sumiu da tela!
-Um combate espacial aqui perto chamaria a atenção de seu povo, não?-matutou o humano!
-Possivelmente! Eles mandariam naves para investigar!
- Excelente! Vamos botar lenha na fogueira, então! – ele avançou para o koshita estático e segurou-o, ousado! Ia dizer algo para Tanu, quando sentiu uma dor excruciante no pescoço e rodopiou no ar, com um ganido surdo! Aydr foi pega de surpresa pela cena e relaxou seu controle mental por um segundo, quando sentiu uma dor fortíssima na perna em que usava a tornozeleira! Com um grito agudo, foi ao chão, contorcendo-se de dor! No portal do cômodo, atrás do casal, o servo-mor, Luag apertava os dois controles que tinha nas mãos! Tanu despertou do transe hipnótico naquele exato instante e fitou a tuliana no piso, gritando! Num instante, sua memória lhe retornou e berrou para Luag, possesso!
-Incapacite-a! É uma poderosa empata!!!!
O servo fiel avançou para Aydr e , no momento seguinte, vibrou-lhe poderoso golpe na cabeça, enquanto ela se debatia no piso! A tuliana desfaleceu imediatamente! Ia golpeá-la de novo, mas a voz possante do kallman o deteve! –Não!!! Basta deixá-la inconsciente! Tenho planos para esta fera branca! – e apontou para Lawrence, que se estrebuchava no mesmo piso, vencido pela dor lancinante do colar de escravo!-Leve este idiota daqui para a dona dele! Que ela lhe dê o corretivo que julgar adequado!
-Guardas! –berrou Luag! Imediatamente, acorreram dois soldados de armaduras violeta ao recinto e, a um sinal do servo principal de Tanu, dominaram o humano caído e o tiraram do aposento,arrastado! O kallman dirigiu-se para a bela a seus pés e sorriu malevolamente! Luag postou-se atrás dele!-O que faremos com ela, meu senhor!?
-O que temos para submeter ao nosso comando escravas telepatas, Luag?
-Há muito, não temos uma deste gênero, mestre! Creio que o capacete restritivo seria uma boa opção, mas não sei se temos um aqui em Waldor! Se estivéssemos em Kosh ....
- Pois verifique isso; chame o meu médico já; quero-a sedada até termos como controlá-la! Em última análise, eu a porei na câmara de fascinação! – e como se recordasse de algo mal resolvido, ordenou!-Chame na tela o general de meu exército waldoriano!
Luag acionou o aparelho e a cara do ser alien ressurgiu no visor!
-As suas ordens, meu líder! Nossas naves já estão a caminho para atacar o invasor!
-Detenha-as!!! Não quero uma guerra espacial nas minhas fronteiras, numa hora destas!!! Os povos da Aliança detectariam o combate e viriam a este mundo investigar! Não podemos ser descobertos! –ralhou o lord, exasperado! O general espantou-se com a mudança de ordens!
-Mas meu líder! Os narcans vêm nos piratear!! Temos de revidar o raid!
-Entre em contato com o líder deles! Proponha-lhes uma reunião de trégua: tenho algo muito mais valioso a oferecer-lhes do que pilhagem barata!
-Assim será feito, soberano! – respondeu o intrigado ser passeriforme, saindo do ar.
Luag ousou indagar, timidamente:
-Terá sido uma decisão acertada, meu nobre senhor? Os narcans são rivais históricos dos waldorianos! Acha que aceitarão sua proposta?!
-Da mesma forma que os waldorianos, estes reptilianos são a escória deste setor galáctico... E como tal, inimigos da Aliança! E se forem iguais a estes seres daqui... poderemos usá-los em nosso exército de aliados de Kosh! –estalou os dedos, rindo de si para si!- Sim, eu lhes oferecerei poder...e eles me servirão! –fez um gesto imperial indicando a mulher no solo:
-Leve-a para minha cama, ate-lhe os membros, amordace-a e vende seus olhos...Telepatas com privação dos sentidos ficam desorientados! Deixe-a lá até o médico chegar; não a deixe acordar, use o controle da tornozeleira se for preciso e...não bata mais tão forte assim nela...Quero-a viva para mim!
Luag abaixou a cabeça em servidão e fez o que lhe foi ordenado!
* * *
-Madame...- a voz da aia, delicadamente despertou Lady Varnia de seu sono anormal! A dama real sentou-se na cama, com dor de cabeça e a mente confusa!
-Que horas são!?-gemeu ela, lânguida! A serva retrucou:
-Já passa do primeiro quarto, madame!
-Já!?? Como dormi tanto!!??
-O poderoso senhor Tanu lhe enviou um problema, madame!
-Qual?
-O seu escravo pessoal! Ele tentou fugir e foi capturado nos aposentos do Lord! Ele determinou que a senhora o castigasse convenientemente!
Varnia se pôs de pé, meio vacilante, andando pelo quarto! Suas idéias estavam confusas! Não se lembrava de nada antes de levar o humano para seu leito de amor! A visão da companheira dele invadindo seu cômodo pessoal veio-lhe à mente, fugaz! Depois disso, não se lembrava de mais nada! Espreguiçou-se, despindo-se rapidamente!
-Onde está o escravo?
-Na sala ao lado...está muito mal! Luag o feriu profundamente com o poder do colar de rastreamento...
-Maldito lacaio-mor!! Nunca aprende a usar os controles convenientemente!-Passou ao cômodo ao lado, aonde jazia no piso o militar, respirando superficialmente...parecia em choque! Varnia o examinou detidamente e determinou:
-Traga o médico aqui e que ele o cure; não está tão grave assim, mas padeceu muita, muita dor! Sua raça é fraca para sofrimentos físicos! Vou me banhar e alimentar-me; depois irei ao nobre Tanu para me inteirar do acontecido!
* * *
O ser humanóide com pele esverdeada e lisa, brilhosa e escamosa em alguns pontos, vestindo um colante de cor azul, empertigou-se ante à chegada do kallman de Waldor! Lord Tanu chegou com pompa, ladeado de uma poderosa escolta de waldorianos e koshitas em armadura! O encontro se deu em uma nave waldoriana, na órbita do planeta, horas depois da ordem de suspensão do combate iminente! Ao longe, a frota narcan de doze naves de feio visual aerodinâmico, aguardava, parada no espaço! O koshita saudou o visitante, com empáfia:
-Sou Tanu, kallman de Waldor e secretário de sua majestade imperial de Kosh! Quem é você, narcan?
-Falo por Schush, líder de meu planeta! Sou Bwaul, capitão da frota corsária nº 5! Você não é waldoriano! Como pode ser o líder dos waldorianos!?
-Já ouviu falar de nós, narcan? Sabe quem somos?-indagou pomposo, o koshita!
-Sim....a Aliança dos poderosos da galáxia está combatendo seu povo há algum tempo...Dizem que querem nos invadir e conquistar! Mas vocês não tem conseguido muito sucesso nisso...-fez esse comentário final com certo desdém!
-A luta nem começou ainda! Nossas frotas incontáveis aguardam o tempo certo pra chegar e quando isso ocorrer, a Aliança cairá! Mas vocês foram deixados à parte do processo, como estes waldorianos, não? Disseram que seus povos são fracos e indignos de ombrear com eles na luta! Que são atrasados tecnológica e moralmente! Eles os varreram para a periferia das ações neste setor e os esqueceram! Estou errado, Bwaul!??
-Não! –sibilou o ser, com ira na voz!-Os poderosos nos acusam de barbáries e de pirataria; mas esta é a nossa natureza! Sempre fomos corsários do espaço! Não dependemos de ninguém, só de nós mesmos e nos orgulhamos disso! O que queremos, tomamos!! A Aliança é a nossa inimiga agora!!! Nada temos contra vocês, koshitas e seus negócios por aqui, por ora...mesmo que sejam conquistadores, jamais nos dobrarão! Os narcans vivem para lutar!!!! –gabou-se disso com um assobio fino, e seus olhos fendidos arregalaram-se, como os de um crocodilo! O koshita sorriu, satisfeito!
-E ... e se eu lhe disser que não queremos conquistar seu povo e sim tê-los como nossos aliados? Lutarmos juntos contra o inimigo comum? Que o império de Kosh paga muito bem aos seus amigos e que lhe daremos todos os mundos que desejarem, para seu próprio domínio sobre eles, se vencermos a guerra que se avizinha? Kosh domina galáxias e esta não será exceção a nosso poder universal!-apontou para o general waldorianos, sorrindo!- Eles já se uniram a nós...Basta que façam o mesmo e vocês, waldorianos e narcans serão os donos deste setor após o dominarmos, com a derrota da Aliança! Kosh é benevolente com seus aliados e nada deseja senão que nos respeitem e sejam felizes!
0 reptiliano fitou o passeriforme, com desconfiança!
-Vocês confiam neles?
-Nós sabiamente os elegemos nossos líderes e eles nos levarão a nosso lugar de direito nesta galáxia!-arrulhou o waldoriano, esguio!-Deviam pensar nisso que o kallman lhes oferece ao invés de nos ameaçar com seus raids! Sabem que os repeliríamos! Ouçam a generosa oferta de nosso líder, reptilianos!!
- Não somos inimigos de Waldor...-murmurou o narcan, com falsa simpatia na voz sibilina! Nem pensávamos em atacar seu planeta...a frota estava por perto, só de passagem...estamos em patrulha para capturar e pilhar naves da Aliança! Os irmãos de Waldor são por demais desconfiados! – os olhos fendidos se apertaram, dissimulados!
-Chama-nos de “irmãos”, narcan, mas o passado nos diz outra coisa de vocês! –rosnou o general, aborrecido! Lord Tanu fez um sinal e o waldoriano se calou!
-Tudo de errado entre seus povos é passado! Fracos que lutam entre si tornam-se ainda mais fracos!!! Chega de inimizades mesquinhas e inúteis que em nada ajudaram vocês a se auto-afirmarem nestes espaços! Eu lhes trago a paz mútua com benefícios mútuos a seus povos!! Poder, Bwaul!!! Domínio sobre os seus inimigos!!!! Lucros e mais lucros para os Narcans, que outrora humilhados pelos poderosos da galáxia se tornarão os senhores dela, como os Waldorianos igualmente o serão! Só terão de se aliar a Kosh e...serão felizes para sempre!
-Palavras doces e sábias...... e que garantias nos darão que não nos dominarão pelas armas!? São mais poderosos do que nossos planetas juntos..Que garantia nos darão que não nos escravizarão ao vencer a guerra!?- indagou o narcan, cauteloso! Tanu deu de ombros:
-Kosh é um império de comércio! Sempre fomos mercadores e enriquecemos graças a isso! É isso que a Aliança não aceita em nós!! Não queremos dominar nem escravizar ninguém! Só queremos novos campos de negócios para explorar, como sempre fizemos por onde passamos, e eles, os poderosos da Aliança, não nos permitem esta livre concorrência, pois sabem que somos melhores do que eles, no ramos do comércio e que lhes levaríamos à falência se deixassem que nos estabelecêssemos aqui! Por isso nos combatem, querem manter seus próprios privilégios de donos da galáxia, e deixar vocês como párias a margem de todo isso!! Não iremos escravizar nossos futuros compradores de bens de consumo, seria ilógico para nossa tradição de mercadores galácticos!! Vocês só manterão laços de comércio conosco..e só conosco! Eis a única exigência de Kosh! Vender e comprar, mas só com nosso povo! Nós lhes daremos bens de comércio inimagináveis para seus povos e vocês progredirão milênios em tecnologia e cultura, graças a nossas vendas! Serão poderosos e ricos..e sempre comprarão mais e mais de nós, gerando um estado de progresso infindável para suas culturas, assim como já ocorre com centenas de outras que trabalham conosco em nossa própria galáxia! Não temos povos escravos por lá, temos amigos e aliados satisfeitos!!
-Teremos acesso até à tecnologia de hiperespaço?-indagou Bwaul, impressionado!
-Tudo que vocês quiserem!Como eu lhe disse...Kosh é magnânima com os amigos...e implacável com os inimigos! –fez um gesto amplo de realeza!-Não responda agora, Kosh quer que analisem nossa proposta de aliança com calma e sabedoria! Dou a vocês um dia para se comunicarem com seus líderes e me retornarem com a decisão... Mantenha sua frota longe de meu planeta até lá; quando voltarmos a nos falar seremos todos...irmãos!
-Levarei sua generosa oferta ao meu líder...- Bwaul deu as costas ao koshita e saiu, sem mais uma palavra! O general waldoriano se aproximou dele e murmurou, respeitoso:
-Excelente palestra, Kallman! O narcan saiu impressionado!!No entanto, não são confiáveis, estes lagartos! Devemos vigiá-los o tempo todo até a decisão final de seu governo.....
-Mantenha os nossos canhões voltados para a frota deles, por precaução... Em um dia, serão os nossos novos aliados! Eu garanto!-Lord Tanu suspirou! – Voltemos à superfície...tenho um delicioso assunto por terminar lá embaixo!
X- A câmara da fascinação!
Ao regressar aos seus aposentos pessoais, Tanu encontrou Lady Varnia sentada num divã, à sua espera, com cara de poucos amigos! A mulher de pele laranja e cabelos em coque verde, indagou:
-Já terminou suas confabulações políticas de hoje? Precisamos conversar!
-O dever antes do prazer, minha bela! –sorriu ele, bem humorado!-Sabe que temos uma missão vital aqui em nome do nosso amado imperador! Sabia que conquistei os narcans para o nosso lado? Eles se aliarão a nós até amanhã! –arrulhou, orgulhoso de suas habilidades diplomáticas!
-Não vim aqui pra fazer amor com você, meu querido! Quero respostas!-apontou Aydr, deitada na cama dele, desacordada, amarrada, amordaçada e vendada!-seu médico esteve aqui há pouco e a sedou! Sabia que ela é uma prodigiosa telepata!!?? Que ela me derrotou num duelo mental ontem, em meus aposentos íntimos, aonde entrou sei lá como,e me pôs pra dormir um dia inteiro só com o poder de sua mente!!?? Que eu não recordo de nada que aconteceu comigo antes ou depois disso!!?? Você tem de matá-la agora!!!!!!
-Calma ai, minha doce consorte! Você já tem seu brinquedinho musculoso pra se divertir...Ela me pertence e não irei matá-la só pra lhe agradar! Ela é uma poderosa empata, sim...Descobri isso ontem, quando a recebi aqui para seduzi-la e ela me...pôs pra dormir como você, por um dia inteiro! Não me lembro igualmente de nada do que ocorreu comigo antes ou depois disso! –o koshita admirou-a na cama, plácida e indefesa! –Seja como for, eu a quero pra mim! Agora mais do que nunca!
Varnia estrilou, exasperada!
-Mas...mas ela é perigosa para nós! Desconfio que nem seja humana!! Apenas aparenta ser!!!
-Como assim?
-Analise os fatos! Sou uma maga! Minha telepatia é portentosa! Nenhum humano poderia me subjugar com a facilidade com que ela o fez ontem!! Ela dominou a nós dois ao mesmo tempo, fora os meus servos pessoais da vigilância! Não pode ser apenas uma frágil jovenzinha!!!
-Analise os fatos! Sou uma maga! Minha telepatia é portentosa! Nenhum humano poderia me subjugar com a facilidade com que ela o fez ontem!! Ela dominou a nós dois ao mesmo tempo, fora os meus servos pessoais da vigilância! Não pode ser apenas uma frágil jovenzinha!!!
-Tem razão...-ponderou Tanu!- A raça deles é fraca! Uma humana não seria páreo para você, num duelo de mentes! Você sugere que ela não seja realmente humana...então o que ela é!?!?
-Se soubesse, não estaria aqui tentando fazê-lo ver a luz! Ela tem de morrer, meu querido! Ela é um perigo para Kosh!!!
-Vou averiguar isso, meu bem; sossegue que ela não nos pegará desprevenidos de novo! Vou conversar com Luag e decidir como domá-la! Tenho algumas idéias para pôr em prática!
-Luag! Aquele servo inútil quase matou meu escravo pessoal! Quero que o puna por isso!
-Quem deve ser punido é o seu brinquedinho! Sabia que ele tentou me atacar, hoje cedo!? Se não fosse a chegada providencial de Luag neste aposento, ele teria me matado! Luag salvou minha vida e nos libertou do domínio mental dela, ao desacordá-la! Não o punirei por isso...mas você vai castigar severamente o escravo humano, eu o exijo! E dê-se por feliz que não o mando executar, pois hoje estou soberanamente magnânimo!-pensou na reunião vitoriosa daquela manhã, com os reptilianos!
Varnia recuou, vencida e amuada!
-E como pretende domar esta vadia!? Devia dissecá-la para descobrir o que ela de fato é!
-Pensei na câmara de fascinação! Seria uma experiência e tanto ver como uma não-humana, se é que ela o é, reagiria à ela! Que acha, minha eleita!?
-Huuummmm.......... Até que não é uma má idéia! Quero estar presente quando a submeter à câmara! Tem razão! Lá ela será reformatada convenientemente!-ergueu-se do divã, deu um beijo carinhoso no consorte e se retirou, satisfeita, rebolando!
Tanu sorriu, condescendente! Fitou o corpinho indefeso da tuliana em sua cama e desejou possuí-la ali mesmo, mas se deteve! Afinal, após a câmara de fascinação, ela se entregaria para ele em súplica, pelo seu prazer! Sentou-se no leito e acariciou a pele alva, sentindo o cheiro inebriante dos feromônios dela! Não poderia matá-la, nem se quisesse... Estava obcecado por ela!
-Luag!!!!!!-berrou, autoritário!
* * *
Lawrence Tarkah soltou um suspiro rouco, deitado no leito! O médico o socorrera a tempo e suas dores estavam curadas, mas não sua extenuação! Sofrera um choque neurogênico que quase o matara, tamanha a intensidade da dor infligida pelo colar que o cativava! Varnia o observava, pensativa! A seu lado, uma de suas aias esperava por ordens!
-O doutor o salvou, senhora! Ele vai sobreviver!
-Eu sei disso...mas não posso castigá-lo ainda, como exige o meu senhor! Ele terá de se fortalecer antes... Alimente-o bem e ponha-o em forma para mim, o mais breve possível! Quero um servo de guarda na porta deste quarto o tempo todo; ninguém entra aqui a não ser você e eu, entendido?
-Plenamente, nobre dama!-respondeu a serva, humilde.
-É um belo exemplar de macho da raça dele.....-divagou a maga, o olhar violeta perdido na contemplação do físico do cativo; acariciou-o lentamente, delicadamente, enquanto seus pensamentos voavam longe. Não se lembrava do que ocorrera entre eles antes da intrusa os interromper! Estava confusa com relação ao incidente! Levantou-se e saiu do quarto, sem mais nenhuma palavra, deixando a serva a observar o homem inconsciente, com indiferença.
* * *
Aydr sentiu-se entorpecer; sua mente estava obnubilada pela droga que lhe administraram; não tinha uma noção clara do que acontecia, só sentia que algo estava errado, mas não lograva retomar o controle de sua situação, apenas flutuava no nada, indefesa, como num sonho! Aos solavancos, sentiu-se vagamente sendo levada por braços possantes de um lugar para outro, quando a deitaram de novo; sentiu suas mãos e pés sendo liberados de algum tipo de amarras e sua boca sendo liberada, para que pudesse ao menos gemer debilmente; por último, desvendaram-lhe daquela escuridão e seus olhos cinza-chumbo vislumbraram um mar de cores irreais! Não conseguia pensar direito, só sentia! Sua prodigiosa mente estava completamente embotada pela droga em seu sangue! Um zumbido surdo iniciou-se em seus ouvidos e uma redoma fechou-se sobre ela! Foi então que o inferno mental começou!!! A tuliana emitiu um uivo desesperado, com a invasão brusca e estúpida de seu ego, um estupro de seu intelecto pela máquina de condicionamento cerebral koshita, uma poderosa invenção para “lavar” e submeter mentes rebeldes! Em desespero insano, contorceu-se, indefesa, no leito da famosa Câmara de Fascinação!
Do lado de fora, o casal de nobres de pele alaranjada admirava o procedimento; Varnia cruzara os braços, céptica, enquanto resmungava, ante seu companheiro atento!
-Ainda acho que devia matar essa aberração!
-Não.... Eu vou dobrá-la! A câmara não falha jamais! Ninguém a ela submetido, jamais escapou de seu condicionamento cerebral! A máquina “limpa” os engramas originais de memória da vítima, praticamente “reformatando” seu ego! Ela gera uma nova personalidade dócil, medrosa e submissa, altamente influenciável por uma sugestão mental de seu novo senhor! Você ainda vai ver esta ferinha lambendo meus pés!!- deu uma risadinha sensual! -E quanto ao seu escravo? Já o puniu?
-Ele nem acordou ainda... Aquele Luag...-rosnou ela, zangada! –Se você quer tanto brincar com sua escravinha, deixe de se preocupar com o meu!
Tanu notou a pontinha de ciúme na voz de sua mulher verdadeira; apesar dos costumes sexuais libertinos de Kosh, ela sempre fora ciumenta com as concubinas dele! Disse-lhe então, com voz aveludada:
-Tolice discutirmos por causa deles, minha deusa! Você é minha dama... Eles são apenas... divertimento! Quando me cansar desta ai, sabe que ela terá o mesmo destino das outras!-abraçou Varnia com carinho! –Só você é eterna para seu Tanu!
-O mesmo digo eu, meu lord!-sorriu ela, mais aliviada!
Os gritos aumentaram dentro da máquina vítrea! Aydr sacudia-se e contorcia-se como se estivesse sendo eletrocutada! Um raio róseo a banhava por inteiro, em meio ao zumbido agora ensurdecedor! A cena dantesca continuou por mais uns momentos e então ela cessou de resistir e relaxou! Seus olhos cinzas se abriram desmesuradamente e ela fixou o olhar no feixe cor de rosa que se concentrava agora em sua fronte! Retesou-se, relaxou de novo.... Suas vestes vaporosas estavam rasgadas de tanto se contorcer, ao começar a sessão, expondo sua nudez aos olhos concupiscentes do kallman de Waldor!! Tanu saboreou cada minuto daquela tortura!
-Está quase pronta agora! Cessou de resistir ao raio condicionador!
-Eu esperava que ela explodisse ou coisa assim.... Afinal, ainda acho que ela não é o que parece ser!-desdenhou Varnia, séria e decepcionada!
-Confesso que eu fiquei meio em dúvida com o que você denunciou sobre ela, mas.... Parece-me que a humana é de fato... meramente humana! Se não fosse, a sessão teria tido outro fim! Ela se portou como qualquer um de sua raça, durante o procedimento!
-Acabou....-murmurou ela, ao ouvir o sinal sonoro de término da sessão de lavagem cerebral! O raio rosa se apagou! O som estridente cessou por completo!
-Sim! Abram a redoma! –ordenou Tanu, ansioso!
Os técnicos liberaram a cobertura vítrea do aparelho e examinaram o corpo inerte, desmaiado da vítima alva! Com um olhar clínico, um deles disse-lhe:
-Ela está viva e bem, meu lord! Logo despertará. Precisa ser levada para o quarto de confinamento agora, para ser tratada!
-Amarrem-na, vendem-na e amordacem-na até que acorde; deixem-na em total privação de sentidos. Não quero surpresas até ter absoluta certeza de que ela se submeteu de fato à câmara! Levem-na para minha ala pessoal e alimentem-na também!
-Meu escravo hoje está inútil, assim como esta vadia ai... Quer me visitar à noite, meu senhor?-testou-o Varnia, ferina! Tanu esboçou um sorriso contrafeito; se a humana estivesse bem, a resposta seria outra, mas a escrava ficaria em tratamento de recuperação por algumas horas, talvez um dia... Como Varnia era a número um e estava mais à mão...por que não!? Ele a abraçou e conduziu-a para fora do local, com um olhar guloso sobre seu corpo alaranjado!
-Vamos comer e depois...quem sabe, antes mesmo da noite chegar....? Para que esperar até lá?
XI – Despertar para o caos!
O militar terrestre ergueu-se do leito, subitamente acordado! A serva que velava por ele assustou-se com seu despertar! Tarkah sentou-se na cama, tentando se orientar, reconhecendo o odor ozonizado do ar! Ainda estava dentro do domo! Apalpou seu pescoço e constatou decepcionado, que o colar ainda estava lhe cingindo o mesmo! Lembrou-se dos acontecimentos e da figura do servo-mor dos koshitas, Luag, o torturando com seu controle de dor nas mãos! Recordou-se de Aydr gritando de dor no chão, igualmente subjugada pelo lacaio! Enraivecido, pensou: Definitivamente iria matá-lo, ao filho da puta! Encarou a aia, curioso!
-Quem é você? Aonde estou?
-Meu nome é Binar! Está nos aposentos da ala particular de Lady Varnia! Tenho cuidado de você há dois dias! Quase morreu com o choque do colar!-murmurou ela, séria, levantando-se de um tamborete, rumo à porta. O humano a deteve com a mão, pedindo:
-Espere! O que vai fazer?
-Minhas ordens são de avisar nossa ama de que você acordou!
-Não! Não ainda.....-ele se pôs de pé e testou seu estado físico: estava fraco! Deu uma desculpa humilde! -Não desejo que ela me veja assim! Compreenda minha situação... -dissimulou!- Antes de vê-la, preciso comer... Traga-me uma refeição, por favor!
Binar anuiu com a cabeça e retrucou:
-Farei isso, pois é vontade dela que você se fortaleça! Há guardas lá fora; não tente sair deste quarto.... – a moça saiu, silenciosa; o terráqueo começou a andar pelo cômodo , inspecionando qualquer possível rota de fuga, em vão...sem janelas, uma única porta vigiada por fora, ele sem armas.... Frustrante!!!
-Dois dias! Fiquei delirando por dois dias! –pensou em Aydr, tentando senti-la ou se fazer sentir por ela, graças à sua portentosa empatia!! –Meu amor! Onde você está?! –só o silêncio lhe respondeu! Agora ele estava realmente preocupado!! Decidiu comer e beber para se refazer e então, tentaria sair dali, não sabia ainda como.... Se a vadia real koshita lhe surgisse pela frente, teria problemas com sua”magia”, mas iria dar seu jeito!
* * *
O médico koshita apresentou-se ao seu líder, respeitoso:
- A escrava está despertando, meu senhor!
-Já não era sem tempo! Dois dias para trazê-la de volta à lucidez!!?? Francamente, Frinah!-resmungou o nobre, atento à uma tela em que dialogava com um ser de aspecto reptiliano!
-A câmara de fascinação é muito traumática para o ego do confinado! As vítimas devem ser tratadas após a sessão, por este período, para prevenir danos cerebrais irreversíveis! Elas são reanimadas e alimentadas, sendo despertadas aos poucos!-explicou o doutor, com a autoridade de quem sabia o que estava fazendo! Tanu gesticulou-lhe, ríspido!
- Ora, cale-se, Frinah!- e dirigindo-se ao lagarto na tela! -Comandante Bwaul: eu o espero aqui ainda hoje, para acertarmos nosso acordo de cooperação mútua! Seu governo não se arrependerá da decisão que tomou! Seja bem-vindo ao lado vencedor!!
-Eu estarei ai para selarmos nosso acordo! –sibilou o narcan; a tela se apagou e o kallman voltou-se para seu facultativo, com os olhos violetas faiscantes:
-Há dois dias que Lady Varnia, muito intencionalmente, me aluga quase todo o tempo em seus aposentos, me afastando da escrava!!- Estou entediado e impaciente para ter a mulher de pele branca!! Quero-a agora, Frinah!
-Senhor: Volto a dizer de que ela de nada serviria ao lord, antes de concluir sua recuperação, que realmente foi de dois dias, necessários para que ela lhe sirva bem daqui por diante! Ouso dizer que sua espera acabou! Siga-me, por favor.....
O kallman dirigiu-se ao cômodo em que estava seu tesouro desejado! Frinah abriu a porta e exibiu-lhe uma mulher vencida, inerte, com as vestes em frangalhos, algo suja, ajoelhada num canto, manietada, vendada e amordaçada! Tanu suspirou, sem fôlego!
-Você a manteve sempre assim, imobilizada e sem orientação, em situação de submissão forçada e impotência, como eu mandei? Sabe que ela é uma poderosa telepata!?? Poderia dominá-lo com um olhar, se estivesse em seu estado mental normal!! Por isso, é vital que ela seja “quebrada” psicologicamente, Frinah!
-Desde que acordou, hoje, se mantêm assim, num canto, de joelhos, meu senhor! Eu lhe asseguro que sua mente, sua vontade própria caiu! Em nenhum momento, manifestou qualquer atividade empática! Na verdade, está trêmula e assustada, vê!? –comentou o médico, tocando-a de leve no ombro claro e desencadeando um gemido débil de pavor da pobre cativa, que se encolheu ainda mais no canto em que se refugiara! Tanu sorriu, confiante!
-Afaste-se. A mente dela está vazia, oca...... Está na hora de eu lhe lançar uma sugestão hipnótica para moldar-lhe a personalidade a meu gosto!
Com empáfia, ele a acariciou nos cabelos negros em desalinho; ela gemeu de novo, sob a mordaça, encolhendo-se mais e mais, num patente e transido pavor! O koshita ajoelhou-se diante dela e disse-lhe, meigamente, mas de maneira firme, doutrinatória, para que ela só o ouvisse, sem nada ver, devido à venda:
-Não tenha medo! Confie em mim....Nada irá lhe acontecer... Sou Tanu, seu mestre e dono! Você irá me servir com devoção e eu a farei minha jóia particular... Basta que me devote total obediência.... Liberarei sua visão agora, para que me reconheça e me adore como seu mestre único.....-retirou-lhe a venda, admirando-lhe os olhos plúmbeos que se apertaram com a luz súbita! Ele a fitou, imperial, seguro de si, mantendo a mesma modulação hipnótica em sua voz! –Você vai me servir bem, não vai, minha deusa alva? Eu sou o seu salvador, a razão de você viver! Sabe disso, não!? Confirme que se curva ante minha superioridade!
Aydr balançou a cabeça, humilde e submissa, os olhos fitos nos dele, como se estivesse possuída! Tanu teve um acesso de riso, feliz! Ela estava recondicionada!!! Retirou-lhe a mordaça, mais relaxado e indagou, cheio de si:
-O que tem a dizer para seu deus vivo, minha pequena?
-Quero servir ao meu senhor, de agora até o fim de minha vida miserável, meu divino!
Tanu se pôs de pé, estalando os dedos seguidamente! Com alegria genuína, exclamou para Frinah, que estava pasmo com as declarações sobre a “divindade” dele, só permitidas ao imperador de Kosh! Sabiamente, fingiu ignorar a blasfêmia do kallman!
-Viu só!!??? A câmara foi um sucesso!!! Eu a domei!!!! Ela é minha, Frinah!!! Está com a mente reformatada e só vê um objetivo em sua ”vida miserável”: dar-me prazer!!!! Eu a venci!!!!! Desamarre-a!!!-exultou o homem de pele laranja e cabelos esverdeados!
Tão logo foi liberta dos nós que tolhiam seus pulsos e tornozelos, a tuliana atirou-se aos pés do kallman, patética e chorosa! Agarrou-se à sua perna, beijando-a e gemendo como se estivesse no cio! Tanu empertigou-se, condescendente e a custo, refreou seus instintos animais:
-Não, não, não... Assim não, nem aqui neste lugar! Você está suja, com as roupas rasgadas e visual desalinhado, após tanto “tratamento”! –fitou o médico com um olhar de censura! -Quero-a de novo como quando a vi, ao sair da ala feminina, há dois dias!-encarou o facultativo, autoritário!- Frinah: chame as aias! Que ela seja banhada e vestida de acordo! Hoje à noite, eu a possuirei! - Pensou nos negócios a resolver com os Narcans, que estavam por chegar; iria ter um dia cheio, mas depois seria bem recompensado pela fêmea branca! Saiu do cômodo triunfante, sem dizer mais nada a Aydr, observando de esguelha o olhar súplice da mulher atirada ao chão, implorando por ele!
* * *
Tarkah recebeu de Binar uma bebida energética e alimentos coloridos que não saberia definir, embora deliciosos! Comeu e bebeu em silencio, encarado pela serva de cabelos violetas, silenciosa como ele; em minutos se sentia melhor. Olhou em torno e indagou, puxando assunto:
-Você é serva há quanto tempo?
-Desde sempre. –murmurou ela, indiferente.
-Absurdo! Não pode viver como escrava desde criança!
-Sempre fui serva; minha vida é servir à ama! Não tenho outra finalidade....
-E gosta disso??!Não se revolta com as injustiças!?
-Não me cabe ter opiniões; sou escrava! Tudo que meus amos me derem será o que eu mereço!É a lei natural de Kosh!
-E é somente para isso que servem!!?? Em Kosh, vocês não são iguais perante a lei? Enquanto alguns vivem na luxúria, vocês vivem e morrem como animais!? Uma pena! Lamento por sua civilização... A escravidão lá em minha terra já acabou há milênios! Somos todos iguais! Livres! Isso não a faz sentir curiosidade sobre como seria se......-exclamou ele, naturalmente chocado com o conformismo da mulher de pele alaranjada!
-Se já acabou, vou chamar Lady Varnia!-cortou-o ela, como se fosse um autômato descerebrado! O coronel suspirou desanimado... Não adiantaria “jogar pérolas para os porcos” ali, pelo visto! Aquela gente não tinha personalidade, vida, sonhos.... Eram “robôs” de carne e ossos, indiferentes a si mesmo ou aos outros em volta deles! Mudou o assunto:
-Espere... Diga-me: a mulher branca! Aonde ela está?-indagou ele, se orientando sobre a situação! Binar respondeu, sempre monocórdia:
-Nos aposentos pessoais do poderoso Lord Tanu! Ela foi recondicionada hoje....
-Como assim!?-gelou o humano, incrédulo!
-A sua amiga era um rebelde incurável! Recusou-se terminantemente a se submeter aos desígnios do nosso mestre! Eles a puseram na câmara de fascinação! Ela teve sua mente alterada pela máquina e foi “reformatada” para servir ao nosso amo!
-O que!?-Lawrence se retesou, a fúria crescendo dentro de si, mas deteve sua reação! –Essa....essa máquina...mexeu com a mente dela? Mudou seu modo de ser, é isso?
-Exato...Ela agora é como eu...existe apenas para servir!
-Coitada! Lavagem cerebral!-pensou nos toritas, três anos atrás, em Vectra-12! Ele passara por um processo semelhante e agora, a tuliana também era submetida aquele tipo de violência!?!
-Vocês, escravos...todos passam por esta máquina infernal!?
-Nem todos...Só os que reagem!
-Binar...Terei de sair agora! –decidiu-se ele, pondo-se de pé.-Quantos guardas há lá fora?
-Um! –a escrava espantou-se! –Mas....mas não pode ir lá fora! Serei castigada, se permitir que o faça....
O humano fitou-a com piedade!
-Eu sei.....
Um grito abafado ecoou no aposento e o servo de sentinela, armado com um bastão metálico, saiu de sua posição de guarda lá fora, espantado! A porta se abriu e Lawrence Tarkah surgiu-lhe empertigado na soleira! Em seus braços, Binar jazia desmaiada! O koshita avançou resoluto para ele, rosnando!
-Volte para dentro! Não pode sair!
-Ela sentiu-se mal! Ajude-me, por favor!-obtemperou o humano, sem demonstrar ameaça! O servo abaixou o bastão que brandia, confuso, fitando a moça nos braços do outro!
-O que houve com ela!!??
No momento seguinte, de chofre, o humano jogou-a para ele, que instintivamente largou o bastão, fazendo menção de amparar a serva no seu colo, para que não caísse no piso! Neste átimo, Tarkah rodopiou no ar e vibrou-lhe um potente direto no queixo! O koshita desabou como um saco de batatas, com Binar ainda em seu colo, o que lhe amorteceu a queda! Ciente de que ela estava bem, o coronel murmurou, acariciando-lhe de leve o rosto:
-Desculpe...Procurei pô-la a nocaute com o mínimo de força...ao menos, quando acordar, ninguém irá te punir!- e saiu dali, com o bastão nas mãos, tomado do sentinela caído! Atravessou um longo corredor em penumbra e ouviu música ao longe! Um servo distraído passou à frente dele, sem vê-lo, dirigindo-se para algum lugar! Militar treinado, imediatamente o pegou por trás e indagou-lhe enquanto o dominava sem dificuldade:
-Para onde fica a ala do Lord!? Onde colocaram a mulher branca??
O infeliz apontou a direção, assustado! -Há guardas por lá?!-insistiu o humano, aumentando a pressão no pescoço do koshita! Este respondeu, solícito e apavorado:
-Não! Estamos dentro das alas nobres!! Os guardas ficam do lado de fora, não são necessários aqui dentro!! Ninguém entra nestas áreas sem permissão do nosso lord!!
-Excelente! Obrigado..Durma bem! -deu um golpe surdo na nuca do homem e ele desabou sem emitir um som! Como um gato, o coronel esgueirou-se pela penumbra do caminho, rumo aos sons de música exótica que já detectara! Em segundos, chegou à uma sala com iluminação mais franca! Havia alarido feminino lá dentro, notou: Muitas mulheres rindo e tagarelando! Ele rosnou, irritado:
-Que merda de lugar é este?! Um harém??? -Tomou fôlego e invadiu o recinto, o bastão metálico na mão! Numa piscina, cinco aias davam banho cuidadoso numa jóia alva em forma de mulher...Aydr!! Ao vê-lo entrar de supetão, pararam seu trabalho e ficaram hirtas de pavor, nem um grito emitiram! O gesto do grupo não surpreendeu o invasor, que já notara a passividade e medo que imperava entre os escravos dos koshitas, quando ameaçados! Uma delas gemeu!
-Não atire! Não nos machuque!!!
Tarkah deduziu que seu bastão de metal era algum tipo de arma e isso o agradou, pois supunha que fosse só um tipo de porrete! Como não sabia como usá-la, blefou, ameaçador:
-Fiquem todas quietas que eu não atirarei em ninguém! Caladas!!
Avançou para a piscina, senhor de si, apontando o bastão para elas, sério! Fitou Aydr com paixão e pena! Ela estava trêmula e passiva e obedecia suas ordens como se fosse uma das koshitas ali presentes! Nunca lhe pareceu mais frágil e mais bela do que naquele exato momento, naquela piscina de harém alienígena, pensou ele, condoído! Ordenou com decisão às aias:
-Enxuguem-na e vistam-na! Rápido!!!!- sabia que tinham de sair dali, mas para onde? Uma sensação de desânimo se apoderou dele! Como voltariam para casa, sem nave e sem apoio?! Uma da aias exclamou, num rompante de coragem inusitado para uma escrava:
- O amo irá trucidá-lo quando souber o que fez!!
-Mal posso esperar, senhorita! –ironizou ele, enquanto observava Aydr ser arrumada!-Aliás, foi bom tocar neste assunto....-apontou o bastão para a insolente, que se encolheu! –Onde encontro seu amo!? Ele naturalmente vive aqui pertinho de vocês, não?- Tanu era a solução para seu problema! Era a ele que iam seqüestrar antes do tal de Luag chegar e atrapalhar-lhes os planos! Com o kallman em suas mãos, iriam arrumar uma nave sem problemas, pensou! A koshita gaguejou, subitamente de volta ao modo de pavor característico dos servos daquele lugar:
-O amo vive no corredor em frente! Não me mate!!!
Lawrence Tarkah esboçou um sorriso desdenhoso mas voltou sua atenção para sua amada: Ela estava pronta, num diáfano vestido ricamente bordado, com jóias pendentes dos ombros! Mediu-a de cima a baixo, fascinado! A jovem estava calada desde que ele adentrara no aposento de banhos! Parecia não entender o que se passava!
-Linda!!! Não me diz nada, Aydr?-murmurou ele,carinhoso! A alva mulher gemeu, medrosa:
-Quem é você? Vai me levar até meu amo?!
-Eu....eu...Você não se lembra de mim!?-um travo amargo em sua boca se fez sentir! A tal máquina de lavagem cerebral! Ele nutrira a esperança de que a mente “superior” de Aydr houvesse enganado o aparelho, tal a sua portentosa capacidade telepática, mas....parecia que não acontecera isso! A tuliana permaneceu estática, fitando-o com angústia!
-Vai me levar para meu dono? Ele me quer agora à noite! Eu vivo pra dar-lhe prazer......
-Cale-se, Aydr! É indigno ouvi-la dizer estas sandices! Venha...-tomou-lhe a destra e afastou-se para a porta, triste e revoltado, pensando em voz alta!-Vou matar aquele filho da puta laranja!!
As mulheres ficaram para trás, imóveis e apavoradas! Aydr, de início, ofereceu débil resistência, mas ele a subjugou com energia e ela obedeceu, transida de medo! O casal seguiu por um corredor curto e chegou à uma ala isolada, no locla indicado pela serva atrevida! Não havia guardas na porta e eles entraram sem problemas! No salão iluminado só havia um homem, distraído em conferir algo num computador sobre uma mesa vítrea: O humano o reconheceu no ato e sorriu, vingativo!
-Luag!!!!
Desta vez a surpresa era sua !Quando o homem de pele laranja e cabelos verdes, um tanto obeso e maduro, se voltou para a sua voz, o humano já lhe voava em cima, dentes rilhados de fúria! O entrechoque os lançou por sobre a mesa em que o koshita analisava algo, e caíram no piso logo atrás dela! Luag nem teve tempo de saber o que ocorria e Tarkah já lhe vibrava uma série de golpes no rosto! A luta foi breve e o oponente amoleceu sob ele, desacordado e ferido! O coronel fitou Aydr que se encolhia num canto, apavorada!
-Venha aqui me ajudar! Não fique ai parada!Pegue aqueles panos ali!
A jovem obedeceu, trêmula e silenciosa! O militar amarrou Luag com os tecidos finos, que ele rasgou em tiras, amordaçando-o, também! Rapidamente, arrastou o servo-mor para outro aposento vazio e o trancou lá! A seguir, analisou o ambiente em que estavam: era a ala particular do kallman! Vasculhou os aposentos em redor do salão, constatando que estavam sozinhos; Tanu devia estar despachando com os seus vassalos ou coisa similar...Ele logo voltaria para lá e o humano o capturaria, mas... a fuga do casal seria anunciada a qualquer momento! Tinham de sair daquele domo, mas como!? Tornou a investigar as salas adjacentes e então, encontrou algo inusitado! Havia uma espécie de câmera espaçosa sob duas colunas metálicas cheias de instrumentos estranhos, que se uniam num arco!Sob elas, um piso plástico indicava nitidamente posições individuais, seis ao todo! Lawrence Tarkah examinou o aparelho, fascinado! Não ousava supor o que era aquilo, não tinha certeza, só uma sensação instintiva! Apalpou as colunas e alisou os mostradores luminosos! Fitou as posições demarcadas no chão.... Ele conhecia bastante de tecnologia para crer que aquilo era de fato...
-Um posto de tele-transporte!- a voz feminina já sua conhecida, ressoou na sala, por suas costas! Ele se retesou e pôs-se em guarda, com o bastão na mão, ameaçador! Lady varnia estava ereta na porta do aposento, imponente! Aydr estava ao lado dela, submissa e calada, segura por um dos braços pela koshita arrogante! Lawrence soltou um suspiro de decepção, encarando por instantes a alva jovem! A tuliana nem o alertara da chegada da inimiga comum! Varnia exibiu um sorriso de triunfo! Com desdém, indagou;
-Sabe atirar com este aparelho?-apontou o bastão na mão dele! –Duvido muito, meu escravinho fujão! Em compensação... eu sei usar muito bem este controle aqui!-exibiu o comando do colar em seus dedos, sorridente! –Sugiro que largue a arma que ignora como usar...ou terei de mandá-lo de novo para a cama de onde saiu...por uns bons dois ou três dias...mas não necessariamente para me amar! Dói muito, não é?!
-Maldita bruxa!!! Como nos achou aqui tão rápido!?-rosnou ele, sentindo o colar arder-lhe no pescoço! Com relutância, jogou o bastão metálico no piso macio! Varnia fitou Aydr com desprezo:
-Vá para aquele canto e deite-se lá; durma até seu amo chegar!- a tuliana obedeceu, impassível, deitando-se no local designado e fechando os olhos como uma criança! E para o coronel, a koshita retrucou! –Foi um feliz acaso que eu viesse aqui para procurar algo de meu interesse nas coisas de meu Lord Tanu... e quem eu encontro nos aposentos dele!? Pelo visto, sua fuga ainda não foi detectada... Aquelas idiotas do harém ainda devem estar tremendo de pavor com sua invasão por lá... Estou errada?! Foi lá que achou esta vadia, não?
O coronel resmungou, zangado:
-O que foi que vocês fizeram a ela!? Transformaram-na num vegetal ambulante!! Ela parece uma débil mental!!
A mulher sensual de olhos violetas deu de ombros, pensativa:
-Incrível como ficou bem passiva, não??! Realmente me surpreendeu também, depois de tê-la conhecido como de fato era..... A câmara de fascinação é fantástica para domar egos rebeldes...torna-os como que “robôs” vivos, sem vontade e sem determinação! Servos ideais para Kosh!! Não acreditava que funcionaria nela...Afinal ela não é da sua raça, né?!
-E agora que vai fazer conosco?-desconversou o coronel, amuado.
-Com ela, Tanu decidirá; com você...bem, acho que a câmara seria uma boa opção pra sua valentia fujona, não?!-ela o mediu com cuidado! Ele resmungou:
-Pode me matar, Varnia! Jamais entrarei naquela coisa!!
-Um escravo que fala grosso!!! Que pitoresco! –riu-se ela, divertida!-Na verdade, eu gosto de seu estilo machão!! Os homens aqui de Kosh são muito....manipuláveis, dóceis, previsíveis...Variar um pouco me faria bem...Ter um varão de verdade sob mim na cama, me dominando , me afrontando a vontade....hummmmm! –riu como uma adolescente! –Não! A câmara da fascinação não é para você!!- Adiantou-se, lasciva! Ele permaneceu em silencio, com um olhar de desprezo! Varnia sibilou baixinho:
-Não me acha atraente, humano?
-Nunca farei nada com você, mulher! Só conseguirá me submeter por meio de sua telepatia...de outra forma, sou imune a você!
-Sei disso! Seria fácil demais pra mim, dominá-lo por magia... Admito que errei em nossa primeira abordagem no leito! Não devia tê-lo hipnotizado... Eu o quero por sua própria e espontânea vontade, meu servo tolinho! –olhou a tuliana que dormia no chão, dócil...
-Creio que você gosta dela...muito!!! Não se sacrificaria como o fez hoje, para salvá-la de Tanu se não...a amasse!-Tarkah corou visivelmente, traindo seus sentimentos à arguta alienígena! Varnia retrucou:
-Sim!! Você de fato ama esta vadia pálida!!! Tanu vai possuí-la hoje à noite, assim que ele retornar da reunião com os Narcans! Meu consorte é muito...bruto, selvagem, no amor...Sua deusa branca ficará bem machucada após a primeira noite com ele!Imagino se sobreviverá a muitas! No passado, ele já matou uma ou outra escrava com sua sexualidade abrutalhada!
-Seus...animais!!!!-fez menção de pular em cima dela, mas a visão do comando em sua mão o deteve! A bela mulher alaranjada franziu o cenho; parecia estar em profunda elucubração mental desde minutos atrás! Com vagar, ela murmurou:
-Posso salvá-la de Tanu, meu querido...
-E por que faria isso!?-indagou ele, curioso com o que estava se passando na cabeça da nobre koshita, que obviamente tramava algo!
-Ciúmes, creio eu... Não estava querendo pensar muito nisso nesses últimos dois dias, mas sei que ela poderia desviá-lo de minha influência se ele a provasse na cama! Essa sensualidade dela... esse perfume corporal único...essa tez alva..... Afinal, ela não é um ser humano normal, repito! E como tal, é uma ameaça em potencial para minha felicidade conjugal, minha supremacia na alcova de meu senhor... Meu lord ter amantes escravas comuns não me assusta; eu tenho amantes servos também...mas são todos passageiros, meros brinquedos para espantar o tédio de nossa união...não representam ameaças para nós e está tudo de acordo como os costumes de Kosh! Mas ela........-fitou Aydr com cólera contida! –Ela pode me derrubar de minha posição nobre perante Tanu! Não posso matá-la como a minha intuição me sugere, por causa do poder que emana da posição hierárquica de meu senhor, mas devo afastá-la dele, custe o que custar!– encarou o humano, decidida! –Fale-me tudo sobre ela e eu a salvarei de meu consorte!
-Não tão rápido,”olhos roxos”!! Que garantia me dará de que cumprirá sua promessa!? E aonde a esconderia do tal Tanu!? –replicou-lhe o homem, mais senhor de si! Lady Varnia suspirou, sedutora:
-Como eu disse, posso salvá-la sim... Tanu nunca saberá o que houve com ela e eu o terei para mim de novo, sem concorrência, mas há um preço a pagar!
-Como faria para escondê-la dele!?
=Está olhando para a solução... -ela apontou o posto de tele-transporte!
-Para onde isso conduz!?-indagou Tarkah interessado!
-Para um lugar bem longe daqui... fora de Waldor!-olhou para o teto, sugestiva! –Sabe o que há em órbita deste mundo atrasado!?
O coronel recordou-se das confissões do kallman, sob o poder hipnótico de Aydr! Com entusiasmo, exclamou:
-O portal orbital!!!! Este aparelho leva para lá sem a necessidade de uma nave espacial!?!
Ela meneou a cabeça, em concordância; o militar indagou, desconfiado de súbito:
-Mas ele pode ir até lá e encontrá-la! Teria como ocultá-la dele no portal, por algum tempo!?
-Tanu não subirá até lá, senão dentro de duas semanas. Ele não gosta de tele-transporte, diz que lhe faz mal ao estômago, por isso o evita ao máximo, mesmo para ir até o portal orbital!-explicou Varnia com certo desdém na voz!
-Ainda assim, seriam só duas semanas de sossego pra ela.... E depois? Quero um solução definitiva, não temporária, madame! Sabe que queremos partir de seu mundo! Jamais devíamos ter vindo para Waldor! Já que representamos perigo para você e seu “status” aqui, nos libertaria para irmos embora de vez? De certa forma, isso atenderia aos seus desejos de se livrar dela para sempre, garantindo seu marido só para você e seus servos descerebrados! Somos um problema para você, admita, Varnia! Deve nos dar uma nave e nos deixar fugir!-disse-lhe ele, sério! A nobre dama koshita mordeu os lábios sensuais, pensativa, muito pensativa! Com languidez, retrucou:
-Tudo a seu tempo, escravo.....Por enquanto, contente-se com a minha oferta inicial para sua amada branca escapar da noite de hoje com o insaciável e brutal Tanu! O resto, discutiremos depois, ademais... há o preço!
-Ah, sim....O que tem em mente?- ele pressentiu que saberia o que ela iria dizer! Varnia deslizou um dedo delicado por sobre o tórax dele, sorridente e travessa! Os olhos violáceos acenderam-se de desejo!
-Eu salvo sua amada...e você se rende a mim!-fez um gesto magnânimo! –sem magia, sem hipnose de minha parte... Por sua livre e espontânea vontade, você me servirá como bem me aprouver...e a branquinha ali descansará bem protegida e segura, por duas semanas num aposento secreto do portal orbital...Tanu logo se esquecerá dela e ...conversaremos sobre sua... quem sabe....futura partida de Waldor!
-Tenho outra opção?-rosnou ele, de dentes rilhados!
-Sim....Recuse minha generosa oferta e eu a entregarei imediatamente para o pênis de Tanu! Ouvirá os gritos dela hoje à noite, humano! – retrucou a koshita, com frieza na voz!
-Me parece que estamos conversados, madame!-ruminou ele, cabisbaixo.
A koshita emitiu um inesperado suspiro de alivio com a decisão dele e olhando em torno, mostrou-se com pressa!
-Ótimo! Vamos acordar sua amada e levá-la para o posto de tele-transporte o quanto antes; você virá comigo até o portal transdimensional em órbita de Waldor, para ver que não estou iludindo você! Verá aonde irei deixá-la, segura e protegida num aposento, sob os cuidados de uma aia fiel a mim, lá! Na volta do portal... Você me contará tudo sobre a real identidade de sua deusa branca, quero saber de cada detalhe sobre quem ou o que ela é, na verdade! Sim, meu escravo atrevido.... Você começará afinal, a sua servidão à sua ama... Eu!
-Tem mais uma coisinha....O seu esbirro principal, Luag! Eu o pus pra “dormir” naquele quarto ali! –apontou uma porta, sem grande ânimo. -Ele me viu! Como vai lidar com isso? Ele me denunciará para Tanu!
Varnia fez uma careta de nojo! Ela não gostava mesmo do lacaio-mor do casal!
-Com esse não precisa se preocupar... Não é a toa que sou conhecida como maga! Vou submetê-lo à minha vontade e ele esquecerá tudo que se passou aqui com vocês! Espere aqui...-ela se dirigiu ao aposento indicado e lá se trancou por alguns momentos; o humano aproximou-se de Aydr, que estava passiva e indolente. Com tristeza, acordou-a e indagou-lhe:
-Você não se lembra mesmo de mim?
-Não... Vai me levar para meu deus vivo agora? Preciso dar-lhe prazer!-murmurou ela, como uma criança indefesa! Tarkah sentiu um travo amargo na boca! A sua querida telepata parecia uma deficiente mental!! Acariciou seu rosto com carinho e sussurou-lhe:
- Já estava difícil antes....Com os últimos desdobramentos aqui com essa mulher de cabelos verdes, confesso que já não sei mais se sairemos vivos desta enrascada ou se voltaremos para casa...Mas prometo-lhe que a protegerei o quanto eu puder, minha querida tuliana! Não sei se você voltará um dia a ser quem era.. e a se lembrar de mim...Mas enquanto puder mantê-la a salvo daquele sátiro...eu o farei, mesmo que me custe um preço....desagradável....! Por enquanto, Varnia vence.... mas você ficará a salvo por uns dias; depois verei o que farei para nos tirar daqui! Quem sabe se eu for um “bom menino” para esta tarada, ela se anime a....-calou-se; a nobre retornava, altiva; Luag saiu do aposento atrás dela, mas parecia um sonâmbulo!
-Feito! Ele está sob minha influencia mental; não se lembrará de nada que aconteceu; nem sequer os vê agora!- esperou o servo sair do salão e indicou o posto de teleporte:
-Vamos?
XII – O portal para o fim de tudo!
O trio ingressou na máquina, ocupando cada qual sua posição nas marcas do chão; Varnia executou alguns comandos numa da colunas, que vibrou levemente a princípio e depois, toda a estrutura tremeu! Lawrence Tarkah não teve tempo de raciocinar que jamais se submetera a algo parecido, pois quando a idéia do medo do desconhecido lhe assaltou, já estava desmaterializado! No instante seguinte estava de pé sobre uma marca do piso, num terminal igual ao que entrara antes, mas definitivamente não era o mesmo local em que estivera! O humano arregalou os olhos, pasmo e maravilhado! Encontravam-se num amplo saguão vítreo, feericamente iluminado, com uma janela panorâmica que exibia um planeta roxo abaixo deles, com o espaço negro bem além! Varnia saiu de sua posição, procurando algo ou alguém, pois o lugar estava vazio! De repente, de uma porta distante, emergiu uma mulher velha, em trajes de serva, que se dirigiu a eles, saudando respeitosamente a nobre! O dama disse para o humano;
-Esta é Dara! Ela vive aqui no portal, para nos servir quando aqui viemos; tenho nesta estação acomodações particulares, nas quais só eu entro; nem Tanu ousa entrar em minha câmara íntima, a exemplo de lá de baixo...Só se eu o convidar! Sua vadia branquela ficará isolada nela com Dara cuidando de sua saúde e bem-estar, devidamente instruída por minha magia! –indicou a jovem alva que parecia estar enjoada e confusa, em pé no terminal! Fitou a serva velha com um olhar hipnótico como o de uma serpente diante de um passarinho! –Você não deverá contar a ninguém que esta mulher está aqui com você; em hipótese alguma, ela poderá ser vista por quem quer que seja, mesmo Lord Tanu! Ninguém deve ter contato com ela... Só eu. Ela ficará trancada em meu alojamento; alimente-a e cuide dela até que eu a desobrigue disso.
Dara captou cada palavra da nobre, com os olhos violetas fixos nos de sua ama! Estava totalmente subjugada pelo poder mental de Varnia! Assentiu em concordância com a cabeça e tomou pelo braço a tuliana que ainda estava zonza e nauseada! Sem dizer uma palavra, arrastou-a para a porta de onde saíra! Tarkah notou o mal-estar de Aydr e quis ajudá-la, mas a mão autoritária de Varnia o deteve, dizendo:
-Deixe que a aia cuide dela, é só um mal estar passageiro devido ao teleporte. Está segura, como pode ver e assim ficará pelos próximos dias... Agora, devemos voltar para o domo.
-Eu gostaria de olhar mais isso tudo aqui!-protestou ele, tentando ganhar tempo para não retornar! Tinha interesse em espionar o complexo, para quem sabe, poder repassar tudo para sua gente, no futuro! Lady Varnia deu uma risadinha de mofa, adivinhando-lhe o intento:
-Este é um portal transdimensional; sabe para que serve, pois Tanu lhe disse isso; como também disse que ele só ficará pronto em duas semanas! Não há nada que interesse a um escravo aqui.-acentuou bem estas últimas palavras!
-A um escravo talvez, mas eu sou um especialista de meu povo. –respondeu-lhe ele, desafiador!-Interessa-me observar o que sua raça está construindo neste plano orbital! É tudo muito tecnológico, moderno até para os padrões da Federação!! Devia compreender meu interesse como técnico nisso tudo!-indicou a janela enorme, espantado com a magnitude do local! A koshita fechou a cara e o homem sentiu uma pressão em sua cabeça, de súbito enquanto ela lhe ditava:
-Devo toldar-lhe a mente para que me obedeça, querido? Eu disse que estamos voltando para o domo!
-Ok...Vamos então...saia de minha cabeça, por favor!- ele relaxou... Podia voltar lá depois para espionar melhor; aliás, ele pretendia mais do que nunca, voltar aquele lugar mais tarde! Pensou em Aydr e rezou aos céus que cuidassem dela!
* * *
Diante da janela de grossa espessura, a tuliana observou o espaço estrelado lá fora e o grande mundo violeta abaixo delas! Choramingando, rogou à koshita que a observava de perto:
-Deixe-me ir para lá! Meu senhor amado me espera em seu leito hoje!! Quero ser toda dele!!! Deixe-me servir ao deus Tanu!!!
Dara estremeceu ao ouvir tamanha blasfêmia! Com horror na voz indagou à alva prisioneira de olhos cinzentos:
-Quem lhe pôs na cabeça tamanha asneira!?? Ele...o Lord disse pra você que ele era um “deus”!?!?!?- Aydr verteu lágrimas sinceras de desespero e gemeu;
-Sim! Ele me disse isso! Ele é meu deus vivo! Eu existo só pra dar prazer a ele! Deixe-me descer até o meu adorado mestre!!!-jogou- se no chão atapetado, soluçando, incapaz de fugir dali do cômodo privado! A velha aia deu de ombros, impressionada!
-Só o imperador é deus! Ele e suas rainhas! Que seu amado não seja ouvido pelo deus verdadeiro se auto-proclamando um igual a ele!! Fique aqui e descanse... Vou buscar algo para você beber!- a serva saiu do aposento e Aydr ficou se lamuriando no piso até que de repente, estacou! Uma nuvem tomou-lhe a visão e as idéias, tão fragmentadas pela quase idiotia em que se achava imersa se aclararam!!! Ela sentou-se, tonta! Pensamentos rodopiavam em sua cabeça, em velocidade inacreditável! Com um grito abafado a tuliana se levantou, assustada! As imagens continuaram a vir, em seqüência algo desencontrada: espaço, dimensões paralelas, ela viajando pelo cosmos como luz, um coronel humano fazendo amor com ela, naves em combate, fuga, cascatas de luz coagulada derramando-se no éter iridescente, penhascos flutuantes, seu mundo natal, ,ora luz, ora fogo e lava!! Os olhos cinza-chumbo tornaram-se gélidos como jamais haviam sido até então! Com um esgar de estupefação e raiva, ela rosnou:
-Eu me lembro.......
Dara retornou com um copo metálico na mão e fitou a moça em pé junto à janela!
-Eis aqui seu refresco! Beba e ....-calou-se ante o olhar furioso que Aydr lhe dirigiu! Esta rugiu-lhe;
-Você é um deles! Sua raça maldita me enlouqueceu naquela máquina demoníaca!!-avançou para ela, de punhos fechados, fuzilando a serva com os olhos!- Só não contavam que o processo de tele-transporte desmaterializasse este corpo físico espúrio e assim, liberasse por uma fração de segundo, a minha consciência imaterial, o meu eu astral!!! E minha essência não foi afetada pela máquina, apenas o corpo sólido, esta maldição do qual já vou me livrar de uma vez por todas!!- e como se deduzisse o que acontecera, falou de si para si! - Ao me rematerializar aqui nesta estação, libertei-me do efeito demencial em que me colocaram, por lavagem cerebral!! Eu sou Aydr, tuliana de estirpe e não me submeterei mais à selvageria dos seres de carne!!!!-abriu os braços, imperiosa e começou a brilhar, mas brilhar muito! Dara caiu de joelhos, terrificada com a visão! O corpo delicado e branco, sob as vestes orientais se tornou ígneo e volatizou-se numa explosão de luz quase solar! Dara gritou de dor e terror e foi consumida pela explosão! No momento seguinte o cômodo estava vazio e totalmente chamuscado! No espaço exterior, uma entidade de pura energia luminosa pairou sobre Waldor, emitindo pensamentos rancorosos!
-Malditos sejam todos os seres sólidos! Nunca mais serei uma de vocês! Nunca mais me ferirão a mente!!! –a entidade concentrou-se em localizar algum meio de rastreamento que já conhecia e o localizou, no meio do éter! Com prazer e saudade, mentalizou:-Tulion! Meu mundo natal!! Eu estou a caminho!!!- e com a velocidade do pensamento, a esfera luminosa disparou da órbita do mundo roxo, perdendo-se nas lonjuras do infinito!
* * *
Lady Varnia retornou de outra ala, após uma demora de uma hora, em que o humano ficara trancado ali, na câmara íntima dela; aconchegou-se num almofadão fino, fitando o homem a sua frente, que permanecera calado desde que voltaram ao domo, pelo terminal de tele-transporte:
- Você deu muito trabalho em sua tentativa de fuga e rapto da sua amante! Para cobrir seu rastro de Tanu, tive de submeter por magia todas as aias que viram sua fuga do aposento de banhos hoje cedo! Também tive de dominar os servos que você derrubou em seu trajeto para cá! Se não fosse eu uma poderosa empata, não poderia submeter tantas mentes, para que se esquecessem do que passaram com você, mas como eram servos... Suas mentes são débeis mesmo... Foi até divertido!-espreguiçou-se, indolente e concluiu!- Muito bem... Estou esperando...
-Pelo que?-resmungou Tarkah, coçando o pescoço irritado pelo colar de controle! A dama sorveu um gole de algum néctar real e retrucou, impaciente:
-Pela suas informações sobre sua vadia amada! Fale tudo que sabe sobre ela!
-Não há muito a se dizer... Não conheço a raça dela; sei apenas que é humanóide assim como a sua! Quanto à telepatia, não posso dissertar a respeito, pois nem mesmo eu entendo desta faculdade! –fez um gesto vago! –Eis tudo que sei sobre a moça!-mentiu ele; jamais falaria sobre tulianos para aquela megera laranja de cabelos verdes! Varnia torceu o nariz afilado, desconfiada!
-Sabe que posso tirar de sua cabeça tudo que eu quiser...por que mente para mim?
-Quer saber de uma coisa, Varnia...
-É Lady Varnia para você, escravo insolente....
-Que seja! Eu já estou farto de ser manipulado por vocês, telepatas de que origens forem! Faça o que quiser de mim, não vou contar mais nada!-desabafou ele, sob forte emoção devido ao afastamento forçado da tuliana! Com agonia, só conseguia pensar nela!
Os olhos violetas se arregalaram de espanto! A mulher sentou-se mais empertigada no almofadão e murmurou, mais fascinada que ofendida:
-Nunca um escravo falou assim comigo! Na verdade, nunca nenhum macho falou assim comigo!-fitou-o com desejo avassalador!-Venha aqui meu rebelde maravilhoso! Quero ver como faço para lhe domar!!-recostou-se na almofada e gesticulou para que ele se aproximasse! O humano pensou em Aydr e no que lhe aconteceria se não fizesse as vontades da alienígena; com certa reserva obedeceu e fitou o corpo arfante da koshita; de fato ela era bela, esguia e sensual! De repente, pensou, algo constrangido, a tal missão poderia ser menos sofrida do que imaginara! Respirou fundo, resignado e deitou-se ao lado dela! Varnia ronronou de desejo e jogou-se sobre ele, como uma leoa faminta!
* * *
Lawrence Tarkah acordou de súbito, com gritos no exterior do quarto! Varnia aninhara-se em seus braços e dormia como uma santa, mas a balbúrdia a acordou também! Com espanto, ela se desvencilhou do abraço dele e pulou da cama, como uma felina! A luz do aposento se acendeu e a figura imponente de Lord Tanu adentrou no mesmo, com estrépito!
-Aonde está a mulher branca!?-indagou ele, encarando a consorte! Varnia sorriu, melíflua!
-Ora meu senhor...devia estar em sua cama, não!?
-Deixe de deboches, mulher! Esquece com quem fala aqui!?-rugiu o kallman, fora de si! E ao ver o humano sentado no leito, urrou, contrafeito!
-Saia deste leito agora!!!!!
-Um momento, Tanu....-protestou ela, autoritária! –Está extrapolando seus direitos neste quarto! Não tem autoridade para exigir que meu escravo saia da minha cama!!
-O que!!? Eu sou o kallman deste planeta!! Tenho todo o direito de fazer o que eu quiser com ele! Até de matá-lo só pra lhe irritar, Varnia!!-bufou o koshita, irado! Tarkah fez menção de se levantar mas ela o deteve, imperial!
-Não se mova daí, eu ordeno!!- e voltando-se para Tanu, furiosa! –O imperador autoriza que casais tenham amantes escravos em suas câmaras privadas, quando bem o desejarem! É a lei de Kosh!! Reza a lei de costumes sexuais de nosso povo que os conjugues não podem se impor nos quartos alheios sem que os donos dos mesmos o consintam! E eu não consinto!!! –estufou o peito ousada e concluiu mais conciliadora! –Lá fora sou sua serva, meu senhor... Mas aqui dentro, reino eu!!!!
Tanu corou visivelmente e sua face pareceu de ouro puro! O kallman rilhou os dentes de raiva impotente e sussurrou:
-Sim!!! De fato, esta é a lei! Eu não posso mandar aqui dentro...mas lá fora......-fitou o casal com rancor! –Preciso procurar pela mulher humana! Ninguém sabe do paradeiro dela! É um absurdo! Nos veremos pela manhã, minha bela.....me aguarde!-rodou nos calcanhares dirigindo um olhar de puro ódio ao coronel e saiu do aposento! Tarkah assobiou baixinho! Ela o encarou mais leve e relaxada!
-Não se preocupe com Tanu; ele apenas ruge mas não morde... Não enquanto eu for a maga do casal! Sei como submetê-lo a mim!
-Isso me alivia... Ou teria de viver neste quarto o resto da vida!-gracejou ele. Varnia sentou-se a seu lado, carinhosa!
-O que diziam sobre sua raça era verdade! Vocês são excelentes na cama!
-Quem lhe disse isso?
-Quando seu povo travou contacto com o meu, alguns nobres, além dos imperadores, tiveram relacionamento sexual com humanos! Amigas minhas da Corte relataram suas experiências íntimas e eu... ficava vivamente interessada em saber como era isso...mas como não havia mais humanos em Kosh depois que a ex- imperatriz louca fugiu com os de sua raça de volta para esta galáxia...tive de me contentar em esperar...até hoje!-parecia grata!-Nunca fiz amor com alguém como você, meu escravo rebelde!- tocou no colar do humano,e indagou melosa!- Se eu lhe retirasse a coleira que usa, você me juraria não fugir? Ela me atrapalha ao fazermos amor...Não posso morder seu pescoço com ela na frente!
-Bem... estou em suas mãos, não? Você está dando as cartas aqui! Eu realmente gostaria que me tirasse isto, pois me incomoda muito! Sim, eu juro que não vou mais fugir....
-Você gostou de mim, na cama? Eu achei você incrível!!-retrucou ela, buscando o controle do colar de contenção.
-Realmente... é recíproco! –ele sorriu meio sem jeito enquanto ela o liberava afinal, da cangalha que tanto o feria! Aliviado, massageou o pescoço e suspirou, animado, mudando o rumo da conversa!
-Fale-me dos humanos que estiveram em Kosh...
-Foram nossos hóspedes e soldados do imperador e lutaram em suas guerras comerciais! Alguns morreram nelas! Outros criaram elos familiares com damas da Corte! Poderiam ter vivido entre nós para sempre, mas a idéia de voltarem para casa foi mais forte e eles fugiram de lá para cá! E aí tudo começou......
-Conheço a história; sua ex-soberana se apaixonou pelo piloto da nave perdida e, num raro gesto de desprendimento, abandonou tudo que tinha, o fausto, a riqueza, a realeza e voltou com ele e sua equipagem, trazendo de quebra o seu séquito pessoal, as tais que casaram com os humanos de que falou! Hoje vivem em lugar ignorado na Federação, para sua própria segurança, e aparentemente são felizes em seu auto-exílio!
-São!? Curioso saber disso... Em minha terra são taxados como traidores.... Há um prêmio por suas cabeças, a da ex-imperatriz principalmente!-murmurou Varnia pensativa. –Não supunha que estivessem felizes aqui em sua galáxia......
-Como pode ver... Kosh não é o centro do universo!
-Blasfêmia! Cale a boca, escravo!!- exclamou a koshita, de súbito, ofendida! –Kosh é o centro de todo o universo conhecido e o imperador é o deus vivo! Não admitirei que repita isso por mais que me atraia na cama! !
Lawrence pigarreou, pensando rápido! Enlaçou o pescoço da mulher a seu lado e sussurrou-lhe ao ouvido:
-Então esqueçamos estes assuntos e nos concentremos aonde eu mais lhe agrado!
Lady Varnia deu uma risadinha sapeca e deitou-se sob ele, gemendo baixinho! A noite ainda estava longe de acabar!
No portal orbital, trabalhadores waldorianos que chegavam para um turno noturno lá acabavam de descobrir o ocorrido na câmara privada da dama de Tanu! Com a confusão da descoberta, as coisas iriam se agitar na superfície do planeta violáceo!
* * *
Lord Tanu apareceu na tela do quarto, após acordar a sua consorte pela segunda vez naquela noite! Desta vez, evitara invadir o aposento e chamara-a pelo comunicador! Uma sonolenta mulher de cabelos verdes desgrenhados e aspecto de fim de festa atendeu a sua vídeo-chamada! Ela resmungou, contrariada por ter sido acordada:
-O que houve, meu lord!?? Achou a sua vadia branca!?
-Não!! E isso não é o pior desta noite aziaga!!
-O que aconteceu?
-Seus aposentos privados na estação orbital! Houve uma explosão seguida de incêndio lá!!
-O queee?????????-Varnia despertou de súbito! Olhou para a cama aonde Tarkah dormia e de novo, fitou a cara de seu marido na tela!!-Como!? Quando!!?? Tanu, isso é um absurdo!!!
-Seria mesmo... Mas não foi, é real! Dara está morta!
A cara de Varnia se retorceu num esgar! Sua aia velha!? Mas então... -pensou em Aydr, a mulher branca de olhos cinzas , o que havia acontecido com ela!? Cautelosamente indagou:
-Tanu! Havia mais algum corpo em meu aposento?
-Não... Os empregados waldorianos só acharam vestígios da serva! Por quê? Deveria haver mais algum corpo!?-respondeu ele, curioso.
-Claro que não... Só a pobre Dara vivia lá para nos servir, quando íamos a bordo....que loucura! E agora!?
-Os danos foram localizados... Não afetaram a superestrutura do portal! As obras continuam no ritmo desejado! Os testes com naves pequenas começam hoje; se derem certo, o caminho de ida e volta para casa estará bem traçado para nós! Eu vou subir até lá agora para ver a situação toda! Você vem?
-Assim será.... Vá na frente que o encontro no portal! –retrucou ela, pensando no trágico fim de sua rival empata! De repente sentiu um alívio inusitado! Estava com o humano só para si, afinal!
O rosto na tela se apagou, sem mais conversas. A dama suspirou pesadamente; como daria tal notícia para seu amante adormecido!?! Ao se virar para a cama, deu com o rosto de Lawrence rente ao seu, em pé atrás dela! O homem estava lívido!
-Você estava acordado!?? Ouviu...tudo!?- exclamou ela, assustada!
O humano fitou-a com ira!
-O que você fez com Aydr!? Era esse seu plano desde o princípio!? Livrar-se dela para ter o caminho livre para mim!?!?- sem pensar, esbofeteou a koshita desprevenida, que rodopiou no ar, caindo a seus pés! Ele fez menção de agredi-la de novo, mas hesitou, transido de fúria! A nobre alaranjada agarrou-se à sua perna, implorando, aturdida:
-Eu não fiz nada! Não planejei nada!!! Foi um acidente!!!- e fez um gesto cabalístico! O homem descontrolado sentiu-se flutuar e cair para trás! A magia hipnótica de Varnia fora ativada numa atitude de autodefesa! Ela o submeteu em segundos, pondo-o a nocaute! O coronel caiu a seu lado, incapacitado por enquanto, dando-lhe tempo de se levantar e reorganizar seus pensamentos! Ela respirou fundo, raciocinando o que fazer a seguir, e decidindo-se, deixou-o inconsciente no chão do quarto, vestindo-se apressada! A seguir, estalou os dedos e ele despertou, como de um coma! Tarkah olhou-a desorientado a princípio, mas logo se recordou, urrando! Quis se mover, mas estava paralisado!
-Eu vou matá-la, Varnia! Juro que vou matá-la, assassina!!
-Depois, depois, humano! Agora vou até o portal orbital! Quero checar o que houve com meus próprios olhos!
-Me leve com você, bruxa! –gemeu ele, lembrando-se com dor intensa, do fim de Aydr! Varnia negou com a cabeça!
-Hoje não! Ele ainda não esqueceu a afronta que sofreu neste quarto por sua causa! Se o visse lá, o mataria e eu nada poderia fazer! Entenda de uma vez: eu não precisaria dar satisfações de meus atos a um servo, mas...no seu caso, estou abrindo uma exceção! Não matei sua amada! Não tive nada a ver com o que ocorreu e vou ao portal para averiguar o que houve de verdade! Se quiser acreditar, creia, pois estou sendo sincera; se não...continua em meu poder, como servo e suas ações não me afetarão enquanto eu o dominar com minha magia! Para mim, tanto faz!-fez menção de se retirar, mas ele a deteve!
-Deixe-me ir com você até o posto de tele-transporte, ao menos...Não vou ficar aqui enjaulado como um rato! Não vou tentar fugir de novo, nem sei pra onde iria... Tem a minha palavra de oficial! Eu a esperarei retornar com notícias para mim, ok?
Lady Varnia suspirou enfadada! Com um sinal de mão, chamou para que a seguisse.
XIII – Genocídio!
Numa dimensão diferente da física, num ambiente etéreo e luminoso, duas bolas de energia flutuando no espaço, conversavam entre si por telepatia...
-O que a irmã relatou ao Conselho foi escabroso! Nem podemos aquilatar o seu bárbaro sofrimento na carne, Aydr!
-Nem podem mesmo! Os seres corpóreos são todos selvagens e bárbaros, Zutra! Nunca mais me enviem numa missão na carne!! Nunca mais!!
-A irmã ficou traumatizada demais pelo que passou lá e eu entendo sua posição, mas...isso já passou! Você está em casa de novo, e em seu estado normal! Relaxe sua consciência e entregue-se ao Poderoso Senhor do Todo! Ele balsamizará suas feridas psicológicas!
-Sim, sim...-mentalizou a outra entidade, algo impaciente! –O que o Conselho fará a respeito do meu relatório? Quero justiça!
Zutra comentou:
-Estamos deliberando se avisamos aos povos da Aliança sobre a infiltração em Waldor ou....
-Ou....?
-Se tomamos a situação em nossas mãos e damos um jeito nela, sem que a Aliança saiba!
Aydr replicou:
-Não entendo! Somos membros da Aliança deles! Vamos agir pelas suas costas!?
-Às vezes, em política, devemos fazer alguns desvios de itinerário, minha irmã! Esta guerra deles, os sólidos, como você sabe, não nos interessa de fato, pois somos pacifistas! Estamos em contacto físico com estes povos para nos inteirarmos do que eles fazem a respeito, e para controlá-los à distancia, sem que eles saibam! No entanto, o equilíbrio de forças na nossa galáxia está afetado por esta invasão e devemos fazer de tudo para que se restabeleça a “normalidade” que nos interessa, ou seja, devemos impedir esta raça alienígena de entrar em nossos domínios! –Zutra cessou seus pensamentos para se certificar se sua interlocutora o entendia bem! A entidade Aydr instou-o a prosseguir:
-Continue...
-A idéia em voga no Conselho é deixar os corpóreos da Aliança de fora desta situação e ir lá a Waldor dar um basta no assunto, em sigilo total!
-Você está insinuando...?-Aydr sentiu um tremor psíquico em sua essência! Zutra confirmou:
-Vamos plasmar uma frota e arrasar o planeta.
-Mas isso seria genocídio!! Nossa espécie está acima destes atos de barbárie!
-Sim, você tem razão! Somo superiores aos corpóreos por isso, abominamos a violência e a matança! Ocorre que a situação em tela é perigosa demais para ficar em compasso de espera, para ser resolvida pelos membros da Aliança! Haveria uma batalha planetária e milhares de vidas seriam perdidas! Ao contrario, se fossemos lá em segredo e eliminássemos a infiltração koshita e o portal dimensional deles... tudo voltaria a rotina no nosso braço galáctico, sem perdas de nossos tutelados locais! Veja que não seria um genocídio, mas apenas...um expurgo seletivo, cirúrgico, de seres primitivos e incultos como os waldorianos, que nunca contribuíram para o progresso moral e social de nossos vizinhos! As vizinhanças ficarão melhores sem eles!- e como se recordasse de mais, concluiu! –e daremos um jeito nos Narcans também, mas depois!
-Nãooo...Não!!-exclamou a entidade a seu lado, horrorizada! –Chame do nome que quiser, Zutra! Expurgo seletivo, o que for...continua a ser genocídio para mim !Não posso concordar que exterminemos uma população inteira, mesmo que ela não valha nada, só para atingirmos um fim “nobre”!!
-Aydr! Estou lendo sua aura! Está externando emoções!?!? Nós tulianos, somos seres sem emoções! Estas coisas são primitivismos dos sólidos, não de nossa augusta raça!
-Não sou emotiva!! Sou tuliana!! Estou apenas sendo lógica!!
-Não está não... Posso ler sua mente, esqueceu!? Está preocupada com a sorte dos seres sólidos! Como pode agir assim?! Estes monstros materiais a torturaram, esqueceu?!? O líder deles ia lhe estuprar!!! -E sapiente de que podiam se analisar mutuamente, observou!-Você se impregnou de emoções lá embaixo!! Incrível! –acrescentou o outro ser imaterial, estarrecido!-Posso ler piedade em você! Raiva! Medo! Impotência! A....-Zutra calou-se, estupefato, antes de concluir! – Amor, Aydr!!??? – estabeleceu-se um silencio mental entre as entidades! Após alguns momentos, a que fora uma bela jovem de olhos cinzentos respondeu, acanhada!
-Eu fui enviada em missão para estudar os humanos..e estudar o que eles sentiam! Como viver entre seres tão complexos sem se deixar ...contaminar por eles!!? Pode me culpar, Zutra!!? Eu não sabia o que eram estas sensações de que fala!! Nenhum de nós sabe até passar por elas!! Outros irmãos nossos já passaram por este fenômeno, desde que as relações diplomáticas com os humanos foram estabelecidas!
Zutra meditou:
-Sim, é verdade! Temos assistido a casos que impressionam pela gravidade da contaminação! Parece uma epidemia emocional e temo pela pureza espiritual de nosso povo se isso continuar!! Por mim, cortaria os elos com os sólidos e retornaria ao nosso status de isolamento total de todos os seres carnais, como era antes e nunca devia ter deixado de ser!
-Concordo! Mas devemos fazer algo para evitar esta atitude louca do Conselho! Afinal, toda a vida é sagrada para nós! Um ataque total contra Waldor e os koshitas iria contra nossos princípios éticos!!
-Soa meio piegas ouvir isso de você, depois de ter incinerado aquela serva koshita...... –comentou Zutra, irônico! Aydr , se tivesse um rosto, coraria! Ela murmurou:
-Foi um ímpeto de loucura! Eu acabara de sair da demência para a realidade, após um tele-transporte que liberou minha essência dos efeitos daquela ...daquela máquina demoníaca deles!!! Sei que errei, mas nada posso fazer...está consumado...
- E o humano?
-Que tem ele?- resmungou mentalmente a entidade, desconfortável com a pergunta! Zutra insistiu:
-Você o ama, Aydr!!! Eis o que tem!! Isso é abominável!! Uma tuliana emotiva apaixonada por um...um...primitivo!!!
-Não!!! –gritou a entidade feminina, exasperada!
_ Deixe de mentir para si mesma! Você está louca de amor pelo coronel de nome Lawrence Tarkah! Estou vendo isso impresso em sua aura!!!! Isso é imoral!!! Aydr! Seja sensata! Expurgue estes sentimentos de seu íntimo ou......
-Ou o quê?? Vocês do Conselho vão me exilar de Tulion como fizeram com nossa irmã lá em Marte, no passado!? Pois saiba que ela nem se lembra mais de nós e vive feliz e realizada com seu eleito sólido!!!-ralhou ela, irritada! Zutra deu o golpe de misericórdia!
-Se o ataque for lançado, o humano será incinerado junto com todos os waldorianos, Aydr! Suportará ver isso acontecer?
A entidade feminina alterou sua pulsação de energia, vibrando muitas centenas de vezes por segundo! Zutra percebeu assim que ela estava em conflito consigo mesma! Com vagar, ela murmurou, condoída!
-Eu não o amo!!! Eu o abandonei lá em Waldor à sua própria sorte!! Talvez nem esteja mais vivo!!! Nem mesmo pensei nele quando parti!! Eu o traí!!! Oh, Lawrence!!! Se eu o amasse....se eu........-calou-se, envergonhada! Zutra determinou-lhe, taxativo:
-Basta!! Não suporto mais presenciar este ataque de emoções inaceitáveis em uma irmã tão promissora como você! Deve se retirar para o estado de meditação estática imediatamente! Vou recomendar ao Conselho que analise as providências para tratamento de sua essência astral! Você está a um passo da loucura completa!!
- E o ataque?! Vamos falar com os membros do Conselho!-rebateu a entidade feminina de energia, ansiosa!
--Eu vou; você, não! Se a virem assim, nem mesmo eu poderei interceder a seu favor com os Maiorais de Tulion! Faça o que eu lhe ordenei! – a entidade Zutra pulsou intensamente e desapareceu! Aydr ficou flutuando e pulsando descontroladamente! A imagem do homem de cabelos negros, atarracado e viril, e ao mesmo tempo, carinhoso e dócil, veio-lhe à mente, viva!! A visão de Waldor sendo crestado pelas armas de uma frota tuliana se sucedeu! Ela gemeu em desespero!
-Oh meu amor!!!! Não!!! Eu não vou deixar eles matarem você!!!!- num átimo de segundo depois a esfera de luz desapareceu!
* * *
Numa micro-nave de metal cristalino, uma jovem muito branca, lábios finos, nariz delicado, belíssima, de cabelos longos e encaracolados negros, fixou os olhos cinza-chumbo no painel de controle, angustiada! Não poderia salvar seu querido humano em sua forma original de energia pura, assim, relutantemente, aliás, reassumira a forma humanóide que tanto renegara até então e por meios físicos, viajava para Waldor, à toda a velocidade!
Pouco depois de sua partida, uma frota tuliana, sob disfarce como uma raça desconhecida, tomava a mesma rota: após a decisão final do Conselho de Tulion para que se efetuasse um ataque de surpresa secreto contra o portal koshita e os renegados waldorianos, optou-se por se materializarem na dimensão física, não como tulianos, mas como aliens ignorados, de forma a afastar daqueles a culpa pelas atrocidades a serem cometidas, perante a Aliança! Não se optara pelo extermínio total dos waldorianos, como se decidira a princípio; o protesto de Aydr, levado aos maiorais por Zutra, surtira parcial efeito, pois muitos concordaram com seus argumentos; desta forma, seria um “mini-genocídio”, exterminando-se apenas parte da população envolvida, só a população de sua capital, de maneira que os sobreviventes do resto do planeta pudessem manter a espécie viável para o futuro! Na lógica superior dos seres de energia, estes estavam sendo magnânimos e condescendentes com seus “tutelados” rebeldes, atrasados e inúteis...seria apenas um “puxão de orelhas” que se dá numa criança travessa, e nada mais!
A viagem espacial se concluiu naquele momento, para Aydr! Estava em órbita do mundo arroxeado! Sem demora, esquadrinhou o mesmo em busca dos sinais vitais de seu amado! A nave informou, em voz monocórdia:
-O humano está localizado! Ele encontra-se nas coordenadas a seguir....- um código de localização foi exibido no painel! Aydr pôs-se de pé, com uma arma cilíndrica na mão direita!
-Teleporte-me para lá, agora!
Em segundos, ela foi enviada para a superfície, materializando-se dentro do domo koshita, na sala do terminal de tele-transporte deles!
* * *
Minutos antes, o casal composto por Lady Varnia e seu escravo de estimação havia chegado à sala do terminal! A dama tomara seu lugar sob as colunas, estando prestes a acionar os comandos da máquina quando Lawrence Tarkah indagou-lhe, mais calmo:
-Você não a matou mesmo?
-Já lhe disse que não! Espere aqui até que eu volte para esclarecer o que aconteceu por lá!
-Neste caso, sinto-me mais livre para fazer o que é necessário...-retrucou ele, enigmático; a dama estava acionando o painel de comando da coluna e não lhe deu atenção quando ele concluiu seu pensamento!- Sem Aydr para me preocupar, posso acabar com esta porra toda de vocês lá em cima ou morrer tentando, como é meu dever de soldado! Escravo, eu?! Nem a pau!!!!!- e lançou-se para o interior das colunas do posto de tele-transporte com um ímpeto que surpreendeu Varnia, que terminara de ativar o comando de viagem! No instante seguinte, eles foram desmaterializados ao mesmo tempo! Foi quando Aydr surgiu na mesma sala! Aturdida, ela descobriu que o local estava vazio! Com espanto, comunicou-se com a nave:
-Ele não está aqui! O que houve!!?
A voz metálica respondeu, em sua mente:
-Ele acaba de se tele-transportar para a superestrutura em órbita deste planeta.
-Maldição! Lá, não!!!!!-pensou na frota por chegar!-Leve-me para o portal orbital, imediatamente!
Na estação orbital, Lord Tanu encarou a chegada de dois visitantes no posto de teleporte! Varnia estava espantada com o homem a seu lado, sob as colunas do posto!
-Enlouqueceu!!!??? Eu mandei que ficasse lá embaixo!!!-gritou ela, encarando ora o coronel, ora o aturdido kallman de Waldor! Tanu vociferou, saindo de seu espanto:
-Varnia!! O que significa isso!!?? Como ousa trazer este pária para este lugar restrito!?!
-Eu não o trouxe, meu senhor!!-defendeu-se ela, confusa! Tarkah saltou da plataforma, em posição de combate, desafiador! Tanu encarou-o, fora de si! Com ira, gritou-lhe:
-Sua arrogância acaba aqui, humano! Guardas!! Matem-no!!- Um par de soldados da Guarda Violeta avançou, com armas nas mãos! Tarkah estava muito próximo deles para que as usassem e ele tirou proveito disso, investindo de mãos crispadas contra a dupla, usando todo o seu peso para desequilibrá-los! O baque foi tremendo e os três rolaram pelo piso vítreo, engalfinhados!
Neste exato momento, surgiu em órbita de Waldor,um grupo de três naves de conformação desconhecida! Na estação espacial, sirenes de alarme soaram, denunciando a intrusão! Tanu desviou sua atenção da luta corporal desigual que assistia, olhando para a imensa janela de observação do salão! Os lutadores cessaram o combate, surpresos com a aparição!
-Mas que significa isso!!??-exclamou o kallman, voltando-se para um general waldoriano que estava a seu lado!-Quem são estes!? A Aliança!??
-Não! Não reconheço aquelas naves!!-devolveu o ser passeriforme, confuso!
Ato contínuo, uma das naves desconhecidas começou a bombardear a superfície de Waldor! A coloração violeta do planeta começou a se tisnar de amarelo ocre num determinado e único ponto de sua superfície, a capital dos waldorianos!
-Postos de batalha!!!!!!!-bradou Tanu, compreendendo o perigo iminente! O corre-corre foi geral, no salão de observação! Lady Varnia correu para junto do marido, assustada!
-Meu senhor!!! O que faremos!!??
-Estão destruindo a capital!!! Não podemos voltar para lá e não podemos ficar aqui! –olhou as duas naves restantes, que se aproximavam lentamente da posição do portal em que estavam! –Temos de sair daqui!!
Uma fulguração surgiu num canto esquecido do salão e uma jovem alva se materializou ali, em meio à confusão reinante, bem na hora em que um zumbido ecoou, indicando a ativação de campos de força protetores! Por um triz ela não ficara de fora, pois os campos impediriam sua materialização no portal! O kallman agarrou sua mulher e gritou para alguém no centro de controle, enquanto corria para umas baias de atracação próximas a eles!
-Ativar o portal!!!!
Varnia lançou um olhar magoado e ofendido para o aturdido humano, que totalmente esquecido de todos ali, assistia a tudo parado, com um misto de alegria e surpresa, pois as naves aliens desconhecidas iriam terminar o que ele se propusera a fazer, ou seja destruir o portal transdimensional koshita!! O casal nobre pulou numa pequena espaçonave koshita e imediatamente a mesma começou a taxiar rumo à uma saída aberta de repente!O ar não escapava devido ao campo de contenção ativado! Tarkah murmurou, intrigado:
-Como vão decolar se estão dentro do campo de força!?! Serão destruídos!!-Uma intensa claridade externa se formou e o espaço estrelado sumiu, dando lugar à uma dimensão multicolorida e turbilhonante na forma de um portal limitado, que ele conhecia muito bem, de suas viagens interestelares! A pequena nave rumou para ele, célere!
-O hiperespaço!!!! Como eles puderam acessá-lo daqui!!????? Alguém tocou-lhe as costas e ele se virou pronto para lutar, mas o rosto suave e belo de Aydr lhe surgiu, sorridente!
-Olá, humano!
O coronel ficou mudo de alegria e surpresa! Não sabia se a abraçava ou se a bombardeava de perguntas sobre como estava ali, íntegra, diante dele! Um estrondo colossal tirou-o de seu dilema! As naves estavam alvejando o portal! Lá fora, a nave dos nobres desaparecera no hiperespaço, apesar dos campos de força! Todo o salão de observação estremeceu quando o campo absorveu os impactos do inimigo! As baterias de defesa da superestrutura abriram fogo de resposta, mas os impactos continuavam, ensurdecendo a todos ali! O militar viu que alguns koshitas corriam para as baias de atracação; tomou a tuliana pela mão e bradou, saindo de sua estupefação:
-Vamos dar o fora deste lugar! Esta estação não é páreo para este aliens!!
O casal correu pelo local até uma nave parada numa baia! Um koshita entrara nela e ia fechar a porta quando o humano forçou a passagem e invadiu, junto com a tuliana! O koshita fez menção de sacar sua arma, mas o humano berrou-lhe, conciliador:
-Se atirar em nós, perde um tempo precioso para sairmos daqui!! Depois disputamos isso! Vamos decolar!!!!!-o koshita concordou com a cabeça, ansioso por fugir e sentou-se na poltrona de piloto, ativando a espaçonave minúscula! O portal hiperespacial ainda estava lá e outras naves koshitas decolavam rumo a ele! Lá fora, vigas do teto começaram a cair sobre os waldorianos deixados para trás pelos seus “aliados”! A superestrutura estava se desmantelando sob o fogo contínuo das espaçonaves desconhecidas! As baterias cessaram a resistência e o som do ar ambiente escapando para o vácuo lá fora ecoou, em meio a um vendaval causado pela descompressão súbita do salão de observação! A nave de Tarkah decolou para o turbilhão colorido à sua frente! Em segundos, o imenso portal explodiu no espaço, numa férrica chuva de estilhaços em chamas, que logo se apagou no vácuo sideral!!!
As três naves camufladas dos tulianos cessaram o fogo! No planeta violeta abaixo delas, uma imensa e contrastante mancha amarela ocre, tingia a localização da capital waldoriana que não existia mais! Destroços voavam pela órbita do planeta, em magotes! Os agressores fizeram uma rápida varredura dos resultados obtidos e satisfeitos, se afastaram do mundo atacado, entrando em velocidade subluz, para seu retorno a Tulion!
-Eu destruí meu corpo físico e voltei para Tulion! Estava lá até hoje cedo!
O garçom retornava com uma terrina cheia de frutas azuladas e uma garrafa de bebida! Tarkah acenou-lhe enfático e sobejamente alegre!
Eles se amaram freneticamente por quatro horas! O calor do quarto mal iluminado e com odor de bolor não lhes arrefeceu o ânimo! A saudade, a paixão e o sentimento de total felicidade por estarem juntos eram tudo para o casal suado, sobre o leito desgrenhado! Exausta, a tuliana relaxou no ombro musculoso de seu amado, murmurando, meiga:
XVI – A caçadora e a caça!
Num transporte de passageiros koshita, em meio ao nada interestelar, um atônito Tanir despertou de um sono sem sonhos! O piloto de pele alaranjada e cabelos violáceos custou a entender o que estava fazendo ali, num vôo espacial egresso de um obscuro planeta não-federado como Breda! Excitado pela inusitada situação, ele constatou que não se lembrava com clareza do que acontecera com ele, desde a fuga de Waldor até....deixar os humanos em...Breda!?! Os humanos!! Angustiado, o koshita tentou recordar-se do que lhe era um vácuo no cérebro, sem sucesso! Ele lembrava-se de ter desembarcado o casal no mundo rochoso e desértico e depois... o nada! Indagou para outro passageiro sobre seu itinerário atual e sabedor de que estava se dirigindo rumo à capital de Kosh, conformou-se em que nada poderia fazer a respeito, mesmo que se lembrasse, até pousar no destino final! Pensou nos seus patrões e estremeceu assustado! Tinha de achá-los e dar conta do sucedido desde Waldor a eles....Ou devia sumir do mapa para se preservar da ira de seu senhor!?
* * *
* * *
A nave particular de Lady Varnia entrou em órbita de Breda! O piloto a avisou do evento e ela se dirigiu para a sala de tele-transporte, sisuda, num macacão de combate! Atrás dela, um pelotão de guardas com armaduras violetas postou-se nos locais determinados para a descida, no terminal de teleporte! Sem dizer uma só palavra, ela apenas meneou a cabeça para o operador, que ativou a máquina! Em segundos, o grupo armado foi enviado para a superfície desértica, chegando num terminal idêntico, localizado no interior da fábrica de beneficiamento de toral, na vila remota aonde sua caça devia estar, conforme o depoimento de Tanir! Sem dar a menor atenção aos responsáveis pelo local, ela atravessou as dependências da empresa e se dirigiu célere, pela trilha arenosa, para a vila propriamente dita, alcançando a taberna do garçom brediano! Os poucos clientes ali assustaram-se com a chegada do grupo armado! A Guarda Violeta era do imperador de Kosh e todos sabiam que aonde ela ia, haveria problemas para todos no local! Varnia postou-se no meio do salão, com as mãos na cintura e bradou, bonita e autoritária:
( continua )
XIV – Cada vez mais longe de casa.......
O turbilhão de cores alucinógenas
assolou o trio a bordo da pequena nave em fuga! Imediatamente, Aydr sentiu as
mesmas e desagradáveis sensações que experimentara durante sua última viagem
transdimensional e as odiou profundamente!
Só a mão firmemente apertada à sua lhe deu alento para suportar a vertigem e as náuseas novamente! Lawrence Tarkah já sabia de sua
fobia por “saltos” e procurou ampará-la o mais completamente possível, embora
mantivesse um olho no piloto koshita que se concentrava em guiá-los para...para onde? De súbito, tão
rapidamente como iniciara, a viagem cessou! O espaço estrelado surgiu-lhes na
visão da janela frontal e o mal estar desapareceu como por encanto! Um portal
enorme estava a ré deles e fora por ele que eles chegaram ao
destino! A tuliana fitou o homem loiro a
seu lado e suspirou aliviada! O piloto encarou os dois, mas não reagiu como
antes, apenas indagou, sério:
-E agora? Para onde querem ir?
-Aonde estamos, antes de mais nada!?-indagou o coronel, com
uma mão no ombro dele, ameaçador! O koshita de pele laranja retrucou, paciente:
- Apesar de não ter coordenadas exatas por causa da nossa
imprevista fuga às pressas, estamos em minha galáxia! Este portal em que saímos
não é o portal principal em que deveríamos sair! É um portal terciário e está
deserto, vê? Não há mais nenhuma nave por perto dele, só nós... Erramos nosso
ponto de reentrada por muitos anos-luz!
-Sua galáxia?! Você que dizer.....-gemeu o humano, sem
querer crer no que ouvia! O piloto meneou a cabeça, afirmativo!
-A galáxia do Império koshita! Vocês estão a milhões de
anos-luz de sua galáxia!
-Não! Não de novo!-Tarkah urrou! Aydr mordeu os lábios,
incrédula!
-Mais uma vez perdida e longe de casa! E eu já estava lá, em
Tulion!........-olhou o humano, amuada! – E de novo por sua causa!
-Como assim!?- indagou o coronel, espantado! A tuliana deu
de ombros, inconformada!
-Tudo isso começou quando extrapolei minhas obrigações e fui
ajudar você lá em Vectra-12! Parece que foi há séculos atrás! Desde então, de
aventura em aventura, só fazemos nos
afastar mais e mais de nossas casas! Incrível!!
-Olhe aqui...Eu não pedi a sua ajuda lá em Vectra, ok? Você
se meteu nesta fria por que quis! Eu nem
a conhecia!!-protestou ele! O piloto permaneceu estático, assistindo a
discussão do casal, tão insólita quanto a situação em que os três se
encontravam ali no meio do nada! Aydr franziu o cenho, linda até quando ficava
zangada!
-Eu já estava em meu lar ontem! Voltei só por sua causa, para salvá-lo do
ataque que assistimos! E veja aonde de
novo você me meteu!!? Antes eu tivesse ficado na minha boa e velha dimensão
astral! Zutra estava certo, afinal! Vocês, sólidos, só nos dão problemas!!-fitou o espaço lá fora, transtornada! –E agora,
como vamos voltar !!??
-Nem pensem no portal de Waldor! Estava sendo destruído pelo
ataque dos alienígenas de quem falou! –interrompeu-a o piloto, algo debochado
com o que estava presenciando!-Aliás, para sorte de vocês, saímos num portal
menor, sem trânsito; se fosse no principal, os guardas do Lord Tanu já nos
teriam interceptado e ...seria o seu fim!
-Ora cale-se e localize aonde estamos nesta sua galáxiazinha
amaldiçoada! –rosnou-lhe o humano, de maus bofes! O koshita sorriu:
-Pra mim, tudo bem! Estou em casa mesmo!- E deu-lhes as
costas, indiferente, fiscalizando seus
instrumentos! O casal encarou-o por
instantes, espantado com sua resposta e então, continuaram a discussão!
-E eu que fiquei morrendo de preocupação com você! Disseram
que havia morrido num incêndio!-resmungou o humano! Aydr ficou calada por
instantes e respondeu com meia voz, algo constrangida!
-E morri mesmo...Mas eu provoquei o incêndio!
-Como?!- murmurou ele, sem entender!-Eu destruí meu corpo físico e voltei para Tulion! Estava lá até hoje cedo!
-Você está me confessando que me abandonou lá no planeta com
aqueles depravados reais e se mandou para casa, pura e simplesmente!!??-o loiro
bufou de ira! –Faz idéia do que eu estava passando com a louca da Varnia!!?-o
piloto voltou os olhos para ele, curioso ante a menção do nome de sua patroa!
–Pilote!! –berrou-lhe ele, sentindo—se invadido em sua discussão! A tuliana
defendeu-se com igual irritação!
-Eles me torturaram, destruíram minha mente naquela máquina maldita!!! O Tanu
ia me estuprar até a morte! Que queria
que eu fizesse!? Eu recuperei a sanidade ao ser teleportada para o portal
orbital! Acordei furiosa, magoada e ferida!! Estava fora de mim!! Sei que não
devia ter feito o que fiz, mas agora é tarde...Está feito!
-Matou uma mulher ao partir...-criticou-a ele, mais calmo! Ela meneou a cabeça, triste:
-Eu sei e lamento...Mas como disse...está consumado! Terei
de viver com isso o resto da minha vida!
-Que é eterna, na sua dimensão...Não a invejo!- ele a fitou
triste! – E ainda por cima, me
abandonou.........Não entendo por que voltou por mim, se não se importou comigo
quando fugiu para Tulion!
-Eu estava com a consciência alterada, já disse! Não era eu
mesma! Só queria fugir da carne e nunca mais retornar a isso, que só me deu dor
e sofrimento! –apontou seu corpo, frustrada!-Em Tulion, me arrependi do
acontecido...Não podia deixar você ser morto pelo meu próprio povo!Por isso
voltei para Waldor...mas cheguei tarde para evitar o pior para nós dois! A
frota tuliana chegou junto comigo e ..o resto já sabe!
-Os tulianos!? Mas aquelas naves eram
desconhecidas!!-exclamou Tarkah, confuso!
-É uma longa estória! Eu a conto depois para você, a sós! –
e indicou o koshita, que a tudo
escutava, em, silencio! –O que importa é que eu voltei por você, seu humano mal
agradecido!
-E cá estamos nós de novo, perdidos no cosmos!-desabafou,
desanimado! - Acho que desta vez nunca mais verei minha casa ou meu velho cruzador...-fitou o espaço lá fora!-
estamos a milhões de anos-luz da Via Láctea!
O koshita
pediu a atenção deles e disse, sem
agressividade:
-Bom, sou só um piloto de testes, não um soldado da guarda
imperial! Se quiserem minha opinião, sua
situação não é tão ruim assim....acho que vocês gostarão de nossa galáxia!
Temos muitos povos felizes aqui!
-Que diabos de inimigo você é?! Mais parece um padre nos
catequizando! –resmungou Tarkah, pasmo com as intervenções do piloto! O mesmo deu ombros:
-Ora eu sou um mero e humilde funcionário do Lord Tanu! Ele
faz a guerra, mas eu só faço o meu trabalho, que é pilotar estas naves e muito
mal pago! Nem todos os koshitas são belicosos, humano! Somos um povo como
qualquer outro! A invasão de sua galáxia é apenas um empreendimento comercial,
pois vivemos do comercio; é algo perfeitamente normal e rotineiro para nós!
Pessoalmente falando, se ganharmos ou perdermos os mercados lá de sua terra,
não afetará a maior parte da população de Kosh, só os sonhos do imperador... Afinal,
ainda temos muito terreno para conquistar e comerciar por aqui mesmo! Em minha
opinião e na de muita gente, esta aventura não vale o risco, é um mero capricho
do deus vivo e nada mais, mas ninguém pode dizer isso em público, certo!!??-concluiu,
com um ar maroto!
-Qual é seu nome, koshita?-indagou Aydr, já com simpatia
pelo piloto!
-Sou Tanir!
-Ok, Tanir...você parece ser um cara legal! Pode nos ajudar
a tomar um rumo em sua terra? Somos forasteiros aqui e não queremos que seu amo
nos capture de novo ou seríamos executados! –pediu-lhe ela, gentil! O koshita encarou o casal sem qualquer
animosidade, parecia sincero em sua forma de falar com eles!
-Bem... Nada tenho contra vocês...ou a favor! São
completamente neutros para mim... Não teria lucros em entregá-los para meu amo,
pois seria considerada apenas mais uma obrigação normal minha para com eles,
sem qualquer pagamento! E como eu disse, somos um povo comerciante! Aliás, eu
nem gosto muito de Lord Tanu e sua consorte; por qualquer falha minha, eles me reduziriam a escravo ou me eliminariam!
Lucros para o velho Tanir, nada!!!-sorriu e os olhos violetas se apertaram com
humor!-Ademais... que ameaça a meu povo vocês dois poderiam representar!? Estão
mais ferrados aqui do que eu estaria lá em sua galáxia! Estou até com pena de
vocês, pessoal!
- Eu realmente não acredito no que estou ouvindo!! Um koshita
comediante com dó de nós... Cara,
você existe! ??-exclamou Tarkah, rindo
da situação toda! A tuliana aparteou-o, comentando:
-Sim, ele existe... Isso só prova a velha tese de que nenhum
povo é de todo mau! Em Tulion pensamos assim, por isso somos pacifistas
inveterados!
-Desculpe..mas a senhora não disse que foi seu povo quem
atacou Waldor!? Pacifistas não cometem genocídio! –observou Tanir, irônico!
Tarkah meneou a cabeça, concordando! –Esta ação deles até a mim pegou de
surpresa! Tulianos arrasando um planeta!? Isso
não era para ser contra suas “elevadas” convicções??-encarou Aydr, à espera de uma resposta! Ela abaixou
os olhos cinzas, meio sem jeito! Tentou se explicar, sem muita convicção:
-Na Terra você se preocuparia se pisasse numa formiga?
Deixaria de ser menos elevado ou evoluído por fazer isso?! Para os maiorais de
meu povo, os sólidos são mais ou menos assim.... Não justifico nem aprovo! Fui
contra, desde o inicio, mas fui voto
vencido! Sinto muito! Surpreendeu a mim também... Meu povo está....esquisito!!
- Então somos como formigas para vocês!?! Por que não me
surpreendo?! Você sempre foi arrogante e metida à superior, mesmo! Parece-me que seus “evoluídos” seres de luz estão ficando muito parecidos
conosco....Deve ser o convívio! –ironizou o militar, estupefato! A jovem ficou
calada, absorvendo suas palavras duras!
O clima ficou pesado e Tanir rompeu o silencio, oportuno:
-Vejamos....o computador já nos localizou no espaço! Estamos
próximos de um planeta não-federado que poderia ser muito útil para sua fuga de
Tanu! Chamamos a ele de Breda...Mesmo o
divino imperador não se interessou muito por ele, pois seus habitantes não tem
posses que justificassem uma invasão comercial! Seriam anti-produtivos...
-Então seu povo não conquista a todos os mundos, sem
exceção!? Pensávamos que os koshitas eram
como uma praga de gafanhotos ! –observou Tarkah, curioso! Tanir retrucou:
-Conquistamos quase todos os mundos...se eles valem
comercialmente a pena por
tal esforço! Alguns poucos não valem, logo, nós os deixamos em
paz... São os mundos não-federados!
Lógico que, para que não pensem que os esquecemos e fiquem muito à vontade para
fazer bobagens por aí, o império mantém patrulhas de controle que os visitam ocasionalmente, só pra lembrar
quem é o chefe na coisa toda! Breda é um mundo mineiro e sua produção é ínfima
e por demais bruta, sem refino, para os
interesses de Kosh, que até a compra,
mas muito de vez em quando, e não lhe
impõe nosso rígido monopólio, permitindo que os bredianos negociem com outros
planetas, tão insignificantes quanto o deles!
-Magnânimos, vocês....-ironizou o militar, sério. Aydr
encarou o espaço lá fora, pensativa... Com vagar, indagou ao piloto:
-Serei franca com você, pois me inspirou confiança, Tanir!
Desejo saber algo....
-Diga?-sorriu o homem de pele alaranjada e cabelos
violáceos!
-Quais as nossas chances de
voltarmos para nossa galáxia?
-Hummm...Não são muitas, mulher branca! Esta nave só viaja
pelo hiperespaço a partir de um portal local daqui, se houver um portal de
recepção; o portal de sua terra foi destruído! A não ser que os nossos
pioneiros de invasão construam um outro por lá...o que me parece bem remoto no
momento....
-Estamos fadados a morrer nesta galáxia
desconhecida!-ruminou o humano, com frieza inesperada!
-Desconhecida!? Para mim, não! –protestou o koshita.
-Já sei, já sei... Você está em casa, Já nos disse
isso!-resmungou o militar, aborrecido! –E esta galáxia tem um nome, Tanir?
-Sim! Ela é chamada de “O Grande Olho de Kosh”!-gabou-se
ele, com ufanismo patético!
Tarkah deu
uma risada amarela, lamentando-se com a tuliana!
- Mas é claro!! Que idiota que sou que não pude perceber
isso?!- e virando-se para ela, com ironia, gemeu! -Mate-me, Aydr! Eu lhe
suplico!
A jovem não fez caso do chiste e murmurou:
-Temos de traçar um plano de sobrevivência! Leve-nos para
Breda e lá decidiremos o que fazer! Não há outro jeito por ora!
Tanir anuiu e
digitou a rota em seu painel; a pequena nave rumou célere para o destino e em
breve, viram um pequeno planeta rochoso, cor de barro!
-Breda!-anunciou o piloto, iniciando a aproximação!-A
atmosfera é respirável, pois os habitantes são de um sub-ramo koshita, muito
parecidos conosco, fisicamente! São meio atrasados, mas usam dinheiro e comerciam como nós! É um
mundo desértico, sem vegetação apreciável e com raras cidades, a maioria
subterrânea! A água é rara, mas dá para se viver por lá!
-Não queremos chamar a atenção! Leve-nos para algum ponto
menos povoado!-disse-lhe o humano, tomando de chofre a arma do cinto do piloto, sem a menor cerimônia! –Você não se
importa que eu fique com isso, certo? Afinal, não é militar mesmo e uma arma
com você não teria utilidade!
Tanir deu de ombros!
-Nunca atirei com ela, mesmo! Se a quer....
-E você, o que fará daqui pra frente?-indagou Aydr, séria!
-Tentarei localizar meu patrão! Afinal estou a serviço dele!
Tarkah fitou a
jovem, com um olhar enigmático; ela percebeu o que ele queria dizer e
sondou-lhe a mente! O humano lhe dizia em pensamento de seu receio de deixarem
o koshita ir embora e quem sabe, traí-los com Tanu! Muito embora ela houvesse
simpatizado com o exótico e atípico alienígena, era obrigada a concordar com o
coronel! Seria muito arriscado deixá-lo partir! Nada falou, apenas aguardou que
o pouso se consumasse, numa planície arenosa, com algumas casas estranhas bem
afastadas, num sopé de morro! Havia um par de outras naves pequenas pousadas
por ali, o que denotava ser um campo de pouso improvisado no deserto, algo
distante da vila! Tanir indicou-lhe as construções, assim que eles
desembarcaram:
-Esta é uma pequena vila, perdida no planeta! Só mineiros,
renegados e forasteiros que não querem ser vistos pela patrulha koshita vêm
aqui! Vocês passarão despercebidos em meio a tantas raças que freqüentam o
lugar! – entregou-lhes dois pequenos
discos prateados!-Eis os meios de crédito e de débito para vocês usarem lá. Não é dinheiro
meu, mas do patrão, confiado a mim para pequenos gastos!Têm o bastante para uns
dias! Boa sorte!-fez menção de entrar na sua nave, mas a tuliana o chamou,
imperativa! Ao encará-la, Tanir estremeceu ante a poderosa sugestão mental que
o assolou! A tuliana determinou:
-Tanir: Você deve permanecer dentro da nave, passivo, até
que receba novas ordens; ninguém poderá adentrar esta espaçonave, entendeu?
Mantenha-se trancado nela!-ordenou Aydr, concentrada! O koshita anuiu, como um
autômato e fechou a portinhola de acesso, sem uma só palavra! Lawrence
suspirou:
-Seria mais fácil se o matássemos... Mas eu não mato
inimigos indefesos! Creio que, por ora, esta é a melhor solução!
-Detestei fazer isso! Ele é amigável, até nos deu dinheiro! Sinto-me
sórdida, mas não havia outro jeito... Ele
não poderia partir assim desta forma, na
situação em que estamos!!-lamentou-se ela! Tarkah fitou a nave, comentando;
-E tem a espaçonave... É nossa única forma de sairmos daqui
para... para casa! Não sei como nem quando, mas não podemos abrir mão dela!
-Concordo... Deixemos o pobre ai por enquanto; vamos a tal
vila ver o que nos espera por lá e depois voltamos para decidir o que fazemos
com nosso amigo folgazão!
O casal andou o
longo trecho arenoso até as casas; ao chegar, viram uma delas maior, que parecia um bar ou coisa parecida, pois
alguns seres empoeirados estavam sentados em mesas toscas, comendo e bebendo!
Com cautela, entraram no recinto e alguns presentes os encararam, sem
interesse! Não pareciam chamar a atenção, pois havia de fato umas cinco raças
diferentes ali, todas humanóides e estranhíssimas para Tarkah e sua
acompanhante! Sentaram-se numa mesa e um ser com aspecto de koshita, mas com a
pele acobreada e cabelos ruivos entrançados se aproximou, saindo de trás de uma bancada! O
suposto garçom disse-lhes algo num dialeto ininteligível e o humano fez sinal
de que não falava a língua dele! O alien meneou a cabeça e seus olhos
avermelhados, quase albinos, sob grossas
sobrancelhas ruivas, se apertaram ao analisar o aspecto físico do casal! Sem
nada dizer, apertou um aparelho que trazia pendurado no pescoço e então, tentou
de novo:
-Agora posso entendê-los! O tradutor universal estava desligado! O que vão querer?
Comida? Bebida? Um alojamento para dois?
Aydr sorriu, surpresa! O homem de cabelos escuros a seu lado
retrucou:
-Tem daquelas frutas azuis redondas por aqui?
-Hardeks!?
-Deve ser...
-Tenho sim, bem frescas! Quantas querem?
-Traga...quatro delas...e um pouco daquela bebida
multicolorida!
-Licor de Nahata! Boa pedida, forasteiro! Vieram de Kosh, pelo
visto! Só lá se aprecia a boa bebida de Nahata! –deu-lhes as costas e foi para
trás da bancada. A tuliana murmurou:
-O que diabos é
Hardeks e Nahata!?!?
-Se for o que pedi, são frutas deliciosas que comi lá no
domo... e o tal licor é especialmente nutritivo..Foi o que me levantou quando
estive meio morto após aquele lacaio deles nos abater com o comando do colar e
de sua tornozeleira!
-Nem me lembre disso!! Quanta dor!!! Como vocês conseguem
viver assim, sofrendo tanto!?-ela fez uma careta de horror! Desde que assumira
a forma humana, já “morrera” duas vezes, de formas intensamente dolorosas,
afora as torturas que sofrera na câmara de fascinação! Com nojo, concluiu:
-Se não fosse por você, coronel, eu jamais voltaria a
envergar a carne! Em Tulion, cheguei a jurar que nunca mais me faria humana de
novo!!
Lawrence Tarkah olhou para ela com carinho, pela primeira
vez desde o reencontro e disse-lhe, suave:
-Não sei se me sinto envaidecido ou ofendido.... devia estar
puto com você por sua deserção lá em Waldor...mas de qualquer forma, obrigado por voltar para me
salvar! Tenho certeza de que não faria o que fez sem uma razão muito forte em
jogo...
-Exato....-murmurou ela, fitando-o com aqueles olhos
inesquecíveis da cor de um céu tempestuoso!-Eu precisei quase enlouquecer para concluir que eu....-ela
corou visivelmente!-acho que amo você, Lawrence! Esta era a última das
emoções que eu desejaria conhecer, mas...é como um vírus! Chega de
repente e toma conta de nós, nos
contamina totalmente! Eu achava que por ser de uma espécie superior, estaria
imune a estas esquisitices da forma física,
mas....as malditas emoções me dominaram mesmo! Não consigo mais ser o
que eu era antes, não me satisfaz! E o que é mais paradoxal, por mais que tenha
detestado a experiência...tenho a maior vergonha em admitir que...... sinto
falta de...tudo isso aqui! –apontou seu corpo e o dele, com um olhar constrangido! -Sinto falta de você, meu
humano azarado!
O coronel estava estático, incrédulo com a confissão tão
espontânea! Apertou suas mãos delicadas nas dele e as beijou, sofregamente!
Com a paixão ardendo em seus olhos
claros, ele murmurou-lhe:
-Não faz idéia do quanto sofri quando me disseram que você
tinha morrido! Eu ia me matar lá no portal numa missão suicida, tentando destruí-lo!
Sem você e sem esperança de fuga, não vi mais razão para continuar naquela
idiotice pseudo-oriental toda do domo! Eu..eu não amo a você, minha “bolinha de
luz” arrogante e metida...eu a adoro, Aydr!!!
-Sabe que isso é uma loucura completa, não!? Somos
de...dimensões diferentes!-sorriu ela, enlevada! O outro retrucou-lhe, meigo:
-No momento, estamos longe de nossas respectivas casas...e
somos ambos bem humanos! Isso é que vale!O garçom retornava com uma terrina cheia de frutas azuladas e uma garrafa de bebida! Tarkah acenou-lhe enfático e sobejamente alegre!
-Deixe isso para depois! Aonde ficam os seus alojamentos
para dois!?
XV – Exilados no deserto!
Eles se amaram freneticamente por quatro horas! O calor do quarto mal iluminado e com odor de bolor não lhes arrefeceu o ânimo! A saudade, a paixão e o sentimento de total felicidade por estarem juntos eram tudo para o casal suado, sobre o leito desgrenhado! Exausta, a tuliana relaxou no ombro musculoso de seu amado, murmurando, meiga:
-Devemos voltar para a nave! O koshita está lá, não se
esqueça!
-Sim, não me esqueci... Só não sei o que fazer com ele!
-O que achou deste lugarejo?-perguntou Aydr, pensativa.
-Não tive tempo de explorá-lo... Uma alienígena tarada me
seqüestrou para este quartinho e quase me mata de tanto sexo!! Já deve ser
noite lá fora!-debochou ele, beijando-a com desejo!
-Falo sério, Lawrence...-esquivou-se ela, sorrindo! –Este
planeta pode ser nosso lar por muito, muito tempo.....
-Não se eu puder evitar! Nós vamos voltar para casa!
-Como?
-Não sei...mas vamos achar um meio! Não vou morrer de velho
nesta galáxia desconhecida sem ao menos tentar voltar para a Via láctea!
-Via Láctea...Sabia que não chamamos a Galáxia deste nome lá
em meu planeta?!
-Meu bem... desde que não seja “o grande olho de Tulion”,
está tudo bem pra mim!-riu-se ele, bem humorado, espreguiçando-se e analisando
a precariedade das acomodações! –Sabe de uma coisa? Apesar deste lugar aqui ser
uma merda, jamais gozamos de tanta privacidade e relativa segurança desde que
nos conhecemos! Só faltava um banheiro com chuveiro! Meu reino por um bom
banho! Estas roupas estranhas que a tal Varnia me deu estão sujíssimas!
-Sim, estamos ambos precisando...-torceu o nariz a jovem,
com deboche e arrematou, preocupada! – e quanto ao Tanir?!
O oficial da
federação comentou, pensativo:
-E se você o hipnotizasse, para que nos esquecesse?
-Tanir? Não seria problema! Mas e a nave dele?
-Ora, estou tendo umas idéias aqui.... Você também pode induzi-lo a me ensinar como se pilota
aquela coisinha! Não parece difícil e eu sou um ótimo piloto! Assim, poderíamos
nos livrar dele sem problemas e ficaríamos com a nave para nosso uso, pousada
lá naquele campo isolado!
-E ele, o que faria? Iríamos
mandá-lo se perder no deserto!? É um ser vivo senciente,
Lawrence!-criticou-o ela.
-É um koshita e inimigo em potencial da gente, apesar de sua
boa verve....Bem, você pode sugestioná-lo a achar que, de alguma forma
ignorada, se perdeu neste mundo ao fugir de Waldor; ele naturalmente não se
lembraria de nós nem como veio parar aqui e por lógica, tentaria voltar para os seus, como qualquer
extraviado faria numa situação similar! Devem sair vôos da Breda para o espaço
legal de Kosh! Ele seguiria para casa feliz e tagarela e nós ficaríamos aqui
escondidos até acharmos um jeito de irmos para casa também...
-Naturalmente sabe que ele perderá a minha influência mental
ao se afastar de Breda...Ele lembraria de tudo mais cedo ou mais tarde e
ficaria bem zangado ao notar que eu o manipulei!Ou seja...
-O perigo de ele voltar com a policia koshita para se vingar
de nós seria uma possibilidade! Entendo....Olhe, Aydr...fora desta opção, só
nos resta eliminá-lo, embora a idéia não me agrade mais que a você!
Aydr jogou sua cabeleira negra e encaracolada para
trás e vestiu seu macacão tuliano azulíneo, ocultando seu corpo escultural, retrucando:
-De fato, sua idéia é aceitável! Não pretendo matá-lo de
qualquer forma, logo é a única opção plausível neste caso! Podemos dar o fora
deste planeta obscuro antes que ele se lembre do ocorrido e volte para nos
denunciar... Só não sei para onde! Sua capacidade de pilotagem nos seria
sobejamente útil neste caso! Sim, vou fazer o que me sugere! Quanto ao futuro, que
se dane, veremos....
-Mas antes...-o humano explorou um cômodo adjacente ao
quarto sombrio!-Se isso aqui for um banheiro......-voltou sorrindo!-Parece ser
sim! Mas como se toma banho aqui? Não vejo ducha ou algo parecido! Tudo aqui é
tão alienígena!
-Pergunte ao garçom!
-É o que eu farei!
Aguarde-me aqui...-apontou a arma
tuliana que ela carregava! –Qualquer coisa, use este treco ai! Eu volto já!
Saiu do
alojamento cauteloso, direto para o ar
livre; estava escurecendo, e ele observou que o sol poente daquele sistema era
trinário! Ficou admirando o fenômeno raro e depois observou ao longe estranhas
chaminés, que até então não tinha
notado, as quais expeliam vapores
incandescentes, com um chiado forte que vinha de suas estruturas! Seria algum
tipo de fábrica ou mina! Logo estava de frente para o ser de pele avermelhada e
cabelos ruivos em tranças,, na taberna rústica em que haviam estado, agora mais
vazia do que antes; do balcão, o alienígena fitou-o com a indiferença de
sempre, ligando seu tradutor de peito:
-O que deseja agora, forasteiro?
-Gostaria de saber como tomo um banho aqui; você tem água,
não?-indagou ele, sem tirar os olhos das chaminés fumegantes!
-Água é um bem caro em Breda, moço; se tem dinheiro
suficiente para ela, passe o disco de
crédito na ranhura da porta do seu lavatório e a mesma jorrará de um buraco na
parede para seu deleite, direto dos pólos de nosso mundo!-explicou-lhe ele,
franzindo as sobrancelhas rubras, com curiosidade!-Você disse que era de onde
mesmo!??
-Eu não disse! O que são aquelas estruturas ali?-apontou as
chaminés em fogo! O ser respondeu:
-A mina de nossa vila! Estão purificando o toral!
- E o que é toral?
-Nossa maior fonte de renda! Serve para fabricar coisas!
-Um tipo de minério?
-Sim! – retrucou ele, sem tirar os olhos rubros de Tarkah!-Estamos
tentando refinar o material, pois Kosh nos relega a segundo plano em suas
transações comerciais, por só exportarmos o dito cujo em estado bruto! Isso tem
prejudicado a nossa economia e pretendemos reverter esse quadro com a
purificação do toral antes de vendê-lo aos vizinhos de Breda! Quase todo mundo
que vem aqui é ligado ao comercio deste minério... E vocês, vieram comprar
toral?
-Quem sabe!? Ok...Grato pela dica do banheiro!- disse-lhe o
humano, cauteloso, rodando nos calcanhares para se retirar.
-O casal pretende ficar aqui muito tempo?-insistiu o alien,
desconfiado.
-Não sabemos ainda, se gostarmos do clima, quem sabe!?....Ah,
mande aquele lanche de hoje cedo para
nós!
* * *
O chuveiro
rústico serviu-lhes como se fosse de primeira linha! Para Aydr, que já
experimentara a doce sensação de um banho de banheira relaxante em Waldor, essa
nova modalidade de banho foi uma coisa exótica ao extremo! Maravilhada com a
ducha gelada, em meio ao calor reinante, ela deleitou-se por uma hora sob o
jorro transparente!
-Que gente estranha! Não tem toalhas aqui!-retrucou o
militar, procurando com que se secar! A jovem pálida observou um botão ao lado
do box e o apertou, curiosa: Um forte jato de ar seco e fresco saiu de outro
orifício na mesma parede do chuveiro!Ela percebeu para que servia aquilo e se
expôs nua à corrente de ar! O homem admirou-lhe as formas curvilíneas e
perfeitas! Ela se esticou e sacudiu os longos cabelos de ébano, secando-se com
naturalidade! Parecia que já usava o dispositivo desde sempre! Em minutos
estava sequinha e exultante!
-Excelente!! Sinto-me novinha em folha agora! Esta coisa de
vocês se lavarem com água corrente é...incrível!! O corpo físico fica tão... agradável!
Tarkah a imitou e secou-se também, no jato de ar fresco, rindo dela:
-Até que ser de carne e osso não é tão mau, vê? Há prazeres
também, não apenas dores!
-Você precisa de roupas limpas!-disse-lhe ela; ele meneou a
cabeça, em concordância:
-Amanhã veremos aonde se vende roupa nesta vila! Agora vamos
ver o Tanir!
Em pouco tempo, após jantarem e se certificarem com o garçom de que havia uma
nave saindo de uma cidade próxima da vila para a capital de Breda, uma vez por
semana e que na tarde do dia seguinte seria o previsto para isso, esperaram a
noite avançar e discretamente refizeram a longa trilha de areia até o
descampado aonde estava pousada a nave que os trouxera aquele fim de mundo! As
demais naves que lá estavam de manhã,
haviam partido do campo! Entraram nela e encontraram o koshita dormindo
como um bebê! Ela o acordou e ele retomou seu olhar perdido, hipnotizado como
estava desde cedo. Eles lhe deram algo que comer e beber e a tuliana reiniciou
sua doutrinação mental:
-Tanir: você deverá seguir para uma cidade perto daqui,
amanhã de manhã, e dela, para a capital deste planeta, para procurar um meio de
transporte que o leve de volta para seu povo! Você não se lembrará de nada que
aconteceu aqui e só terá um desejo em mente, irresistível: voltar para sua
casa! Há um carro que sairá de manhã para a cidade de onde parte este vôo para
a capital...Você embarcará nele! Fui clara?
-Sim....
-Aqui tem de volta um dos discos de crédito e débito que
usará para custear sua volta... Antes, deverá ensinar como se pilota este
veículo ao seu amigo aqui, Tarkah e depois esquecerá que esta nave existe! Acha
que será difícil para ele?-indagou professoral, a jovem de olhos cinzentos!
O koshita negou com a cabeça, sempre impessoal e conciso:
-Esta nave é das mais fáceis
de pilotar! Ele aprenderá em um ou dois pares de horas!
-Comece então! –ordenou ela, firme. Tanir iniciou as
orientações teóricas para um atento Lawrence Tarkah, que por ser piloto,
aprendeu sem dificuldades os comandos daquela pequena espaçonave alien, nas
horas seguintes! Não tentou decolar, pois o barulho chamaria a atenção dos
habitantes do lugar e ele desejava
manter a nave bem distante e ignorada daqueles, fora dos limites da vila. Em
seguida, já alta madrugada, o humano levou o koshita para uma espécie de estação
bem rudimentar de veículos de transporte
na saída do agrupamento urbano e lá
ficaram, esperando o carro que sairia do local, cedinho pela manhã. Apesar da
monotonia da espera por poucas horas, em
um lugar deserto à noite, o humano assim o preferiu para evitar contactos
comprometedores entre os locais e Tanir, que precisava sair da vila o mais
breve possível, para segurança do casal! Ficou repassando os ensinamentos da
nave com o koshita para passar o
tempo, enquanto Aydr dormia no quarto da
hospedaria!
De manhã, um veículo flutuante de passageiros surgiu na tosca estação e alguns aliens que chegavam ao local, vindos da vila, embarcaram
nele; Tanir foi um dos viajantes e Tarkah monitorou sua ida, até que o carro
planou pelo deserto para longe dali! Não houve despedidas, apenas uma rápida e
indiferente troca de olhares entre eles... O coronel fitou as vastidões vazias
lá fora e suspirou, sob o vento seco matinal; estavam realmente exilados no deserto!
* * *
Ficaram no aposento do “Motel” pela manhã toda; ele precisava
dormir para repor a madrugada insone e
ela, bem disposta, tirou estas horas para se inteirar das reais possibilidades
existentes na vila onde estavam.... Logrou
obter um macacão de mineiro com o garçom do bar, no tamanho ideal para seu
amado! Ciente de que o disco de crédito não duraria eternamente, dava tratos a
bola em solucionar o iminente problema financeiro que eles teriam, enquanto
tomava seu copo de licor de Nahata e degustava um acepipe esverdeado de origem
indefinida, mas muito palatável, que o alien lhe servira como almoço!
De súbito, um ser acobreado, como o garçom, entrou na
taberna, esbaforido! Graças ao tradutor ligado deste, ela pode entender o que
se passava: o recém-chegado estava preocupado por que uma carga de toral bruto
de sua responsabilidade, vinda de uma
mina fora da vila, estava atrasada em
sua chegada à fábrica de refinação e ele não tinha nem uma nave, nem um piloto
disponível para levá-lo até o local remoto para averiguar o que estava
acontecendo! Imediatamente, a perspicaz tuliana teve uma inspirada intuição!
Com uma rapidez que a surpreendeu, ela se pôs de pé ao lado dos bredianos e
aparteou a conversa, solícita!
-Posso ajudar o senhor, se desejar!
O alien avermelhado e de tranças similares às do garçom,
fitou-a espantado!
-E quem é você!? Não é daqui, posso ver pelo seu aspecto físico!
-Sou de um planeta longínquo realmente, mas somos filiados a
Kosh!Chamo-me Aydr!
O homem meneou a cabeça, ansioso:
-Pois eu sou Dirah! Pouco me importa sua origem, mas eu ouvi
bem!? Você pode me ajudar!? É piloto!?
-Temos uma nave, sim...e meu companheiro pilota como
ninguém!
-E quanto me cobrará para me levar até Jobur e voltar de
lá?!
-Isso depende! É muito longe daqui?-sorriu ela, melíflua! O
garçom, que a tudo assistia, entrou na
conversa:
-Jobur fica ao sul, a
uns 13 “tugs” daqui!
Aydr não fazia a
menor idéia de quanto media um tug, mas sabia que precisavam de grana
urgente e assim, sem vacilar, disse:
-Quanto me oferece?
-7.000 créditos em seu disco!!! –respondeu o outro, sem
titubear um segundo, tal sua angústia em
resolver o impasse! O garçom franziu a testa, espantado e ela interpretou que a
quantia era alta!
-Feito!!-exclamou a tuliana, decidida!-Metade agora e metade
ao voltarmos!
-Concordo! Dê-me seu disco!-ela assim o fez e o brediano
passou-o numa maquineta que trazia consigo!-3.500 créditos já são seus!
Vamos!!?
* * *
Um atarantado humano
foi acordado às pressas pela tuliana e mais aturdido ficou, ao saber em
que ela os tinha metido! Estava a par de sua frágil situação financeira e não a
questionou pela excelente idéia que teve, mas objetou que nunca voara com a
nave, só sabia na teoria! O ideal seria que antes de qualquer negócio com
estranhos, ele efetuasse um vôo solo, para certificar-se de que estava tudo bem
com sua pilotagem....mas a vida era assim, imprevisível e a grana era mais do
que bem vinda! Deu de ombros e vestiu-se
com o macacão que ela lhe comprara, o
qual serviu-lhe como uma luva! Em pouco, estavam na nave, com seu passageiro a
bordo! Dirah indicou-lhes a rota e o coronel decolou, com os dedos cruzados!
Surpreendentemente, tudo correu bem! A espaçonave era de fato, muito manobrável
e simples de pilotar! Ele encheu-se de confiança e rumou para o sul,
deleitando-se com sua pilotagem! A
distancia entre a vila e o local visado era de fato grande! O humano a calculou
em 300 kms! O percurso foi feito em minutos, sem incidentes, a nave obedecendo
perfeitamente aos comandos do coronel! Ao chegarem em Jobur, o casal ficou à
disposição do contratante, que desembarcou para apurar o que ocorrera de errado
com seu carregamento! demorou meio dia até que ele voltasse da mina próxima,
para irritação de Tarkah, que não queria ficar ali pousado, exposto a
eventuais riscos! Mal alimentados e aborrecidos, ele e Aydr só se
relaxaram quando o brediano, ao final da viagem de volta, tomou seu disco de créditos e o passou na maquininha
que carregava consigo, completando os honorários de ambos pela viagem! 7.000
razões mais ricos, eles retornaram ao quarto do motel, ainda sem saber o que
fazer com o dia seguinte!
-Francamente, estou feliz e triste ao mesmo tempo1 -
resmungou ele, ao deitar-se na cama, amuado! –Ganhamos um dinheiro vital para
nossa sobrevivência aqui, mas...não podemos nos esquecer que nossa meta não é
virar pilotos de mineradores em um planeta de terceira classe! Temos de descobrir como voltar para a Via Láctea!
-Jamais me esqueci disso, amor... Ocorre que não sabemos
como fazer isso! –suspirou ela, retirando suas botas!-Enquanto não soubermos
como, teremos que sobreviver e este meio me parece tão bom quanto qualquer
outro! Nosso disco de dinheiro estava no fim e agora...está recheado! Nem faço
idéia do que podemos comprar com esta quantia... a julgar pelo olhar de espanto
do garçom, é muita grana, como você costuma dizer!
-Não podemos ficar aqui...Tanir pode estar viajando para
Kosh a estas horas e sua influência mental sobre ele já deve ter cessado,
devido à distancia! Mesmo que queira, em pleno espaço não poderá reverter o vôo para cá, mas,
assim que chegar em sua casa, irá correndo nos denunciar aos chefões e eles virão
aqui nos capturar!-comentou Tarkah, preocupado; a jovem alva de cabelos negros retirou seu macacão azulado, deixando à
mostra sua nudez perfeita! Indolente, deitou-se ao lado dele e murmurou:
-Pensamos nisso mais tarde... agora eu quero você!
XVI – A caçadora e a caça!
Num transporte de passageiros koshita, em meio ao nada interestelar, um atônito Tanir despertou de um sono sem sonhos! O piloto de pele alaranjada e cabelos violáceos custou a entender o que estava fazendo ali, num vôo espacial egresso de um obscuro planeta não-federado como Breda! Excitado pela inusitada situação, ele constatou que não se lembrava com clareza do que acontecera com ele, desde a fuga de Waldor até....deixar os humanos em...Breda!?! Os humanos!! Angustiado, o koshita tentou recordar-se do que lhe era um vácuo no cérebro, sem sucesso! Ele lembrava-se de ter desembarcado o casal no mundo rochoso e desértico e depois... o nada! Indagou para outro passageiro sobre seu itinerário atual e sabedor de que estava se dirigindo rumo à capital de Kosh, conformou-se em que nada poderia fazer a respeito, mesmo que se lembrasse, até pousar no destino final! Pensou nos seus patrões e estremeceu assustado! Tinha de achá-los e dar conta do sucedido desde Waldor a eles....Ou devia sumir do mapa para se preservar da ira de seu senhor!?
A nave de transporte chegou após horas de viagem subluz, a um mundo
enorme e verdejante, aonde se situava a luxuriante capital do império de Kosh!
O imperador não vivia lá, preferindo seu suntuoso palácio do espaço, uma imensa
nave de quilômetros de extensão, aonde toda a corte se reunia sob suas ordens e
na qual ele fiscalizava todas as extensas áreas de seu domínio galáctico numa
eterna peregrinação cósmica! Ao desembarcar, Tanir, graças ao seu instinto de auto-preservação, já se
decidira por desaparecer no planeta sem procurar seus chefes! Não contava, no entanto, com o zelo criterioso
dos fiscais da aduana local, que identificavam todos os recém-chegados à
capital e ao entrevistá-lo, analisando seus registros, ficaram cientes de sua identidade e de sua
função como funcionário de um alto dignitário da corte! O aturdido piloto se
viu detido e enviado a um palacete no centro da cidade moderna, aonde o
esperavam seus temidos patrões, ansiosos por reencontrarem todos os servos
sobreviventes da fuga de Waldor!
Ao ser introduzido por guardas reais, trêmulo de medo, ao
recinto de audiência do palacete, Tanir avistou uma mulher belíssima, elegantemente
trajada, sentada numa poltrona luxuosa! A nobre dama olhou-o com curiosidade
felina! O piloto saudou-a, servil! Com vagar, ela consultou um aparelho que
tinha em mãos e falou, com indiferença:
-Você não é um escravo... É um dos pilotos de meu marido!
Folgo em saber que conseguiu escapar de Waldor! Só mais três pilotos e suas
naves o lograram, como você, antes que o portal fosse destruído! Diz aqui que a
polícia do porto o deteve ao desembarcar de uma nave oriunda de Breda! O que fez
com a sua própria nave? Caiu com ela,
perdeu-a lá, no tal mundinho não-federado!?
-Eu...eu...-hesitou, assustadíssimo! Lady Varnia encarou-o
com seriedade! Sua intuição de telepata lhe dizia que aquele homem tinha algo a
esconder ou não estaria tão parvo de medo! Pôs-se de pé e caminhou até ele,
serena!
-Onde está sua nave de fuga, piloto? Por que retornou à
capital imperial num vôo de passageiros!?
-Eu não sei, minha senhora! eu não...me lembro! –gaguejou
ele, curvando-se perante a bela mulher de cabelos verdes em coque! Varnia
fechou o semblante, murmurando:
-Olhe para mim, piloto......
Tanir a
encarou e foi o suficiente para ser
subjugado pelo forte hipnotismo da maga! Em minutos, ele contou tudo o que
sabia sobre a fuga de Waldor e ...seus passageiros não-convidados! Não omitiu
nada, pois a sugestão mental de Varnia lhe aflorou todas as lembranças
adormecidas pela tuliana anteriormente!
A dama nobre, enquanto o ouvia,
alterou a fisionomia várias vezes, entre
indignação, surpresa, raiva e.....alívio! Ao final da oitiva, ela bateu
palmas e os guardas retornaram, solícitos! Com frieza na voz, ela determinou:
-Levem este verme daqui para meu intendente! Que ele o leve para o mercado de escravos! Vendam-no para as
minas do sul!
Um apático e hipnotizado Tanir foi arrastado do recinto sem
resistir e a mulher voltou-se para uma varanda de onde se descortinava uma
vista belíssima da capital, cercada de florestas vastas! Seu esposo, Tanu, fora chamado ao palácio do espaço, após a chegada de ambos ao mundo natal, para
entrevistar-se com o próprio deus vivo, para prestar-lhe contas do desastre em
Waldor e ainda não dera sinais de vida! Ela era bastante realista para saber
que o imperador não perdoava fracassos e que seu marido certamente cairia em
desgraça perante sua alteza, depois do fiasco em Waldor! Preocupava-se com a
sua própria situação como esposa de um possível futuro exilado...ou coisa pior!
Fitou a paisagem pensativa e a imagem de
Lawrence Tarkah veio-lhe à mente, entre sentimentos conflituosos e confusos!
Devia esperar por notícias de Tanu ou...tomar seu destino na suas mãos, antes
que fosse tarde!? E se capturasse os tais fugitivos humanos para usá-los como uma eficiente barganha
ou oferenda diante do deus vivo, para
lograr uma sorte melhor que seu esposo!?! O imperador certamente adoraria por
as mãos em humanos de novo! E a mulher pálida!?? Ele se deleitaria em possuí-la
na cama, quando a visse, com sua beleza e sensualidade alienígenas! O velho
sátiro não resistiria a ela!! Varnia esboçou um sorriso satânico e bateu palmas
novamente, decidida! Um servo atendeu-a pressuroso!
-Chame o capitão da guarda imediatamente!
Em minutos, o militar
se apresentou; ela o fitou com autoridade e ordenou:
-Prepare minha espaçonave pessoal e embarque toda a guarda!
Vamos partir para Breda!
Enquanto o oficial se retirava, a bela alaranjada tornou a admirar a
vista da varanda, piscando seguidamente
seus olhos violetas, aspirando o ar ricamente ozonizado, ao passo que acariciava suas madeixas em coque, sorridente e imersa em profundos e profanos pensamentos!
* * *
O garçom saudou-os
com inusitada solicitude, ao chegarem para o almoço, no bar semi-deserto! Os raros presentes os encararam com a habitual
indiferença alien! O ser de pele acobreada e olhos idem, serviu-lhes bebida e um prato de algo
extremante cheiroso, apesar do aspecto um tanto indefinido! Com orgulho, o
homem de cabelos ruivos anunciou:
- Salada de Tyghish!! Podem comer a vontade! Tudo do bom e
do melhor na casa para meus clientes mais exigentes!
-Tyghish, hein!? Parece gostoso! –murmurou Aydr, analisando
a aparência do prato!
-Por que tal deferência!?-indagou Tarkah, curioso!-Até
ontem, éramos apenas “forasteiros” para você!
O garçom sorriu, apresentando a maquineta de cobrança para
que pagassem a refeição!
-Até ontem vocês não tinham 7.000 créditos para gastar no
meu humilde estabelecimento! De agora em diante, tudo que me pedirem será pouco
para seu deleite! Comida, diversão...querem mulheres? Tenho algumas muito
boas!! Um casal distinto como vocês certamente desejaria ter uma orgia da
melhor qualidade, como é da moda em Kosh!
O humano fitou a tuliana, sorrindo da idéia! Aydr retrucou,
atenciosa!
-Uma idéia assaz estimulante!! Talvez em outra hora! Agora,
deixe-nos comer!
-Ah, eu ia esquecendo! –exclamou o alien, sorridente! –Dirah
gostou tanto do seu desempenho que recomendou vocês com muita ênfase, ontem! Há
um potencial interessado em seus serviços de pilotagem ali naquela mesa!
–apontou um ser de pele azulada, em vestes felpudas, humanóide, mas com aspecto
algo soturno, num canto do bar! Tarkah encarou o estranho e indagou ao garçom:
-E de que raça ele é? Não parece um brediano ou koshita!
-Ele é de Calendhia -4 ! São uma raça de mineiros! Tem uma
mina de toral no leste e está sem transporte para lá!-fez um gesto intimista e
sussurrou! –Ele está com muitos créditos
nos bolsos!
O coronel
meneou a cabeça, interessado! Aydr provava a iguaria estranha e parou de comer,
ao ouvir isso! Ela retrucou para seu amado, quando o alien ruivo se afastou:
-Não está pensando em....
-Precisamos de fundos, não!? Se quisermos sair deste
mundículo obscuro, devemos ter o suficiente para fazê-lo! Breda não nos é seguro, pois Tarin pode
trazer os koshitas direto pra nós, aqui! Comece a sondar com o garçom como
achar um mapa estelar que indique os
possíveis planetas deste sistema...procure um mundo melhor que este
aqui, para que rumemos para lá tão logo eu conclua esta...missão!- e
levantou-se da mesa, decidido, indo para a mesa do ser azulado!
-Não vai comer primeiro?-indagou ela, mastigando a comida à
sua frente!
-Não obrigado! A julgar pela aparência disso ai....De agora
em diante, sou vegetariano! –ironizou ele, se afastando!
* * *
No fim do
dia, ele retornou ao quarto do motel, satisfeito! Acabara de pousar, vindo do
leste! O calendhiano ficara obviamente
impressionado com sua eficiência e lhe pagara muito bem pela viagem! Exibiu o
disco de créditos prateado para a ansiosa tuliana, dizendo:
-10.000 créditos, menina!! A viagem era de fato mais longa
que a que fizemos para Dirah, por isso demorei! O alienígena me pagou 10.000
créditos!!!
-Isso deve bastar! Analisei um mapa estelar que o garçom me
vendeu!-mostrou um aparelho com visor! –Há pelo menos sete planetas além deste
aqui, na órbita deste sistema trinário! Dois deles são afastados e
não-federados como Breda, só que mais hospitaleiros para nos
escondermos!-comentou ela, animada e feliz com os bons rumos de seu “negócio”!
-Devemos ir além deste sistema! Os koshitas procurariam em
todos os mundos daqui por nós! Precisamos ir para outro sistema estelar! –sentenciou
o militar, pensativo, enquanto despia-se para tomar uma ducha! A tuliana
avaliou o mapa em suas mãos, mudando as telas do visor!
-Se é assim, terei de pesquisar um pouco mais!
-Com certeza! Estamos ficando falados no bar! Embora seja
bom para nossas finanças, não é adequado para fugitivos ficarem notórios no
lugar em que se escondem! –ele entrou no chuveiro, aliviado após o calor
daquele dia no leste! Aydr respondeu com um muxoxo:
-Só vejo aqui perto deste sistema um, aparentemente
adequado.... Tem um sol amarelo e oito planetas em sua órbita; na zona
habitável, tem três deles, dois são
povoados, com atmosfera compatível para nós...
-Já é um começo! Vou reabastecer os cristais de força da
nave e partiremos em um dia!
-Pena que não possamos ficar mais e ganhar mais um pouco de
dinheiro.....-lamentou-se a moça alva! O humano criticou-a:
-Ganância nunca levou a lugar algum bom! Não forcemos a
sorte.... Vamos embora amanhã...sem fazer alarde!
* * *
Na manhã
seguinte, saindo da órbita do planeta verdejante, oriunda da capital koshita,
uma nave armada de grande porte embicava para um determinado ponto do espaço
interestelar! A bordo, uma pensativa mulher alaranjada! Um servo veio
anunciar-lhe uma ligação importante! Ela dirigiu-se à cabine de
telecomunicação, aonde uma tela
iluminada exibia o semblante algo abatido de Lord Tanu! este ao vê-la,
arrulhou:
-O que está fazendo no espaço!? Por que saiu de nossa casa??
Está me abandonando, ingrata!?
-Eu deveria, Tanu? A situação aí no palácio é tão grave
assim!??-retrucou ela, tentando aparentar indiferença! O consorte suspirou
pesadamente;
-O deus vivo ainda não me recebeu... Estou aqui há dias,
esperando uma audiência! Ouço boatos...estou preocupado, Varnia!
-Que boatos?
-Que o imperador está farto dos fracassos na galáxia dos
humanos! Fala-se até que ele pensa em desistir do projeto da invasão! Ele
estaria pretendendo punir exemplarmente os responsáveis por seus insucessos.....Sabe
o que significa isso, minha bela!?
-Sei! Exílio, escravidão ou....
-Morte! –complementou ele, desanimado! –Não tenho permissão
sequer para sair daqui....Temo que esteja com meu destino traçado! A idéia de
ver você saíndo da capital talvez não seja má, na realidade! Se eu cair...eles
irão trás de você, como minha esposa...sabe que a punição recai sobre todo o
clã infrator!
-Sim, eu sei! –Varnia ficou fitando o vazio, ao invés da
face de Tanu! Com frieza calculada, replicou!–Jamais deixaria eles me prenderem
e escravizarem! Perder nosso status de nobres!?!? Nunca!!! Eu estou viajando por outro motivo, mas não
deixa de ser uma boa idéia sumir do mapa por uns tempos, longe da capital!
Lamento por você, meu amado....mas eu não ficarei a vista deles para uma
eventual punição familiar, assim sendo...não se acovarde ai no palácio e lute
por nós dois!! É só o que lhe resta fazer....
-Eu o farei...Por você, minha deusa, eu o farei! Mostrarei
ao imperador que somos inocentes!-ele ia desligar, mas indagou de chofre!-Mas
aonde você está se dirigindo agora!?
-Eu estou indo para Fatrya-8! Anseio por um descanso após
estes últimos contratempos!- mentiu Varnia, sorridente. O koshita na tela
abriu-se num largo sorriso como o dela!
-Ahh! As fontes termais de Fatrya-8!! Claro!! Não há por que
você ter de sofrer as agruras que estou sofrendo aqui..... Fez uma boa
escolha, querida! Lamento não poder
estar lá com você! Aproveite sua estada e
me ligue quando chegar! -a tela
se apagou, com o fim da transmissão; a bela koshita alisou o coque verde e
suspirou, maliciosamente:
-Aproveitarei, querido... E quando você cair, cairá sozinho!
* * *
Pela
manhã daquele mesmo dia, em Breda, o casal
esgueirou-se para o campo de pouso, bem
cedinho! Ninguém acordara ainda na vila e eles não foram vistos ao embarcarem
na nave pousada! Com rapidez, Tarkah ativou os motores e decolaram rumo ao céu
de coloração indistinta, em pleno alvorecer! Logo estavam fora de órbita e o
planeta rochoso ficava para trás! A tuliana orientava o humano, analisando seu
mapa estelar!
-Há um portal de “salto” bem ali, após o quinto planeta!
-apontou ela no mapa digital! Lawrence meneou a cabeça, observando o marco
citado!
-Chegaremos lá em meia hora, em velocidade subluz!
-Lawrence.....
-Sim, meu amor?
-Acha que voltaremos para nossa galáxia um dia? Quero
dizer...será que um dia conseguiremos acessar um portal que nos leve para casa?
O humano
permaneceu em silencio, sério, piscando seguidamente os olhos claros; ele sabia
que era muito improvável tal acontecer,
depois do desastre koshita em Waldor! Embora procurasse sempre transmitir confiança para ela, no tocante a
voltarem para seus lares um dia, o coronel não tinha muita convicção disso e já
pensava em como sobreviver o resto da vida numa galáxia estranha a milhões de
anos-luz de casa! Virar piloto de aluguel?! Olhou para ela e indagou,
preocupado:
-Este corpo que você ocupa......Ele é eterno ou.....?
Aydr baixou os olhos cinzentos, tristonha!
-Tenho de reciclá-lo a cada ano em que eu estiver nele! A
minha natureza de pura energia o consome continuamente e só minha vontade o
impede de desintegrar-se ao fim deste tempo! Em casa, isso seria simples e
corriqueiro, mas aqui....
-Como assim?!
-Estamos noutra galáxia...Não tenho a infra-estrutura que
teria lá, em Tulion! Nem sequer sei se as leis da física daqui são
idênticas às de lá! Em resumo: não sei
se poderei me transmutar aqui, quando chegar a hora....
O militar estremeceu com a afirmação e gemeu:
- E se você não puder evitar a desintegração...você
morrerá!?!!?
-Apenas esta casca de carne... Eu reverterei à minha
condição original...Luz ! Sou imortal, lembra-se?
- O quê?! E... e vai ficar
lá flutuando no seu paraíso astral para sempre, enquanto eu me ferro
aqui embaixo até morrer!!?? Aydr!!!!-fitou-a assustado e zangado!-Não se atreva
a me deixar sozinho nesta imensidão alienígena dentro de um ano....ou a
qualquer tempo!
-Eu não o farei, querido...sabe que não desejaria tal coisa!
-ela ficou calada, pensativa; ele sorriu
amarelo, tentando desanuviar o ambiente:
- Imortal, hein? Nunca me apaixonei por uma deusa, antes....
Qual a sua idade, Aydr?
-Eons de seu tempo....milhões de anos terrestres! Já fui
carnal como você, sabia? ...Mas há muitas eras atrás, minha raça evoluiu para o
próximo estágio...pura energia de pensamento! Isso é o que sou atualmente!
-Incrível! -ele a olhou de cima abaixo, malicioso! -Está
muito bem conservada, para alguém que conviveu com os dinossauros!- e deu uma
risada gostosa que a contagiou!
-Bobo!!! -ralhou ela, dando-lhe um tapa na cabeleira loira!
O casal descontraiu-se, rindo e mudou de
assunto, afastando maus augúrios para dali a um ano!
* * *
A nave particular de Lady Varnia entrou em órbita de Breda! O piloto a avisou do evento e ela se dirigiu para a sala de tele-transporte, sisuda, num macacão de combate! Atrás dela, um pelotão de guardas com armaduras violetas postou-se nos locais determinados para a descida, no terminal de teleporte! Sem dizer uma só palavra, ela apenas meneou a cabeça para o operador, que ativou a máquina! Em segundos, o grupo armado foi enviado para a superfície desértica, chegando num terminal idêntico, localizado no interior da fábrica de beneficiamento de toral, na vila remota aonde sua caça devia estar, conforme o depoimento de Tanir! Sem dar a menor atenção aos responsáveis pelo local, ela atravessou as dependências da empresa e se dirigiu célere, pela trilha arenosa, para a vila propriamente dita, alcançando a taberna do garçom brediano! Os poucos clientes ali assustaram-se com a chegada do grupo armado! A Guarda Violeta era do imperador de Kosh e todos sabiam que aonde ela ia, haveria problemas para todos no local! Varnia postou-se no meio do salão, com as mãos na cintura e bradou, bonita e autoritária:
-Procuro
dois alienígenas, um macho e uma fêmea! Humanos, de pele clara; ele tem cabelos
da cor do ouro...a mulher, muito, mas muuito branca, de cabelos negros e de
olhos cinzentos! Calou-se e fitou os presentes, inquiridora!- Não tentem
ocultar nada de mim ou minha magia os abaterá como vermes que são!
-Bruxa!!!
Ela é uma bruxa de Kosh!!- murmuraram alguns, temerosos! Outros fizeram menção de largar suas bebidas
e se retirar, apavorados, mas os guardas
os fizeram sentar-se de novo!
-Eu repito:
se alguém sabe aonde eles estão...devem confessar-me isso! Agora mesmo ou
enfeitiçarei a todos aqui! -fez um gesto cabalístico e as garrafas das mesas
voaram pelos ares, explodindo contra as paredes e gerando terror nos fregueses
do bar! O garçom de tranças ruivas e pele vermelha fez um sinal e pediu a
atenção da maga!
-Fale!
-Por favor,
soberaníssima! Não destrua meu estabelecimento! Os que procura não estão mais
aqui!!
-Continue...
-Eles
partiram esta manhã, bem cedo! Só soube disso quando o gerente da hospedaria
informou-me que o quarto deles estava
vazio! Ficaram aqui só uns dois dias, ganharam um dinheiro com fretes e...se
foram!
-Para
onde???
-Não sei!
Ninguém aqui sabe!!- Varnia arregalou os olhos violetas e fuzilou o homem com
eles! O brediano caiu de quatro, urrando de dor e medo! Ela sondou sua mente de
forma brutal, em segundos, furiosa por
não obter o que buscava! De súbito, cessou a sondagem e ele caiu ao solo,
desmaiado! Fitou os demais e estes se encolheram, transidos de pavor! Escolheu
mais um, ao acaso e sondou-o mentalmente de forma agressiva, como fizera antes! O infeliz deu um grito e
caiu ao chão, gemendo! Partiu para um terceiro, insatisfeita e repetiu a
tortura! Um quarto! Um quinto! Ela cessou a sondagem quando só restava um
bêbedo em pé, grogue demais para ser-lhe útil, mesmo sob sondagem mental! Com
fúria total, deu meia volta, desviando-se de corpos trementes no solo, e dirigiu-se para a hospedaria, em busca de
pistas do casal maldito! Lá chegando, invadiu o cômodo utilizado por eles,
vasculhando tudo em busca de um indício do destino deles, em vão! Furiosa e
frustrada, a bela koshita saiu de lá rumo à fábrica de toral, e ao portal de
teleporte, ansiosa por retornar á sua nave em órbita! A viagem se deu em
seguida e ela abordou o piloto, incisiva:
-Eu busco
uma nave do modelo Wan, para três tripulantes, que saiu deste mundo hoje bem
cedo; pode rastreá-la para mim?
-Senhora: estas
naves não são como a nossa, que dispensa
o uso de portais! Este modelo serve para
viagens transdimensionais, unicamente por portais! Se ela está indo para algum
outro sistema, tem de passar por um portal e este sistema só tem um destes,
próximo à órbita do quinto
mundo!-mostrou ele, num mapa estelar!
-E é óbvio
que eles não ficariam nos planetas locais... Seriam muito visados aqui por nós!
-raciocinou ela! -Se eu fosse eles, tentaria mesmo sair do sistema! Trace rota
para o tal portal! Ao chegarmos lá, pode seguir os rastros deles?
-Não será
difícil, se outras naves não tiverem usado o portal...
-Este
sistema obscuro não deve ter tráfego de vulto...Aposto que só os meus fujões
terão usado o tal portal, quando lá chegarmos! Execute minha ordem!- decidiu
Varnia, com um sorriso nos lábios sensuais!
* * *
A pequena nave
“saltou” pelo portal do quinto mundo e
emergiu em um sistema totalmente diferente daquele em que se encontrava! Enquanto
Tarkah manobrava, procurando o planeta desejado, Aydr contraiu-se em aparente
desconforto! ele indagou, atencioso:
-O mal estar
do ”salto” de novo? Coitadinha...sinto muito por isso, mas foi preciso!
-Não...começou
antes de entrarmos no portal!-murmurou ela, sacudindo a cabeça, num calafrio!
-Foi como....um mau pressentimento!
-Como
assim!??
-Sei lá! Já
senti isso antes, mas não me lembro quando ou por que!-ela sorriu amarelo!
-Desde que chegamos nesta galáxia,
eu...me sinto esquisita! Minha telepatia está meio fora de sintonia, meu corpo
está me dando sinais confusos... Acho que deve ser pelo quantum de energia que
existe aqui, o qual deve ser diferente do de nossa galáxia!
-Huumm...está
se referindo a que, exatamente!?
-Bem, tem a
ver com as leis da física que regem o todo! A dimensão física daqui parece ser diversa
da de lá de casa! O astral desta galáxia é....é...como dizer?....
-Diferente!?-chutou
o coronel.
-Sim, é por
aí!
-Não sinto
nada de novo; tudo parece rigorosamente igual em qualquer lugar que vamos!
-Tem de ser
mais sensível para perceber isso....-sussurrou ela, pensativa!
-Obrigado!
Está me taxando de ”primitivo” de novo!?-riu-se ele, debochado!
-Você é
primitivo! Pena que eu o amo, meu trogloditazinho!-pilheriou ela, que a cada
dia adquiria mais facetas emocionais! O homem sorriu, impressionado com a
capacidade dela em fazer piadas, e
que a uma semana ou duas atrás, seria
incompreensível, numa tuliana! Com tranqüilidade, manobrou no espaço, dirigindo-se para um mundo
predeterminado e disse:
-Sabe? Até
que para um ex-comandante de cruzador, eu ainda sei pilotar direitinho! Esta
navezinha é realmente muito boa!!
Aydr
encarou-o, interrogativa:
-Por que
fala assim, “ex-comandante”!?!
-Porque
eu sou exatamente isso.... Não sei se ainda voltarei a servir à Frota! Não sei sequer se ainda posso
me sentir militar, numa situação complicada como esta nossa! Eu diria que, na
atual realidade que vivemos, estou mais
para piloto de fretes... de
aluguel!!-falou com evidente tristeza e vergonha na voz! A moça alva suspirou,
solidária, acariciando seus cabelos loiros com compaixão!
XVII
- Sob o sol amarelo!
Lady Varnia examinou o
portal à sua frente, atenta! O piloto do
seu vaso estelar terminou suas observações e dirigiu-se à ela, na ponte de
comando:
-Minha
senhora: Já tenho o rastro de resíduos dos motores deles! Foram de fato, a única nave a usar este portal,
hoje cedo! Posso seguir a trilha até o
destino final, pelas informações contidas no banco de dados do portal!
-Faça
isso! “Salte” assim que tiver as informações!
O
koshita anuiu e voltou ao seu trabalho! A dama astuta esfregou as mãos de
ansiedade!
-Desta
vez será diferente, Humano!
O
piloto informou-lhe seguro de si:
-Zukor!
Foram para o sistema Zukor! Só há três mundos viáveis à vida por lá!
-Execute!-
murmurou ela, sentando-se na poltrona de comandante da nave! O vaso estelar
tremeluziu e desapareceu, “saltando”
para o seu objetivo!
Em uma fração de segundo,
estavam na área visada! Um enorme sol amarelo brilhava ao longe, banhando
vários globos bem espalhados em órbita
dele! o piloto sorriu, vitorioso:
-O
rastro de energia está forte e visível para nossos sensores! A nave foi para o
sexto planeta....Zukor -6!
Ela franziu o cenho! Não se lembrava de detalhes sobre o mundo citado!
Voltou-se para seu servo e indagou;
-
Este sistema é dominado por nós?
-Zukor
foi atacado e tomado pela segunda
imperatriz há anos atrás! Sim, nos pertence comercialmente! A Guarda Negra
domina os espaços aqui!- ele olhou para sua ama, preocupado!
Varnia soltou
uma praga! Na ânsia de agarrar seu desafeto, esquecera-se de uma regra de
etiqueta básica! O efetivo dominante no
espaço local era da segunda imperatriz e os seus homens pertenciam à Guarda
Violeta, da primeira imperatriz! Como era sabido por toda Kosh, aonde uma
guarda dominava, as outras não punham os pés, sob pena de incidentes sangrentos
imediatos e de discussões intermináveis entre suas patroas, na corte! Isso se
derivava da eterna guerra comercial que ambas, mais o próprio imperador,
travavam entre si, um querendo ofuscar os bens e domínios dos outros! Tal
contradição era norma real no império há séculos e todos os imperadores e suas
esposas competiam entre si, pelos novos povos conquistados, visando sempre
lucros e mais lucros do comercio oriundo disso! Seus exércitos particulares digladiavam-se
sangrentamente entre si, pela vitória em
cada invasão e as baixas sofridas,
pesadas ou leves, não eram mais do que
simples registros no balancete econômico final dos soberanos! Inacreditável
para os humanos, tal sistema de vida era normal e aceitável há eras, para os estranhos seres de pele
alaranjada!
A dama andou de um lado para outro,
pensativa! Como evitar um incidente, se uma patrulha local dos Guardas Negros
encontrasse uma nave cheia de Guardas Violetas
em seus domínios!?
-Ative
a camuflagem! Não devemos ser detectados pelos Negros, entendido!?
-Sim,
senhora!
-Rume
para o tal mundinho!
* * *
A
pequena nave descia rumo à atmosfera do gigantesco planeta azulado! Havia uma
monstruosa tempestade martelando um quarto de um hemisfério inteiro
abaixo e o militar franziu o cenho, preocupado! Aydr percebeu sua tensão e
indagou:
-
O que houve?
-Aquela
tempestade! É imensa!!..... Não sei se será legal entramos naquela região! Se a
tormenta está grotesca assim daqui do alto, como estará na superfície!? Esta
nave é frágil!!
-Rume
para o hemisfério setentrional, então! Lá parece livre de borrascas
gigantescas! -sugeriu ela, apontando para o norte! Tarkah meneou a cabeça como
se concordasse, mas aduziu:
-Pelo
que diz aí no seu aparelhinho de mapas estelares, a maior parte da civilização
local vive no sul! Por que será que o norte é despovoado!?
Ela
olhou a tempestade-monstro que ribombava lá embaixo, colossal e aterradora e
estremeceu, murmurando:
-Seja
por que motivo for, deve ser melhor que pousarmos no meio daquilo lá!
-Concordo
com você! -disse o humano, guinando a descida do veículo para a região norte!
Atravessaram a camada de nuvens e surgiram sobre um grande mar! não se via
terra em qualquer direção!
-Eis
o motivo pelo qual ninguém vive aqui!! -resmungou ele, observando as vastidões
aquáticas! -Cadê os continentes!? Só tem água no norte!
-Deixe
eu ver aqui....- a tuliana consultou seu aparelho de navegação e exclamou, após
alguns momentos! -Vá para nordeste! Há terras secas para lá! Grandes ilhas!
O
piloto anuiu e a nave voou sobre um céu
enfarruscado, na direção indicada! Em minutos, sobrevoavam ilhotas e após
estas, massas de terra maiores, mas ainda insulares! Tarkah começou a procurar
um local de pouso! Com decisão, escolheu uma planície vazia, com vegetação rasteira, de tonalidades azul-claras! O espaçoplano
pequeno rugiu, espalhando fumaça e fogo ao pousar, com seus motores potentes! O
humano avaliou os instrumentos de bordo, cauteloso:
-Atmosfera
respirável... graças a Deus! Não aguentava mais ter de usar os escafandros!
-Há
vida inteligente por aqui por perto?
-Não
sei...Não vi casas ou cidades...Só esta mata rala!
-Vamos
lá fora!-sugeriu a jovem, empunhando sua
arma pessoal, atenta. Ele a seguiu, desembarcando num solo fofo e úmido. A
paisagem seria monótona devido à vegetação franzina... Mas o que os cercava era
realmente bem mais inesperado! Um grupo de humanóides, em trajes militares, de
pele amarelada e cabelos curtos marrons, surgira não se sabia de onde e os
rodeavam com caras de poucos amigos! O coronel suspirou, entediado:
-Lá
vamos nós outra vez! Abaixe sua arma, querida....-indicou os inúmeros fuzis
apontados para eles, conformado!- o que parecia ser o líder do grupo, bradou
algo num idioma desconhecido! O humano fez um gesto de que não entendia o que
este falava! O alien encarou um subalterno, que se adiantou, com o indefectível
tradutor universal aplicado ao peito! Com empáfia, o interlocutor disse-lhes:
-Podem
me entender agora?
-Sim,
creio que sim...
-Somos
da patrulha zukoriana 3675, da Confederação Boreal! Quem são vocês!?
-Nós...-começou
o humano. O alien o cortou!
-Vieram
do sul!? São refugiados!?
-Refugiados!?
Do que!?
-Da
grande tormenta sulina, claro! Do quem mais seria?
-Eu
lamento, mas somos de fora deste planeta! Não fazemos idéia do que está nos
dizendo!- sorriu ele, descontraído; o interprete repassou ao líder o que Tarkah
dissera! O chefe disse algo mais, com severidade no semblante e só então o
humano percebeu que eles todos tinham uma espécie de crista, ou algo assim, que
se realçava na testa ao parecerem zangados! O intérprete disse:
-Meu
comandante diz que vocês não são de Zukor e
nem de Kosh, a julgar por suas aparências! De onde vieram, se não são
refugiados?
-É
uma longa história...podem nos dar permissão para ficarmos aqui, por enquanto?
-O comandante está caçando refugiados da grande
tormenta há duas semanas! Nossas patrulhas defendem nossos limites
diariamente, pois as fronteiras estão
fechadas e nosso país não recebe estrangeiros desde o início da tempestade!
Todos querem fugir do sul para cá e as ilhas não comportam tanta gente! A
guerra com o sul é iminente devido a isso! Eles não aceitarão ser mantidos longe desta terra abençoada, aonde nunca
temos catástrofes climáticas enquanto a deles está em ruínas, devido à grande tormenta! Irão nos invadir pela força!-
explicou o alien, com empáfia característica!
-Mas
como seu chefe mesmo disse...Nós não somos daqui ou de lá do sul! Somos
visitantes do espaço, de outro sistema estelar, e
estamos pedindo que nos deixem ficar aqui até que... consertemos nossa
nave! Depois partiremos, se for a vontade dele!-mentiu o coronel, tentando
aparentar humildade! O tradutor repassou seu pedido ao chefe, que os observou
minuciosamente, principalmente a mulher de pele tão alva! Depois de uns
segundos tensos, sua crista facial arrefeceu e sumiu, demonstrando que ele se acalmara um pouco e o ser amarelo decidiu, com o intérprete traduzindo:
-O
comandante diz que não pode perder tempo com estrangeiros não-zukorianos, pois já tem uma difícil missão a cumprir com os
estrangeiros daqui do nosso planeta mesmo! Vocês virão conosco até o comando central! Lá
decidirão o que fazer com vocês! -fez um
sinal ríspido para que seguissem em frente, com os soldados ladeando ao casal,
após desarmá-lo! A nave ficou para trás, no meio da planície azulada! Enquanto
andavam, Aydr indagou ao tradutor:
-E
os koshitas? Eles não mantêm a ordem por aqui!? Segundo meu mapa estelar, este
sistema é domínio deles! Como podem permitir este tipo de desordem civil entre
seus povos dominados!??
-Os
koshitas são comerciantes! Querem apenas
vender seus produtos para nós e não se intrometem em nossos assuntos internos!
Na verdade, eles vendem armas para os dois lados! Nós compramos mais do que os
sulistas!-sorriu o intérprete, orgulhoso!
-Que
pitoresco! -comentou ela, chocada, encarando o humano! Tarkah suspirou,
incrédulo:
-Que
galáxia maluca esta, não!? Kosh impera num hospício interestelar!
Andaram pelo campo azul por meia hora até que
chegaram a um monte; uma porta se abriu de seu interior e eles entraram na
pedra! Um turbo-elevador os conduziu para o subsolo, veloz, e então, os visitantes deram com a vista de
uma pequena cidade, embutida numa imensa
caverna artificial! O tradutor exclamou:
-Contemplem
nossa cidadela da fronteira mais remota!
Aqui começa a defesa da confederação!
-Aonde
nos levam?-indagou o humano, entre atento e preocupado! O ser de cabelos
marrons bem aparados retrucou:
-O
comando central tem uma sede aqui; os chefes irão decidir sua sorte!
Ele
olhou para Aydr, inquiridor, mas sem nada falar; ela percebeu que o coronel
desejava que ela sondasse sua mente! Com facilidade, a tuliana entrou em seus
pensamentos!
-Como
está seu dom?-indagou-lhe ele, mentalmente.
-Normal...acha
que...-pensou ela, para que ele a captasse!
-Sim!
Prepare-se para utilizá-lo ou....podemos acabar morrendo aqui! Esses caras não
me parecem confiáveis e estão em vias de entrar em guerra com seus iguais do
sul! Não irão nos dar muita atenção ou ter paciência conosco! É mais fácil se livrarem de nós a nos darem apoio!
-Entendo!
Estarei a postos se for necessário.....-mentalizou a tuliana!
-Será!
-pensou o humano, olhando significativamente para o chefe do bando! -Este
camarada só não nos matou antes por que ficou curioso com nossa aparência
física e quer nos mostrar para seus manda-chuvas!
-Pode
deixar!-concluiu ela, cessando a telepatia!
* * *
A espaçonave
koshita chegou à órbita do planeta azulado,
invisível sob camuflagem! Lady Varnia estava a postos para descer com um
pequeno grupo avançado mas as notícias não eram animadoras! O piloto mostrou a
tormenta continental lá embaixo!
-Está
acontecendo uma catástrofe climática em Zukor-6! Aquela tempestade colossal
cobre quase meio mundo! Nunca vi nada
igual! As terras sob ela devem estar devastadas, senhora!
-Não
é seguro descer?!-ruminou a dama de pele laranja! O outro meneou a cabeça,
confirmando:
-
Estou captando emissões de rádio dantescas, desde que chegamos a este sistema,
minha senhora! A tempestade no sul já
dura semanas!! Fala-se em milhares de mortos, cidades destruídas pelos ventos,
chuva e raios! A civilização deles está um caos! E mais...falam de guerra com o
Norte!!!
-Guerra!?
Com esta calamidade toda, ainda querem guerrear!?-espantou-se a nobre!
-Não
peguei os detalhes, mas parece que o norte do planeta não foi afetado pelo caos
climático e os sulistas querem invadi-lo, para fugir da tormenta!
-Política....sempre
essas idiotices! E meus alvos?! Onde eles estão? No sul???
- Se
tiverem descido lá com uma nave modelo
Wan.....viraram farelo na tempestade!
-Não........-ela
sacudiu a cabeça, contrariada! -O meu escravo humano é muito ladino para
cometer uma estupidez destas, tão visível a qualquer um, como você!-olhou o
piloto depreciativamente e concluiu! -Norte! Foi para lá que eles foram! Procure os rastros de energia da nave! O
servo obedeceu, impassível!
-Já
localizei!-disse após alguns minutos de busca!
-Vamos
para lá, agora!-determinou ela, austera!
A nave guinou para o hemisfério norte,
deixando a zona meridional imersa no caos da mega-tormenta! A planície insular
logo foi avistada no arquipélago sem fim
das regiões boreais! Uma pequena nave estava pousada no meio do nada! O
piloto iniciou o pouso ao lado da navezinha, avisando:
-Se
vai desembarcar, terei de desativar a camuflagem!
-Faça-o! Não
há ninguém lá embaixo, mesmo! -saiu da ponte, decidida a marchar pelo solo
azulado com seu grupo armado! Logo, estava em terra firme! A koshita não dera dez
passos em redor da espaçonave mirim abandonada pelos fugitivos, examinando-a, quando de súbito, uma saraivada
de raios verdes brilhantes caiu em cima de seus homens!! Era uma emboscada!!! O
tiroteio recrudesceu quando os koshitas desprevenidos resolveram reagir!
Varnia, aterrada, arrastou-se pelo solo
de vegetação raquítica azul, buscando voltar para sua astronave: Em vão! Estava cercada a uma distancia
considerável da mesma e não podia recuar para ela com o campo batido pelos
fogos! Os seus poucos soldados de armaduras violetas lutaram bem, mas foram
abatidos um a um, em menos de cinco
minutos, pois estavam sem proteção, num campo aberto de matança, sob um fogo
inimigo avassalador! A espaçonave da dama de Kosh, imóvel e indefesa no meio do
terreno, também estava sendo varrida por
tiros de enfiada, já com danos na fuselagem, e alguém lá de dentro teve o bom
senso de bradar pelos alto-falantes externos:
-Cessar fogo! Nós nos rendemos!!!!!-era a voz do piloto!
-Cessar fogo! Nós nos rendemos!!!!!-era a voz do piloto!
Varnia
permaneceu deitada e encolhida no chão, estupefata com a cilada em que caíra
até que passos se aproximando dela a fizeram se virar e encarar seus captores
vitoriosos! Eram soldados uniformizados, de pele amarela e cabelos rentes, de cor amarronzada, com fuzis de raios em suas mãos! Alguns chutaram os
koshitas mortos para certificarem-se de que o estavam mesmo e um deles ao
vê-la, bradou em uma língua desconhecida:
-Ora,
ora...o que temos aqui!!?? Comandante!! Venha ver só esta presa!!!
O oficial
zukoriano se aproximou, estranhando o interesse do subalterno! Ao reconhecer o
aspecto físico da mulher no solo, ele se admirou!
-Mas não são
sulistas!!!! São koshitas!!!
-Invasores,
comandante! Eles descamuflaram ao pousar! Se fossem amigos, não chegariam às
ocultas em nosso solo!!-observou o outro, hostil, cutucando a mulher com a
ponta de sua arma longa! -Levante-se, já!!!
-Isso vai
dar uma grande dor de cabeça para nosso povo......-disse o comandante,
assustado! -Não lutamos com Kosh!! Eles nos conquistaram!! Como vou
explicar...isso para os Negros!!???
O subalterno
não se intimidou! Apontou os corpos,
minucioso:
-Observe as
armaduras deles, comandante.....
-Não são
negras!!! - exclamou o líder, incrédulo, afinal atentando para o detalhe
apontado!-Mas como....?????????
-Exato!! A
Guarda Negra domina nosso sistema e estes koshitas têm armaduras violetas! Não
são da facção que nos conquistou!! Invasores!!!!!!!!- o subalterno girou para
Varnia e deu uma bofetada tão sonora e violenta
no rosto da atônita koshita, que
esta rodopiou no ar e caiu sem sentidos sobre um de seus infelizes comandados!
O zukoriano sorriu malévolo, com sua crista da testa inflada e rija,
gabando-se:
-Há muito
tempo que eu queria fazer isso com eles!!!- o líder, a esta altura, indignado,
meneou a cabeça, em concordância; afinal eles eram os conquistados e os
koshitas, seus senhores pela força das armas! Não haveria de se ter simpatia
pela raça alaranjada naquele sistema! Com sua crista frontal rija também,
furioso, o comandante apontou a nave
capturada de onde desembarcavam uns poucos koshitas rendidos e ordenou:
-Levem-nos a
todos para o comando central das nossa cidadela! Nossos líderes irão decidir
como ficará esta... Esta afronta diplomática destes “outros” koshitas
à nossa gente!
XVIII
- Sob a guerra total!
Quando a tropa atacante chegou
ao posto subterrâneo com seus prisioneiros, havia agitação frenética lá! Homens
armados corriam para todos os lados e
ordens eram bradadas pelo sistema de som da colônia! O comandante do grupo de
assalto estacou, preocupado e deteve um soldado que passava!
-O
que se passa!? Por que esta histeria toda!?
-A
Federação Austral nos declarou guerra!! Estão nos invadindo ao longo de toda a
fronteira sul!!! O governo deu-nos ordens de detê-los!!!!- e saiu correndo, ocupado!
O zukoriano líder não perdeu tempo; voltou- se para seu agressivo segundo
oficial e ordenou:
-Leve
os koshitas para as celas! Vou ao comando central para saber nossas ordens!
-Guerra
com o sul!!! Isso muda tudo!!-retrucou o subalterno, rilhando os dentes!
-Os
Negros interferirão?-indagou-lhe outro soldado, enquanto ele e os demais
levavam os koshitas sobreviventes pelos corredores apinhados de gente
atarefada! O ouvinte deu de ombros!
-Eles
nunca se meteram em nossas rixas menores... Mas uma guerra é algo grande... Até
para eles! Francamente, não sei e nem me importo!
O
grupo chegou a uma ala de prisão! Todos foram jogados em uma cela ampla,
defendida contra fugas por campos de força! Nela, estava um casal já conhecido
de um dos recém-chegados!
Lawrence Tarkah
arregalou os olhos ao reconhecer a mulher desmaiada! Aydr abaixou os dela,
desanimada, ao ver sua rival!
-Quando
tudo parecia que não podia ser pior......-retrucou ela, amuada!
-Varnia!!-murmurou
o homem, incomodadíssimo! Os koshitas com ela os olharam sem entender! Ninguém
ali os conhecia ou fazia idéia de que eram o alvo de sua ama!
-O
que faremos agora?-indagou a tuliana para seu humano! Este deu um muxoxo,
consternado! Observou o estado geral dos koshitas, sem armas, sujos, com fardas
rasgadas e comentou:
-Nada,
por enquanto! Está claro que eles também são prisioneiros destes aliens daqui...estamos no mesmo barco e a dama ali é
o menor de nossos problemas, no momento!
Varnia lentamente
voltou a si, reanimada pelos seus servos! Ao se deparar com o casal que a
observava de longe, estremeceu de surpresa!
-Humano!!!
Afinal !!!
-Galáxia
pequena, não!?-sorriu-lhe irônica a tuliana, intencionalmente fazendo-se notar!
A nobre rilhou os dentes ao ouvi-la!
-Meu
nome é Tarkah, Varnia... “Humano” me soa
pejorativo, vindo de você!-disse-lhe ele, sério.
-Seu
nome para mim continua a ser “escravo”,
Humano! -rosnou ela, ressentida! Olhou seus conterrâneos e ordenou-lhes,
ríspida!-Afastem-se! Quero falar a sós com eles!
Os
koshitas, passivos, se aglomeraram num
canto da ampla cela e deram-lhe
privacidade para se dirigir ao casal! Em voz baixa, ela queixou-se para o
militar, ignorando ostensivamente a presença da tuliana:
-Que
decepção!! Você me enganou! Eu lhe dei tanto
naquela cama e me retribuiu com traição!!-encarou Aydr, observando sua
reação! Esta permaneceu impassível! A dama continuou!- Você prometeu-me que ficaria no domo me aguardando
e no entanto, jogou-se no portal de teleporte
junto comigo para chegar à estação orbital! Você estragou tudo, escravo
maldito!!!! Condenou à danação tanto eu, como meu Lord Tanu!!! E tudo isso para
quê??! Para salvar esta vadia branca!!!-apontou cheia de raiva a tuliana, que
permanecia indiferente!
-Nada
tenho a dar de satisfações à uma inimiga de meu povo, Varnia! O que fiz, faria
de novo! Ao menos, detivemos a invasão de minha galáxia por seu império
demente!-retrucou ele, impaciente! A mulher alaranjada sacudiu os cabelos
verdes, liberando-os de seu coque! Com pretensa superioridade rosnou-lhe:
-Eu
os cacei por dois sistemas estelares! Agora que os tenho, sentirá a minha fúria
por sua traição!
-Ela
é doida de pedra mesmo! -riu-se Aydr, olhando para o militar!-Diga-lhe em que
situação ela está no momento... como todos nós aqui!
Varnia olhou
em volta, surpresa e só então se deu
conta da dependência que ocupavam! No ataque de raiva contra Tarkah, nem se
dera ao trabalho de ver isso!
-Estamos
presos!!!-concluiu atrasada!-Os zukorianos nos emboscaram!! -olhou para seu
pequeno grupo! -O piloto! Cadê o meu piloto!?
-Aqui,
senhora!-respondeu o koshita em questão! Ela esqueceu-se do casal e correu para
ele, assustada!
-A
minha espaçonave!!! O que houve com ela!!??
-Sofremos
alguns danos superficiais na fuselagem, durante o tiroteio, mas ...ela está operacional! -explicou ele.
Varnia fitou os demais, constatando como sobraram poucos, em relação ao seu
número inicial e gemeu, com os olhos violetas brilhando de preocupação evidente:
-Os
zukorianos avisarão a Guarda Negra!! Estamos enrascados!!!
-Eu
sei...os negros nos prenderão e levarão para sua alteza para julgamento!!!
Isso, se não nos executarem antes!!-murmurou o piloto, cabisbaixo.
-Julgamento??....O
código imperial de partilha é bem claro! Nós invadimos o sistema estelar deles! Seremos sumariamente
condenados!!-rebateu a dama, tremendo muito de repente! O casal observava a
cena à meia distancia e podia ouvi-los bem, graças aos tradutores instalados no
teto da cela!
-Então
nossa “captora” está encrencada! -murmurou Lawrence Tarkah, pensativo! A
tuliana respondeu:
-Creio
que seja hora de bolarmos um plano de fuga! Com os zukorianos ou os koshitas
rivais deles, estaremos em apuros... Posso influenciar os guardas lá fora para que abram a cela e escapemos no
meio da confusão reinante!
-Tenho
uma idéia melhor... -O homem fez um sinal para Varnia, que se lamentava com
seus companheiros! A nobre alaranjada se aproximou, intrigada! O humano
indagou-lhe à queima-roupa:
-Como
andam seus poderes telepáticos?
-Eu
sou uma grande maga!!!-exclamou ela, indignada!- Se está se referindo à minha
magia poderosa, ela está incólume, sim!!
-Então
proponho-lhe uma trégua em nossa pequena rusga pessoal e que unamos sua “magia”
à telepatia de Aydr, pra que todos saiamos daqui enquanto estes aliens
amarelados se estranham entre eles lá fora! Que tal!?
A
koshita não pensou duas vezes! Sabia o que tinha a perder se ficasse ali
naquela cela esperando os negros virem buscá-los! Com decisão, retrucou:
-Concordo!
Qual o seu plano?
* * *
Os dois soldados zukorianos de sentinela na porta da cadeia não foram páreo para a influência
mental das duas alienígenas ali cativas; sob sua hipnose, desligaram o campo de
força da porta e o grupo saiu sorrateiramente, em meio ao caos reinante na
cidadela sob ataque! Como guias, eles levaram os fugitivos através de
corredores agora mais desertos, enquanto
as explosões se sucediam no exterior e tiros ecoavam bem próximos! Todos os zukorianos que cruzavam com o grupo em fuga os ignoravam,
mais atentos à invasão de sua colônia
fronteiriça do que em questionar o motivo
de um pequeno grupo de koshitas se achar em trânsito por suas passagens
subterrâneas! Uns quatro deles, por precaução, foram imediatamente dominados
pela telepatia dupla de Aydr e Varnia, se unindo ao grupo como uma escolta
armada, protegendo-os de qualquer eventualidade! Chegaram logo a um nível de
fuga por um turbo-elevador vazio, e saíram à superfície! Os seres amarelos os
haviam conduzido por ordem das telepatas para uma saída afastada da entrada
principal do posto! Tarkah podia constatar de onde estavam, que o mesmo encontrava-se sob
ataque de uma frota inimiga que acabara de pousar nas suas imediações! O
combate em terra era frenético na entrada principal da colônia citada
e eles não foram sequer notados, ao escapar rumo à vegetação azul circundante! Os
soldados submissos levaram-nos em segurança, desbordando o
terreno em conflito, diretamente à nave
de Varnia, que ainda se encontrava no mesmo local em que pousara, sem
qualquer vigilância! As duas telepatas ordenaram então que sua “escolta” se
fosse, rumo à guerrinha particular da espécie deles e, quando ficaram
sozinhos, todos os poucos koshitas sobreviventes embarcaram na nave,
apressados, mas não sem antes recolherem os corpos de seus
companheiros abatidos no terreno, de forma a limpar vestígios da passagem da
guarda violeta por ali! Varnia encarou o casal que ficara para trás:
-Vocês
não vêm!!?
-Não
com você, Varnia...-respondeu o homem loiro, sério. A koshita resmungou:
-
A Guarda Negra não tardará a chegar! Não podemos ficar aqui! Venham e salvem suas
vidas! Eu honrarei nossa trégua!
-Temos
nossa própria nave; damos nosso jeito!
-Idiotas! Não sabem para onde ir daqui! Sua fonte de
energia já deve estar esgotada! Seria suicídio prosseguir nesta fuga insana!
–ela fitou os olhos do casal, ciente de que estava correta! Aydr encarou o
humano, suspirando desalentada:
-Receio
que deva concordar com esta víbora! Não temos como ou para onde ir, daqui...
-Com
ela, não vamos! Irá nos matar assim que
se sentir em segurança!
Aydr
apontou um flanco da pequena espaçonave
pousada adiante deles:
-Acho
que isso encerra a discussão...
O coronel
aproximou-se e avaliou o dano: um
disparo zukoriano, durante o ataque ao koshitas, destroçara a carenagem do
motor da nave portátil! Dava pra ver os
destroços da máquina lá dentro! O loiro deu de ombros:
-Isso
não voa mais........
Várnia
sorriu malevolamente, da entrada de sua própria nave! O casal se entreolhou e a seguir, fitaram o combate ao longe! Não
podiam ficar ali!
-Acho
que não temos escolha! –disse-lhe ela; o homem fitou a koshita, sério:
-Ok!
Estamos com você! Mas não se iluda, Várnia!
Ficarei de olho em você o tempo todo! Se tentar nos trair.... eu mesmo a
matarei !
-Sossegue...
nossa trégua está valendo!- retrucou ela, dando-lhe as costas e subindo a bordo da nave pessoal, que assim que o
casal embarcou, decolou!
-Camuflagem
imediata, piloto!-determinou a dama alaranjada, olhando de soslaio para o
loiro atrás dela, ignorando
propositalmente a presença de Aydr! Esta emitiu um longo suspiro, denotando
alívio ou exaustão, o que foi notado pelo humano.
-Sossegue...Por
ora, estamos a salvo...-sussurrou-lhe ele, meigo.
-Isso
não me preocupa...Lembra-se do que eu lhe falei sobre reciclar este corpo?
-Sim...-um
arrepio correu-lhe a espinha, ao recordar o assunto em si! Aydr precisava
reciclar sua aparência física de quando em quando, sob o risco de incinerar seu corpo, devido à sua natureza
de pura energia corporificada! Somente sua mente prodigiosa evitava que isso acontecesse, mas a matéria viva que ela
gerara não era capaz de resistir ao permanente afluxo de energia que a
corporificava, sem haver um periódico ciclo de “morte-vida”, como ele já
observara antes, na sua galáxia original! O problema era que estavam numa outra
galáxia, com leis físicas um tanto
diferentes, pelo que ela lhe dissera e havia a incerteza de que, se ela se
desintegrasse para regenerar seu corpo, conseguiria retornar ao estado sólido
de novo! Aydr murmurou:
-Temo
que este corpo esteja se degradando mais rápido do que eu previ... O esforço
mental para subjugar os guardas acelerou
o processo catabólico da carne! Estou usando de toda a minha força para manter
a coesão molecular, mas...estou ficando
exausta!
-O
que vai acontecer quando você não puder
mais se conter? Outra explosão de energia?! Matar-nos-ia a todos neste recinto
fechado!-sussurrou-lhe ele, preocupado!
-Não!!!
Eu estava enlouquecida da outra vez pela
tortura a que me submeteram! Estou em pleno gozo de minhas faculdades agora...
Quando o momento de desagregação se der, eu simplesmente...me
desmaterializarei!
-
Mas não sabe se voltará,
certo?-completou o coronel, tristonho!
-Eu
não capto nenhuma vibração da minha dimensão aqui... É como se esta galáxia não
possuísse qualquer grau de astral! Não sei para onde irei quando me eterizar...
Ou se sequer irei para alguma dimensão...
-Quanto
tempo falta?
-Pouco!
Não posso precisar certinho o meu tempo final.... Pode ser a qualquer
momento...-fitou o homem diante dela, cheia de amor no olhar! –Oh, meu
querido... como poderei partir assim, lhe deixando nesta situação!!? –olhou
Várnia, que distraída, vigiava o piloto
em sua rota de fuga sob camuflagem, atenta a qualquer aparição da Guarda negra!
–Tão longe de casa, sozinho...com aquela
bruxa! Eu... eu aprendi tanto com você...desprezava os seres físicos até
lhe conhecer...você me deu emoções! Fez-me sentir prazeres que nunca imaginei
existirem, na eternidade! O ato de
respirar, sentir o ar em meus pulmões...meu coração batendo forte... o vento no
meu rosto...até a languidez de um banho, que delícia...tudo foi você quem
me deu, meu amor! Hoje eu trocaria um
milhão de anos em Tulion, por uma única
vida com você, meu coronel.......
-Pelo
amor de Deus! Parece uma despedida! Aydr!
Você...está se despedindo de
mim??!!!- o homem agarrou-a, subitamente assustado! Várnia
voltou-se para o casal, atraída pela exclamação dele! Estupefacta, viu
Aydr tremeluzir, como um holograma com
defeito! A tuliana chorava abertamente, empurrando o amante para longe dela!
– Não!!!
Você não deve tocar-me agora.... Está começando! Fique longe, meu amor!
-Aydr!!!!-berrou Lawrence Tarkah, desesperado! A tuliana muita
alva acenou para ele, os olhos cinzentos plenos de lágrimas! –Aconteça o que
acontecer...eu vou voltar! Me espere, por favor!! – o seu lindo corpo físico
começou a tremeluzir mais rápido, parecendo ficar transparente, por instantes!
Várnia recuou, aterrorizada! Todos na ponte se encolheram, em pânico!
Alguém gritou! –Vai explodir!!!!
Mas
a explosão não veio... Aydr se desmaterializou aos poucos, como um
espectro! Em segundos, ela não estava mais lá! O humano
soltou um ganido de dor e desespero e caiu de joelhos no piso frio! Pela
primeira vez em anos, lágrimas brotaram de seus olhos claros! Ele ficou ali fitando
o vazio diante dele, enquanto uma aturdida Várnia se acercava, confusa como
todos ali presentes! Ela murmurou;
-Para
onde ela foi?!- o humano não lhe deu atenção, meio catatônico com o incidente!
A koshita sacudiu-o, chamando-o à realidade!-Responda-me! O que houve com a
mulher branca!!?? Ela morreu??!
-Eu...não
sei....-foi a resposta sem inflexão. Várnia ia falar algo, mas o piloto
alertou-os!
-Nave
da Guarda Negra se dirigindo para Zukor!!!
A
dama largou o homem estarrecido ali e correu para os painéis de vôo!
-Eles
nos detectaram??!
-Não!
Estamos sob camuflagem! Mas vão passar
bem perto de nós! –gemeu o piloto!
-Tire-nos
daqui depressa!! Leve-nos para casa!
XIX
– Na Corte!
Na viagem de
volta, Lawrence permaneceu sentado no piso, imóvel e distante! A esperança de
rever sua amada esvaía-se a cada minuto passado, sem que ela se materializasse
ali na sua frente! Preocupada em escapar com vida dos adversários negros, a
dama alaranjada concentrava-se nas comunicações de bordo e na janela da ponte,
vigiando o espaço lá fora! Esquecera-se por enquanto, do seu passageiro e uma
notícia que acabara de receber a fizera distanciar-se mais ainda desse assunto!
O
rosto laranja de seu mordomo em casa
exibia seriedade, na tela! A mulher de cabelos verdes encarou-o com
incredulidade!
-Pode
repetir o que acaba de me dizer??
-
Ao primeiro ciclo de hoje, o deus divino decretou a execução de nosso amo, Lord
Tanu! O crime de traição ao império foi
a motivação desta sentença final ! O amo foi
mandado para os ancestrais, agorinha há pouco! Toda a sua família está em desgraça...
Inclusive a senhora, milady! A guarda
dourada não tardará em chegar aqui em busca de sua pessoa!
-O
que devo fazer?! Se vou para casa, me matarão lá...ou pior...- a visão da
humilhação final formou-se em sua mente
desesperada! O imperador muitas vezes não matava os parentes dos condenados: os
escravizava! Perder seus status de nobreza, de dama da corte...tornar-se uma
escrava!!??? Nunca!!!- fitou o humano indiferente atrás dela! Sua mente febril
trabalhou como nunca! De supetão, desligou a tela e voltou-se ao piloto! –Trace
rota para o palácio imperial! Toda a força nos motores! – encarou Tarkah e
murmurou, decidida! - Você será a minha apólice de vida, meu caro escravo!
Os ouvidos
apurados do cativo captaram o comentário dela; ele a fitou, irado! A sua volta,
a uns dois metros dele, dois guardas de
Várnia o vigiavam ostensivamente, armados. Ele estava sem nada para se defender;
desanimado e frustrado pela perda de Aydr e pelo fato de estar a milhões de anos-luz
de casa, no seio do império inimigo, analisava as chances de uma atitude final,
tipo explodir aquela nave com todos a bordo e mais ele, pondo fim a uma epopeia,
a seu ver, de futuro funesto para um humano prisioneiro do imperador de Kosh! Essa
visão depressiva se desfez quando viu que a dama alaranjada vinha em sua direção! Se ela se aproximasse o
suficiente, talvez pudesse tomá-la como refém e ... e?????
Várnia
manteve-se à distancia prudente dele, o que o irritou mais! Com desdém,
disse-lhe:
-Acredito
que você não vá me dar as informações que desejo sobre sua deusa alva, mesmo
ela tendo se desintegrado perante nossos olhos, não?! Ela morreu, eu espero, sinceramente,
pelos deuses, eu espero!! O que era ela,
afinal?! Que espécie é essa que se parece conosco, mas que se desmancha no ar!?
-Se
já sabe a resposta que não vou lhe dar... Pra que perder tempo conversando
comigo?- resmungou ele, sem fitá-la.
-De
repente o sumiço misterioso dela lá no portal intergaláctico... o incêndio de
meus aposentos....Tudo começa a fazer sentido....Se ela pode se materializar e
se desmaterializar assim, tudo fica claro! – a mulher torceu o nariz! –Infelizmente,
isso pode significar também que ela não morreu de vez... Ela pode voltar a se
materializar, não é isso!? Bem aqui na minha nave! !- fitou os guardas em
torno, ordenando algo na língua koshita! Alguns se ausentaram da ponte,
obedientes, mas os sentinelas a seu lado permaneceram, armas nas mãos, bem
atentos ao humano. A dama de cabeleira esverdeada sorriu, triunfal:
-Pronto!
Já dei ordens para dobrarem a guarda por toda a nave! Se sua amada –demonstrou intenso desprezo no tom de voz, ao pronunciar
a palavra! - decidir retornar à minha nave, será recebida com fogo! E quanto a
você, meu fujãozinho ... vou dá-lo de presente ao deus vivo! Ele provavelmente
nunca viu um humano antes... Vai adorar ter um como mascote real!
-Acha
que seu rei irá poupá-la por me entregar
a ele!?? Você é uma carta fora do
baralho, mulher! Pelo que já ouvi dele, sua morte será tão certa quanto a
minha!! –deu uma gargalhada debochada! Várnia corou ligeiramente!
- Eu
devia crestar sua mente primitiva com minha magia, escravo! No entanto, o deus
vivo vai querer recebê-lo em boas
condições! Aproveite a viagem, coronel Tarkah! Em breve chegaremos o palácio imperial!
A mulher se afastou zangada! Ele percebeu que
esta era a primeira vez que ela o chamava pelo nome... ele a irritara mesmo! Cruzou
os braços e relaxou... Pelo menos naquele dia e momento, pouco lhe importava o
que viria a seguir; quando chegassem ao tal rei, veria o que poderia armar
contra ele! Sua mente começou a bolar uma ação realmente drástica pra encerrar
sua missão naquele fim de universo!
A viagem pelo portal dimensional
do sistema foi instantânea; Pela escotilha frontal da nave da dama koshita
surgiu uma estrutura realmente inédita para o espantado cativo! Uma estação
espacial? Uma mega-nave? Ele não a identificou como nenhuma delas! Era uma
enorme, longa e larga estrutura espacial, cheia de cúpulas luminosas e
antenas exóticas, decks e mais decks
sobrepostos em uma construção arrojada mas claramente antiga, de pouca ou
nenhuma aerodinâmica, que singrava mansamente o vácuo adiante deles, cercada por
numerosos vasos estelares que iam e vinham dela! O piloto emitiu um sinal de identificação
e recebeu permissão de se aproximar e pousar! Uma enorme baia de aterragem se
abriu numa das protuberâncias metálicas do casco e a nave de Várnia penetrou no
colosso flutuante!
Minutos depois, ela pisou em solo artificial,
altiva, apesar de tensa! Uma guarda dourada a esperava no espaçódromo! Era a guarda imperial! O
líder, que a conhecia, a saudou, respeitoso
e disse-lhe:
-Nobre
dama! O Imperador não a esperava!
-Ele...
Como ele reagiu à minha chegada?
O oficial alaranjado deu de ombros:
-A
senhora é uma dama da corte dele; não fosse pelos últimos acontecimentos,
infaustos para seu clã, gozaria de sua estima
como sempre...-fitou-a, sério! –No entanto, como deve saber, Lord Tanu
foi executado ontem...
Várnia
respirou fundo, tentando manter sua arrogância natural!
-Eu
estou ciente disso... Mas aqui estou por minha livre vontade para pedir uma
audiência ao deus vivo!
-Como
sabe se ele a receberá? Como sabe se eu não estou aqui para ... fazer sua justiça
ser cumprida?- e acariciou o coldre, enigmático. A bela mulher sorriu:
-Davok....
se não nos conhecêssemos de outras alcovas, juraria que está querendo me
intimidar! Você, me matar?! Ainda mais agora, que estou como você sempre
quis....? Solteira!-os olhos lilases faiscaram de gozo ao notar o efeito que
suas palavras exerceram no nobre centurião! Ele estremeceu levemente e disse:
-
Não quero realmente, mas... tenho ordens de prende-la, Várnia!
-Suas
ordens se diluirão quando vir quem eu trago para deleite de sua alteza!-
estalou um dedo e um grupo armado emergiu de sua nave, escoltando alguém!
-Sua
guarda violeta trouxe um cativo?! Mas quem...??- ao divisar o humano, Davok soltou um suspiro de espanto!- Mas
é.... é.....
-Um
humano, Davok! Meu presente para sua alteza imperial!
-
Isso muda tudo realmente! Ele não tem contacto com humanos desde que a invasão da galáxia deles começou!
-Ele
tem humanos aqui!? –murmurou ela, surpresa!-Mas eu pensei que ele não conhecia nenhum...Ao
menos, quando sai daqui, era assim!
-
Muita coisa mudou desde que você e Tanu emigraram! Sim, há humanos aqui hoje em
dia....
Várnia
sentiu suas pernas bambearem! Se seu presente não era inédito, seu valor ficara
comprometido inexoravelmente! E a vida dela também! Davok sinalizou para que o
grupo se aproximasse e analisou o prisioneiro; Tarkah manteve o olhar fixo
nele, silencioso e desafiador. O centurião dourado murmurou:
-Tem
porte e olhar de guerreiro! Quem é você,
humano?
-Coronel
Tarkah pra você, oficial! Sou um comandante de nave de guerra da Federação
Galáctica! Exijo ser tratado como tal!
Davok
franziu o cenho, surpreso!
-
Incrível! Prisioneiro e ainda tem empáfia! O imperador precisa conhecer este
espécime! Sigam-me! –deu as costas ao grupo e dirigiu-se para um elevador
vítreo ali perto.

Aqueles que voltaram. de José Mário Borges Fortes Lima é licenciado sob uma Licença Creative Commons Atribuição-Uso não-comercial-Vedada a criação de obras derivadas 3.0 Unported.
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